Foi-se o tempo em que ter um diploma de nível superior era garantia de emprego e bons salários. Profissionais qualificados, de setores antes desvalorizados, estão sendo disputados como em leilões: leva quem fizer a melhor oferta. Diante disso, os rendimentos também dispararam. Um exemplo é o salário médio registrado na carteira dos trabalhadores da construção civil em Juiz de Fora: cerca de 40% superior ao piso da categoria, segundo informações do sindicato dos empregados do setor. O aquecimento da economia e a falta de formação deste tipo de mão de obra, devido aos baixos salários pagos no passado, estão entre os principais fatores que têm contribuído para o atual quadro de escassez de trabalhadores qualificados em suas áreas, segundo especialistas.
O jardineiro Leandro Fernandes da Silva é um dos profissionais que são alvo de disputa por parte dos clientes. Atualmente, ele diz que não tem condições de assumir novos trabalhos, pois a agenda está sempre cheia. "Falo com meus clientes para não me indicarem e não passarem meu telefone, pois não tenho condições de atender mais pessoas." Silva tem 65 clientes fixos e desdobra-se para dar conta dos 80 jardins que administra (já que há clientes com mais de uma casa). Ele diz que chega a trabalhar em até três jardins por dia, em uma rotina que começa às 6h e só termina por volta das 20h. Tanto esforço rende ao jardineiro uma média de R$ 3 mil ao mês, salário mais de cinco vezes maior que o mínimo que recebia.
Porém, de acordo com o jardineiro, nem sempre o trabalho foi tão farto. Ele aprendeu o ofício com o pai, que ensinou aos três filhos, e desde os 12 anos trabalha com a jardinagem. Os irmãos desistiram do ofício diante da falta de perspectivas, mas Leandro continuou. No início, trabalhou para uma empresa, recebendo um salário mínimo. Começou a atender alguns clientes depois do expediente e, então, decidiu trabalhar por conta própria. Hoje, diz que consegue ganhar mais que os irmãos, está terminando de construir sua casa e já tem carro na garagem.
O gesseiro Claudenilson Guimarães Damasceno é outro profissional que chega a recusar clientes devido a grande demanda de trabalhos. Como o jardineiro, também começou a trabalhar em um empresa por sete anos. À medida em que foi recebendo propostas, deixou o emprego e passou a atuar como autônomo. O volume de trabalho foi tão expressivo que ele precisou constituir uma empresa e treinar novos profissionais para atender aos pedidos. "Cheguei a formar uma equipe com dez pessoas, mas elas foram saindo para trabalharem por conta própria." Hoje Claudenilson chega a ganhar uma média de R$ 5 mil por mês, e conta que paga até R$ 2.040 a seus funcionários. A profissão garantiu ao trabalhador casa própria, pickup e um Corolla 2009. "Para quem sabe trabalhar não falta serviço", diz.
O eletricista Miguel Angelo Beneteli trabalhava em uma indústria e hoje presta serviço na casa das pessoas como autônomo. Segundo ele, não falta trabalho, principalmente nos últimos dois meses, quando a demanda aumenta. O profissional cobra entre R$ 80 e R$ 90 por serviço e consegue fazer mais de um trabalho por dia, o que rende uma média de R$ 2 mil, chegando a R$ 4 mil em determinadas épocas, como o fim de ano. "Nunca me faltou serviço. Não chego nem a oferecer, as pessoas que me procuram."
Função rara
A raridade de algumas funções é o que garante, muitas vezes, uma procura maior. O cuteleiro Celso Pedro Batista trabalha amolando instrumentos hospitalares, além de alicates de unha. Único profissional credenciado pela Mundial na cidade, ele diz que fatura, em média, dez salários mínimos por mês (R$ 5.450). O volume fez com ele que levasse o filho de 24 anos para ajudar no serviço e, todos os dias, às 7h, já está em sua loja. "Se eu não chegar cedo, não dou conta da quantidade de trabalho."
Remuneração deve crescer ainda mais
No caso específico dos profissionais da construção civil, alguns trabalhos não estão sendo atendidos por falta de mão de obra. O engenheiro Guilherme Pompeiano Facio, da proprietário da GPF Construtora, diz que recusa alguns trabalhos devido à dificuldade de conseguir profissionais para executá-los. "A escassez é realmente grande. Antes tínhamos dificuldade de encontrar gente qualificada. Hoje não estamos conseguindo nem pessoas sem qualificação para treiná-las."
Segundo o engenheiro, o número de pessoas que estão deixando as empresas para trabalhar de forma autônoma é alto. "No mercado informal, pedreiros chegam a ganhar entre R$ 2 mil e R$ 2.500 por mês, o que é mais que o dobro do salário pago pelo comércio", compara. Por conta da valorização, as obras também estão ficando mais caras. "Os trabalhadores representam entre 45% e 50% do valor final de uma obra. Com o salário mais alto, a obra também encarece."
O número de trabalhadores formais no setor cresceu 35% nos últimos cinco anos em Juiz de Fora, passando de 6.863 empregados em 2006 para 9.298 para este ano, segundo a pesquisa Perfil do Município do Ministério do Trabalho.
O economista Marcelo Neri, coordenador do Centro de Pesquisas Sociais (CPS) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) prevê que os salários devem crescer ainda mais e que o setor deve apostar em melhorias nas condições de trabalho, como forma de atrair mais jovens. Segundo estudo denominado "Trabalho, educação e juventude na construção civil", realizado pelo professor, a construção civil está cada vez mais se tornando um setor de "meia idade".
De acordo com Neri, o apagão de mão de obra na construção civil está ocorrendo devido ao aumento do nível de estudos por parte da população. "O jovem não quer o trabalho braçal e de condições precárias da construção. Para atrair novos empregados, o setor terá que pagar mais." O economista também aponta como alternativa à escassez de trabalhadores a introdução de novas tecnologias nos canteiros de obras.
