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Alta de 80% no preço da batata muda hábitos de consumidores em Juiz de Fora

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Batata inglesa liderou as altas entre todos os alimentos no IPCA de maio, com avanço de 44,69% no mês (Foto: Felipe Couri)
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O visor do caixa marcava R$ 17,90. Pouco mais de um quilo de batata. A consultora em gestão Fabiane Kling e a funcionária se entreolharam, desconfiadas, e pediram que o preço fosse conferido. Não havia erro. Fabiane deixou a batata para trás e foi embora sem ela.

A batata faz parte do cardápio regular da família, mas o aumento já alterou os hábitos em casa. Na semana seguinte, ela deixou de preparar o alimento e só voltou a comprá-lo no domingo, quando encontrou o quilo por R$ 5,99 em uma feira livre. “Quando percebo um aumento tão expressivo, substituo o alimento e procuro oportunidades de compra em estabelecimentos diferentes.”

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O aposentado José Ribeiro, de 67 anos, também passou a prestar mais atenção à balança antes de chegar ao caixa. Acostumado a fazer as compras da semana com um valor definido, ele conta que desistiu de levar cerca de dois quilos após conferir o preço. “Peguei uns dois quilos e já sabia que ia sair caro, mas, quando vi o valor na balança, dei um passo atrás”, lembra.

Antes comprada duas vezes por semana, a batata agora aparece com menos frequência e em menor quantidade no cardápio da família. “A gente vai adaptando o que come de acordo com o que o bolso permite.”

Clientes levam menos e procuram substitutos

O proprietário do hortifrúti Caçulinha, Rafael Guerra, diz que o cliente que levaria dois ou três quilos agora compra quatro unidades ou meio quilo  (Foto: Felipe Couri)

A mudança de comportamento é percebida também pelos comerciantes. No hortifrúti Caçulinha, o proprietário Rafael Guerra afirma que o preço de revenda da batata permanece entre R$ 8 e R$ 10 o quilo há algum tempo.

Segundo ele, o produto está entre os itens de maior saída no estabelecimento, ao lado da cebola e do tomate. Mesmo com a alta, os clientes não deixaram de comprar, mas reduziram a quantidade. “O cliente que levaria dois ou três quilos, quando o preço está mais em conta, agora compra quatro unidades ou meio quilo.”

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Em alguns momentos, surgem opções mais baratas junto aos fornecedores, mas nem sempre com a mesma qualidade. Quando consegue negociar um produto de boa procedência por um valor menor, Guerra afirma que repassa a redução ao consumidor.

Diante do aumento dos custos, o comerciante também aposta em promoções de outros produtos, controle de qualidade e cuidado com a apresentação da loja para manter a clientela. “O cliente satisfeito, por mais que o produto esteja caro, não vai nos abandonar, e com certeza dias e preços melhores virão”, afirma.

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O mesmo movimento é observado no hortifrúti Valverde. O proprietário Evandro Valverde confirma que o estabelecimento precisou repassar os aumentos, e o quilo da batata também é vendido entre R$ 8 e R$ 10.

Com o preço elevado, parte dos consumidores passou a procurar alternativas. Segundo Evandro, a mandioca pode ser encontrada por cerca de R$ 5 o quilo, ou R$ 4 em promoções. A batata-doce também aparece entre as opções usadas para substituir a batata-inglesa. “Quando é possível, o consumidor troca a batata pela mandioca, que hoje está mais em conta, ou então pela batata-doce.”

Batata acumula alta de 80,4% no ano

Para o economista da UFJF Weslem Faria, a boa safra de 2025 é o que torna a alta de 2026 ainda menos expressiva (Foto: Felipe Couri)

A mudança nas compras acompanha uma alta expressiva registrada desde o início de 2026. Segundo dados da Central de Abastecimento (Ceasa), o quilo da batata era vendido a R$ 2,50 em janeiro e fevereiro. O preço recuou levemente para R$ 2,49 em março e voltou a subir em abril, quando chegou a R$ 2,87. Em maio, o valor atingiu R$ 4,51, alta de 80,4% em relação ao início do ano.

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Na atualização mais recente do Ceasa, divulgada nessa segunda-feira (15), o preço variava entre R$ 4,80 e R$ 6, conforme a variedade. A batata lisa Monalisa especial era a mais cara, a R$ 6 o quilo, seguida pela Asterix especial, a R$ 5,80, e pela lisa sem lavar especial, a R$ 4,80.

O cenário local acompanha a tendência nacional. Segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a batata inglesa liderou as altas entre os alimentos em maio, com avanço de 44,69% no mês. Em abril, o produto já havia subido 6,57%.

Com o salto, o grupo de tubérculos, raízes e legumes acumulou alta de 21,40%, e a batata se tornou o item que mais pressionou a inflação da alimentação no período.

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Estiagem e entressafra reduzem oferta

O professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Weslem Faria explica que a alta decorre, principalmente, da redução da oferta. Enquanto a disponibilidade do produto diminui, a demanda permanece relativamente estável, o que pressiona os preços.

A batata não é o único produto agrícola afetado pelas condições climáticas, mas o momento atual coincide com um período de estiagem em importantes regiões produtoras. Minas Gerais é o principal produtor nacional do tubérculo. “A estiagem nas regiões de Minas, Sul de Minas, Triângulo Mineiro e Cerrado, que são os principais produtores, acabou afetando a produção”, explica.

A entressafra também contribui para o encarecimento. A produção de batata é dividida em três ciclos ao longo do ano, e a safra que se encerra foi marcada por perdas relacionadas ao clima. A quebra agravou a redução da oferta e acelerou a alta dos preços.

Faria lembra que a comparação também parte de uma base favorável. A boa produção registrada em 2025 ajudou a manter os preços mais baixos, enquanto os problemas enfrentados neste ano provocaram um movimento inverso. “Como 2025 foi muito bom, chega 2026 com esses problemas que afetaram a oferta, e você tem esse aumento de preço.”

Para os próximos meses, o economista espera uma melhora gradual, mas descarta uma recuperação rápida. “Acredito que até o final do ano vai melhorar, porque agora temos uma produção menor por ser um período de menos chuva. Mas 2026 não vai ser um ano bom”, avalia.

*estagiária sob supervisão da editora Fabíola Costa

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