
Receio dos trabalhadores seria de um possível esvaziamento da unidade local
As cerca de cem demissões que teriam sido realizadas na planta juiz-forana da Mercedes-Benz nos últimos oito meses motivaram a realização de audiência pública nesta quarta-feira (19) na Câmara Municipal. Apesar de a montadora ter sido convidada a participar, executivos não compareceram ao plenário, mas se reuniram, no mesmo dia e a portas fechadas, com o prefeito Bruno Siqueira (PMDB). A reunião foi confirmada pela montadora, que não falou sobre o conteúdo da conversa. A Prefeitura disse que foi uma "visita de cortesia". A Mercedes também preferiu não se posicionar sobre a audiência.
A audiência foi convocada pelo vereador Antônio Aguiar (PMDB), a partir de demanda da categoria. O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, João César da Silva, citou os cortes – é da entidade a estimativa de dispensas no município -, a transferência da operação logística de veículos importados da cidade para Iracemápolis e os "boatos", como definiu, sobre a possível ampliação da medida, atingindo também o faturamento do modelo Sprinter, realizado no município. O receio dos trabalhadores seria de um possível esvaziamento da unidade local. João César lembrou que, há cinco anos, foi realizada audiência mediante o risco de demissão de 500 trabalhadores. "Não quero voltar aqui para discutir o fechamento da fábrica."
A advogada responsável pelo Departamento Jurídico da Fiemg Regional Zona da Mata, Polliana Henrique Martins, afirmou que nem o órgão, nem o Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, têm conhecimento de anormalidade envolvendo a empresa. Já o secretário de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Geração de Emprego e Renda, André Zuchi, afirmou que a Prefeitura tem acompanhado de perto o projeto, que tem "importância fiscal" para a cidade e atualmente não conta com incentivos municipais. Pelos cálculos de Zuchi, o município investiu cerca de R$ 15 milhões no projeto, incluindo desapropriação e isenção de Imposto sobre Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) por dez anos. Pela montadora, teriam sido direcionados R$ 750 milhões desde 2009, sendo R$ 450 milhões na conversão da planta para produção de caminhões, além de R$ 300 milhões previstos na nacionalização do Actros.
Sobre o retorno ao município, Zuchi destaca os R$ 124 milhões à título de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) nos últimos 12 anos. A montadora responderia por 10% a 15% da arrecadação do imposto na cidade. Em Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN), o recolhimento chegou a R$ 18 milhões, fruto da prestação de serviços de terceiros. Considerando o IPTU, a cifra chega a R$ 750 mil/ano, desde 2007, quando venceu a isenção do imposto. O secretário considera a montadora importante para a cidade, acredita na maior utilização da capacidade instalada nos próximos anos, reconhece "dificuldades" no projeto, mas considera que o problema é que "não se consegue avançar no ritmo que gostaríamos". O desafio, segundo ele, é que a Mercedes deixe de ser um problema para se tornar uma solução. "Está no meio do caminho", avaliou.
Bastidores
Nos bastidores da audiência, a informação que circulava era que os cortes poderiam fazer parte de pressão para implantação de uma jornada flexível, inclusive com criação de banco de horas. Hoje a jornada na fábrica é de 44 horas semanais. A medida seria considerada necessária pela montadora para efetivar a especulada transferência de outros dois projetos de São Bernardo do Campo para a planta local. Hoje são utilizados cerca de 35% da capacidade instalada da unidade para produção dos caminhões Actros e Accelo. Sobre esta questão, o sindicato afirmou que aceita negociar a jornada, mas precisa de garantias. A fábrica entra em férias coletivas entre os dias 27 de fevereiro e 9 de março. A medida não estaria relacionada a contingenciamento, mas à necessidade de troca de robôs utilizados na linha produtiva

