
Abastecer com etanol em Juiz de Fora está mais caro que em outras cidades de Minas Gerais. A Pesquisa de Preço de Combustível realizada pelo Procon de Juiz de Fora na sexta-feira (21) e divulgada no sábado (22), aponta preço médio de R$ 4,46 para o litro do etanol comum na cidade. Já levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) indica média de R$ 3,90 em Minas Gerais entre os dias 16 e 22 de agosto.
A diferença entre os dois valores é de R$ 0,56 por litro. Na comparação, o preço médio encontrado pelo Procon em Juiz de Fora está cerca de 14,4% acima da média estadual. Os levantamentos, no entanto, têm metodologias e abrangências diferentes: enquanto o Procon reúne preços praticados nos postos da cidade em uma data específica, a ANP considera uma amostra de estabelecimentos em todo o estado ao longo da semana.
Para especialistas ouvidos pela Tribuna, a elevação do etanol está diretamente ligada ao comportamento do mercado da gasolina. Economista e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Rafael Chaves explica que os dois combustíveis funcionam como substitutos para parte dos consumidores. Por isso, quando a gasolina fica mais cara, o etanol ganha espaço e também encontra margem para reajustes.
“Quando o preço da gasolina sobe, abre espaço para o preço do etanol subir junto”, afirma Rafael. Segundo ele, a pressão sobre os combustíveis derivada da alta do petróleo acaba chegando também ao biocombustível, ainda que a oferta de etanol esteja favorecida por uma boa safra.
Ricardo Hammoud, economista e professor da FGV, aponta outro efeito dessa relação: com a gasolina mais cara, motoristas passam a procurar mais o etanol, o que aumenta a demanda pelo produto e exerce pressão sobre os preços. “A gasolina fica mais cara, as pessoas começam a procurar o etanol, ele fica mais atrativo e, quando várias pessoas fazem esse movimento ao mesmo tempo, o preço também sobe”, explica.
Na pesquisa realizada em Juiz de Fora, o etanol comum foi encontrado por valores entre R$ 3,99 e R$ 4,69, uma diferença de R$ 0,70 por litro entre os preços pesquisados. O levantamento também apontou média de R$ 4,64 para o etanol aditivado.
A diferença entre o menor e o maior preço significa que, em um abastecimento de 50 litros de etanol comum, pesquisar antes de escolher o posto pode representar uma economia de até R$ 35.
Concorrência local pode influenciar diferença entre cidades
Os especialistas apresentam avaliações distintas sobre o peso da estrutura do mercado na formação dos preços. Para Rafael, o setor de combustíveis brasileiro já possui número elevado de distribuidoras e postos, com margens apertadas, e mudanças na concorrência não seria o principal fator para explicar oscilações do etanol no curto prazo.
Ricardo, por outro lado, considera que características de cada mercado podem ajudar a explicar o motivo pelo qual o aumento chega com intensidades diferentes aos consumidores. Segundo ele, localidades com menor competição ou maior concentração entre os agentes do setor tendem a ter preços mais elevados.
Além da gasolina, a utilização da cana-de-açúcar para a produção de açúcar também entra na conta. Rafael lembra que os dois produtos disputam a mesma matéria-prima. Ricardo acrescenta que, quando produtores encontram condições mais vantajosas para fabricar açúcar, a destinação de cana para essa produção pode limitar a oferta destinada ao etanol.
Minas tem maior alta do etanol no país
O preço acima da média estadual em Juiz de Fora ocorre em uma semana na qual Minas Gerais registrou a maior alta do etanol entre os estados brasileiros, conforme os dados da ANP compilados pelo AE-Taxas, do Estadão Conteúdo. O valor médio do combustível no estado aumentou 3,45%, chegando a R$ 3,90 por litro.
No Brasil, o cenário foi diferente. O preço médio do etanol permaneceu estável em R$ 3,91 por litro. O combustível ficou mais barato em 14 estados, teve aumento em quatro e no Distrito Federal e permaneceu inalterado em outros sete. A maior queda foi registrada em Goiás, de 2,58%, onde o preço médio chegou a R$ 4,16. Em São Paulo, principal estado produtor e consumidor de etanol e com o maior número de postos avaliados pela ANP, o preço médio permaneceu em R$ 3,61 por litro.
Na avaliação de Ricardo, não há, no curto prazo, sinais claros de alívio para o consumidor. O economista considera que a manutenção da gasolina em patamar elevado e o crescimento da demanda pelo etanol tendem a sustentar os preços nas próximas semanas.
Rafael também associa eventual redução do etanol a um cenário de menor pressão sobre o petróleo e, consequentemente, sobre a gasolina. Segundo o professor, a normalização do mercado internacional de petróleo poderia reduzir os custos do combustível fóssil e limitar o espaço para novos aumentos do etanol.
Ricardo cita ainda medidas tributárias ou subsídios como possibilidades capazes de reduzir o preço nas bombas. Sem mudanças desse tipo ou queda significativa da gasolina, a expectativa do economista é de manutenção dos valores elevados no curto prazo.
Etanol ainda é vantajoso em Juiz de Fora
Apesar de o preço médio encontrado em Juiz de Fora superar o de Minas Gerais, o etanol ainda aparece dentro da faixa considerada economicamente vantajosa em relação à gasolina.
A pesquisa do Procon aponta que a gasolina comum custa, em média, R$ 6,59 por litro na cidade. Com o etanol comum a R$ 4,46, o biocombustível corresponde a aproximadamente 67,7% do preço da gasolina.
Pela referência tradicional utilizada para comparar os dois combustíveis, o etanol tende a ser vantajoso quando custa até 70% do preço da gasolina. A relação encontrada em Juiz de Fora, porém, está mais próxima desse limite do que a média de Minas Gerais.
Segundo a ANP, a paridade entre etanol e gasolina no estado ficou em 63,11% na semana passada. Minas estava entre os dez estados, além do Distrito Federal, nos quais o biocombustível foi considerado mais competitivo.
Na média nacional, a relação entre os preços do etanol e da gasolina ficou em 59,97%. Especialistas do setor observam que a vantagem efetiva pode variar de acordo com o consumo e as características de cada veículo.
Estagiário sob supervisão da editora Fabíola Costa
Com informações do Estadão Conteúdo
