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Comércio lucra nos domingos e feriados

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Juiz de Fora não possui uma oferta consistente de comércio aos domingos e feriados. Apesar de ser referência em compras para a região, a cidade tem o costume de paralisar boa parte de uma de suas principais atividades econômicas nestes dias. Enquanto os shoppings garantem o funcionamento por meio de acordos próprios, as lojas de rua seguem convenções coletivas e têm abertura facultativo. Desta forma, a oferta fica restrita a alguns estabelecimentos de varejo e de gênero alimentício, incluindo padarias, bares e restaurantes (ver quadro). Entre os empresários prevalece a dúvida se há demanda que justifique o funcionamento e a dificuldade de encontrar mão de obra que aceite uma rotina diferente. Para a categoria, falta valorização que incentive o trabalho em dias considerados de descanso. Quem encontrou a fórmula para vencer estes obstáculos e consegue caminhar na contramão garante que vale a pena. Há aqueles que registram aumento de até 50% no movimento em comparação com os dias de semana.

Há 29 anos no mercado, a padaria Maxi Pão sempre manteve o funcionamento regular nestes dias. Desta forma, conseguiu fidelizar clientes que tornaram tradicionais os cafés no seu espaço de convivência. “Sempre abrimos porque entendemos que trabalhamos com produtos que são essenciais para os moradores do bairro. Hoje essa clientela cresceu e recebemos muitas pessoas de outros municípios da região e cidades como Petrópolis e Três Rios”, relata um dos proprietários Fausto Zaiden da Mota. Quando questionado se a demanda justifica o funcionamento nos domingos e feriados, ele garante: “abrimos e fechamos a padaria com fila”.

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Segundo Fausto, o movimento aumenta 50% em relação aos dias de semana, e encontrar mão de obra que aceite a rotina de trabalho não foi problema. “Nos estruturamos internamente para evitar dificuldades operacionais, contamos com um departamento de recursos humanos.” Ele explica que, além da folga e da remuneração prevista pelo sindicato, há o pagamento de benefícios e o uso de ferramentas motivacionais. As unidades dos bairros São Mateus e São Pedro seguem a mesma rotina.

A empresária Adriana Barros viveu a experiência da dinâmica de trabalho aos domingos e feriados durante 18 anos no setor moveleiro. A poucos dias, ela inaugurou uma nova loja com a mesma proposta. “Funcionar em horários alternativos é dar oportunidade aos consumidores. A cidade precisa compreender que as relações de consumo mudaram, e o trabalho aos domingos e feriados permite que as vendas não sejam apenas uma troca de moeda, mas uma experiência mais prazerosa ao consumidor, que está com mais tempo para conhecer a loja, negociar e consumir.”

Para ela, Juiz de Fora precisa estabelecer relações com os municípios do entorno. “A cidade é polo da região. Quanto mais o comércio oferece horários alternativos, mais chances de realizar negócios nós teremos. Precisamos mudar essa cultura de termos as lojas do Centro fechadas sábado ao meio-dia.” Com relação à mão de obra, ela aposta em um acordo transparente. “O retorno financeiro é maior, pois os empregados são comissionados. É importante que eles conheçam a rotina e avaliem não só a relação custo-benefício, mas se têm perfil para esta área.”

Para o grupo Bahamas, a abertura aos domingos e feriados é garantia de sobrevivência dos negócios. Todas as 19 unidades funcionam, sendo que duas delas mantêm o trabalho 24 horas. “O domingo é o segundo melhor dia de vendas. O nosso negócio de varejo não se manteria se não abríssemos nesse dia”, afirma o gerente de marketing Nelson Júnior. “O feriado segue o mesmo ritmo, com a diferença que temos mais clientes de fora da cidade fazendo compras.”

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Segundo ele, as vendas aos domingos possuem características próprias. “Observamos que é a família que se reúne para fazer compras.” Sobre a dinâmica de contratação, Nelson explica que, durante o processo seletivo, os candidatos têm conhecimento sobre a rotina de trabalho. “Temos a preocupação de deixá-los cientes e cumprir na íntegra o acordo firmado entre os sindicatos.”

Alternativas para ficar aberto Sindicato rejeita abrir mão de descanso

Os clientes da Papelaria Paraíso, no Alto dos Passos, contam com o serviço do estabelecimento aos domingos e feriados há, pelo menos, 20 anos. “Eles chegam a nos agradecer porque quase sempre é uma demanda de emergência, como um xerox ou um presente que não tiveram tempo para comprar”, conta uma das proprietárias, Nádia Mechalany. Ela explica que o movimento é menor em comparação com outros dias e, por isso, foram criadas alternativas para o funcionamento. “Nós dispensamos os funcionários e abrimos apenas meio expediente.” Mesmo com o movimento mais fraco, Nádia afirma que não há planos de mudar a rotina. “Os moradores já estão acostumados. O comércio é assim, há dias em que se vende mais e outros, menos.”

