
Passados mais de dez dias da queda da taxa básica de juros da economia brasileira, de 14,25% para 14% ao ano, após decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, fica mais claro que a medida tem mais efeito de sinalização do que impacto imediato na vida do consumidor.
Apesar de toda redução da Selic ser esperada e bem-vinda, nesse caso, de 0,25 ponto percentual – a quarta consecutiva no ano -, a taxa permanece em patamar elevado e continua sendo apontada como um obstáculo para o crédito, os investimentos e o crescimento da economia.
Para a economista Fernanda Finotti, o corte promovido pelo Copom este mês é positivo, mas não deve provocar mudança significativa nas condições de financiamentos e na capacidade de compra das famílias. Isso significa que consumidores que optam por parcelamentos ou financiamentos não devem esperar redução expressiva nos valores pagos em função do ajuste do Banco Central.
Por que os juros continuam altos?
De acordo com a economista, a taxa de juros é influenciada pela expectativa de inflação e também pelo risco de desvalorização do Real frente ao dólar. Em outras palavras, quando existe a possibilidade de os preços continuarem subindo ou de o Real perder valor, o cenário econômico fica mais incerto. Para compensar esse risco e tornar os investimentos no país mais atrativos, é necessário oferecer uma remuneração maior.
Um exemplo ajuda a entender o peso dos juros atuais. A Selic está em 14% ao ano, enquanto a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) está em torno de 5%. Isso significa que, descontada a inflação, um investimento que acompanhe a Selic teria ganho real próximo de 9% ao ano. Para a economista, é um retorno muito elevado.
Esse nível de juros também pode atrair investidores estrangeiros, que buscam aproveitar a remuneração oferecida no Brasil. No entanto, esses investidores precisam considerar outro risco: o câmbio. Se o Real se desvalorizar muito durante o período do investimento, o ganho obtido em moeda nacional pode ser reduzido ou até se transformar em perda quando o recurso for convertido novamente para dólar. Por isso, explica Fernanda, a taxa de juros precisa levar em conta não apenas a inflação, mas também as expectativas para o valor da moeda brasileira.
Impacto sobre empresas
Os efeitos dos juros elevados, porém, não ficam restritos ao consumidor. Para Fernanda, a manutenção de uma taxa alta por períodos prolongados reduz a capacidade de investimento das empresas, já que o capital necessário para investir fica mais caro. “Quando esse capital fica caro, os investimentos caem, assim como o nível de investimento da economia”, explica.
A economista chama atenção especialmente para pequenas e médias empresas. Segundo ela, negócios em diferentes estágios de desenvolvimento deveriam ter acesso a modalidades distintas de financiamento, começando pelo capital semente e passando por capital de risco e investimentos privados antes de recorrer ao mercado de dívida.
No Brasil, porém, Fernanda avalia que esse caminho não funciona adequadamente. Com menos alternativas de financiamento, empresas ainda em estágios iniciais acabam recorrendo ao crédito antes do momento considerado adequado, justamente quando os juros estão elevados. “Pequenas e médias empresas nem deveriam acessar mercado de dívida, que dirá mercado de dívida com taxas tão elevadas”, afirma.
Menos investimento, emprego e consumo
A economista também aponta um possível efeito em cadeia provocado pela manutenção dos juros altos. Com o crédito mais caro, empresas reduzem investimentos. Isso pode afetar a contratação de trabalhadores e, consequentemente, a renda e o consumo. “Quando a taxa de juros fica tão elevada, a gente mata um dos motores da economia que são os investimentos das empresas.”
Segundo Fernanda, esse processo pode formar um ciclo de retração: menos investimentos, menos empregos, menor renda, redução do consumo e menor retorno para as empresas. Para ela, trata-se do efeito de uma política monetária contracionista.
A cautela do Copom
Embora esta seja a quarta redução consecutiva da Selic, Fernanda demonstra cautela em relação à possibilidade de cortes expressivos no curto prazo. Ela considera que o cenário de incerteza econômica, somado à proximidade das eleições, dificulta uma redução mais acentuada.
Enquanto isso, o Copom afirma que o cenário atual exige cautela. Nas atas da reunião, o comitê destacou a desaceleração gradual da atividade econômica, mas também apontou que a inflação supera o teto da meta, assim como as expectativas de inflação para 2026 e 2027 continuam acima da meta. Daí a necessidade de manter a política monetária restritiva, conforme o Banco Central.
*Estagiária sob a orientação da editora Fabíola Costa