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No Bendito Café e Restaurante,no Bairro São Mateus, a lucratividade também varia.”Quando há feriados prolongados, a demanda diminui. Mas, mesmo assim, vale a pena abrir, pois os clientes já sabem que podem confiar que estaremos aqui”, avalia a gerente Raquel Rocha. Como a demanda é menor e o funcionário tem direito ao pagamento em dobro, ela diz que a solução para evitar o prejuízo foi dividir a equipe. “O trabalho é escalonado, e eles têm total liberdade de trocarem entre si, caso precisem.”

Já no Bar Santa Hora, no Bairro Santa Terezinha, o proprietário Marcos de Faria, analisa cada feriado. “Nós já temos a rotina de trabalho aos domingos e folga às segundas. Como prefiro trabalhar com a equipe completa, e isso representa dobrar o meu custo, nós damos preferência aos feriados que caem mais próximos aos finais de semana, quando o movimento é maior. Os funcionários não se importam porque já sabem que neste ramo a rotina é assim.”

Sindicato rejeita abrir mão de descanso

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A discussão sobre o funcionamento do comércio em horários alternativos é antiga. No mês em que Juiz de Fora aprovou a criação de um novo feriado municipal para a celebração da consciência Negra, em 20 de novembro, o debate ainda não tem rumo certo. O Sindicato dos Empregados do Comércio (SEC-JF) é enfático ao afirmar que é contra.

Na avaliação do vice-presidente do SEC-JF, Wagner França, o domingo e o feriado são para descanso. “O movimento é muito fraco, e a remuneração não é atrativa. Se o empresário quiser abrir, ele vai precisar mexer no bolso. Mas é evidente que não há demanda de consumidor que justifique aumentar os custos.”

Para funcionar, o comércio de rua deve cumprir questões trabalhistas acordadas entre sindicatos patronais e laborais de cada segmento. A convenção coletiva de bares, restaurantes e similares, que assemelha-se à acordada pela panificação, estabelece a compensação com folga na mesma semana ou a remuneração em dobro para domingos e feriados trabalhados. Já o varejo garante a folga pelo domingo trabalhado e o pagamento de um valor fixo e um dia de descanso para o feriado.

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Para as lojas de varejo há ainda a exigência do certificado de adesão ao trabalho em feriados. “É um instrumento que habilita o comércio a funcionar, quem não o possui está irregular e passível de multa”, explica o presidente do Sindicato do Comércio de Juiz de Fora (Sindicomércio-JF), Emerson Beloti. A necessidade do documento ficou acordada em convenção coletiva. A ausência dele não impede o próprio empresário abrir as portas. ” A convenção é a legislação do comércio de cada cidade, portanto, deve ser seguida. O estabelecimento que não tem funcionários pode abrir sem nenhum problema.”

Comportamento ‘conservador’

A polêmica sobre o trabalho aos feriados não se restringe à Juiz de Fora. “Minas Gerais ainda é um estado conservador. Esta discussão abrange outros municípios mineiros”, analisa Beloti. “É um cenário bem diferente se comparado com São Paulo e os estados da região Sul. Por lá, há cidades em que o funcionamento do comércio em domingos e feriados é comum.” O presidente do Sindicato do Comércio Lojista de Belo Horizonte (Sindilojas BH), Nadim Donato Filho, conta que a discussão na capital é antiga. “O funcionamento aos domingos é facultativo. Nos feriados, o comércio não abre. A cidade não perde com o turismo porque tem atrações como a Feira de Artesanato da Afonso Penna”, avalia.

Certificado
De acordo com o Sindicomércio-JF, apenas 50 lojas do varejo possuem o certificado de adesão ao feriado, sendo que 80% são supermercados. “Este é o mecanismo que temos para quantificar os estabelecimentos, mas sabemos que há lojas que não possuem funcionários e, também, aquelas que se arriscam e abrem de forma irregular.”

O segmento de padarias é um dos que tem a prática mais recorrente de funcionar aos domingos e feriados. Segundo o Sindicato das Indústrias de Panificação e Confeitaria (Sindipan-JF), cerca de 300 estabelecimentos, do total de 330 existentes na cidade, costumam abrir. “O panificador tem a compreensão de que precisa estar ali para atender o cliente, por isso, criou-se o hábito do funcionamento também nesses dias. Mas o setor sofre com escassez de mão de obra”, diz o presidente do sindicato, Heveraldo Lima.

As informações da Associação Brasileira dos Bares e Restaurantes (Abrasel) da Zona da Mata são de que o funcionamento destes estabelecimentos é polarizado e ocorre com maior frequência nos circuitos do Alto dos Passos, São Mateus, São Pedro e Santa Terezinha.

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