Principal corredor de escoamento do Sudeste e um dos mais importantes do Brasil, o trecho Juiz de Fora/BH da BR-040 não vem cumprindo sua função. Com estrutura arcaica e comprometida, o segmento tem causado entraves logísticos, ao invés de permitir o desenvolvimento. A terceira matéria da série "Estrada do medo" mostra que são muitos os prejuízos de quem depende da rodovia : viagens atrasadas por imprevistos, altos custos com pneus e falhas mecânicas, perdas de cargas inteiras e negócios não fechados são relatos comuns de empresários e entidades ligadas à indústria e transportes. Prejuízos que, na maioria das vezes, chegam até os consumidores, com elevação do preço final dos produtos. Usuários assíduos da estrada também se queixam de não conseguir cumprir compromissos em razão de interrupções frequentes, decorrentes, sobretudo, de acidentes graves e de manifestações de comunidades afetadas diretamente pelos problemas viários. Somente de janeiro a julho, o acesso entre Juiz de Fora e Belo Horizonte chegou a ficar fechado por quase 90 horas, o que daria quase quatro dias inteiros de fluxo interrompido. Ainda há outros tipos de perdas, como gastos com reparos em veículos, principalmente relacionados à troca de rodas, pneus, suspensão e vidro de para-brisas, geralmente atingidos por minério. Sem outra alternativa de locomoção e sem data marcada para a concessão da rodovia – prometida para ainda este ano -, só resta aos condutores enfrentar a precariedade da estrada.
Presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) Regional Zona da Mata, Francisco Campolina, é enfático. "A BR-040, sentido Belo Horizonte, é o pior corredor logístico do país, comprometendo a economia local e do estado. Toda produção que sai de Juiz de Fora ou de cidades próximas com destino ao Centro-Oeste ou Norte tem que passar pela 040. Para fecharmos negócios precisamos ir até Belo Horizonte. Como não há opção por via aérea, é pegar o carro, ou desistir do negócio. Se de automóvel não conseguimos fazer a viagem em menos de quatro horas, quatro horas e meia, em função dos buracos, dos quarenta radares e dos dezesseis quebra-molas, imagina caminhões carregados com treze, quinze toneladas? São no mínimo seis horas e meia, sete horas de viagem. O que gera um entrave absurdo para a economia. Isso aumenta em muito o custo do frete, e custo das mercadorias quando chegam nas gôndolas. Tudo isso é custo, é preço, e o consumidor sai prejudicado", enfatiza Campolina.
Além dos prejuízos diretos com frota e mercadorias, o presidente da Fiemg Regional Zona da Mata elenca outros danos que refletem na economia não só da região, mas do país. "O mais grave é que o trecho hoje pode ser considerado a rodovia da morte. É raro o dia que você vai até Belo Horizonte sem passar por dois, três acidentes. Estamos perdendo vidas produtivas diariamente nessa estrada. Atraso em reuniões, maior gasto com transporte, tudo isso conseguimos reaver, mas vidas, não tem quem pague."
Inestimável
Presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas de Juiz de Fora e empresário do ramo, Alexandre Picorelli Assis não sabe quantificar os prejuízos em função da estrada, mas enumera muitos deles. "O trecho apresenta problemas de infraestrutura e deficiências das condições operacionais, necessitando de um amplo programa de investimentos, de forma a recuperar e ampliar sua capacidade, dentro de um cenário novo, onde as reduções dos custos de transporte, logística e as melhores condições para o desenvolvimento econômico regional e nacional, sejam atendidas. Hoje a estrada é esburacada, com má sinalização, curvas sinuosas e inadequadas, e tráfego intenso. Diariamente vemos e sabemos de acidentes graves, veículos quebrados em consequência da má conservação da pista, e o desgaste muito acima do normal, o que eleva os custos logísticos de uma maneira geral. São danos com mercadorias, danos à terceiros, danos à vida das pessoas, danos até ao meio ambiente. O custo é de alta monta, inestimável. Além destes fatores, o tempo de viagem se torna, no mínimo, 25% maior do que o normal."
A rodovia afeta até mesmo a produção rural. O fazendeiro Márcio Francisco de Oliveira, 60, disse que teve que mudar toda a estrutura da fazenda para evitar acidentes com funcionários. "Minha propriedade é cortada pela estrada. Tinha plantação no trecho de lá, mas como era inviável ficar atravessando para realizar o trabalho, tive que deixar de produzir na terra, e hoje só planto eucalipto naquela parte.Perdi uma parte altamente produtiva."
Compromissos perdidos
Chegar pontualmente a compromissos também têm sido difícil para usuários da rodovia. Muitos têm perdido viagens de avião, saindo de Belo Horizonte, reuniões e trabalho, sobretudo, nos últimos meses, com as manifestações que paralisaram o tráfego. O deputado federal Júlio Delgado foi obrigado a se ausentar de três compromissos políticos em menos de 30 dias. "Tinha uma reunião do partido e precisei ficar. Sairia de Belo Horizonte no voo das 11h, mas fiquei preso na estrada, próximo a Pires. Contornei por Ouro Branco e sai perto do Alphaville, já próximo à Belo Horizonte, mas perdi o voo. Só consegui chegar em Brasília às 17h, e a sessão já havia se encerrado. Perdi voo e votação. Em outro retorno de Belo Horizonte também fiquei agarrado na estrada e não consegui chegar para a abertura de uma exposição aqui na região. Mais recentemente também tive que ligar de última hora para um representante participar da posse da Associação de Moradores do Bandeirantes, porque novamente estava preso na estrada. É um absurdo ficarmos reféns da 040. A concessão se faz urgente. Felizmente estamos perdendo compromissos, negócios, mas há gente perdendo a vida."
O chefe da assessoria de Relações Institucionais da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), Gerson Occhi, também teve que desistir de comparecer a reuniões na capital. "Somente este mês tive que retornar duas vezes sem conseguir chegar aos compromissos em BH. Na primeira vez cheguei até Congonhas, mas ficamos duas horas parados próximo à cidade e como não daria mais tempo de chegar, decidimos voltar. Alguns dias depois tive outro evento, e novamente, não conseguimos chegar. Tentamos passar por Ouro Preto, mas havia muito congestionamento de caminhões e também perdi o compromisso. Isso tem se tornado constante. Enfrentar essa rodovia com frequência, além de tudo, dá medo. Todo dia que passo, há acidente."
A precariedade da rodovia tem refletido até mesmo na educação. Turmas inteiras em faculdades chegam a perder aulas por conta da ausência dos professores. "Já chegamos a ficar duas sextas-feiras sem aula porque nossos professores não chegaram,. É complicado. Entendemos a situação, mas também estamos perdendo conteúdo", reclama uma estudante de curso de pós-graduação da UFJF, 25 anos.
Danos revertidos em lucro
Quem para para observar as margens da BR-040 chega a se assustar com a quantidade de destroços de pneus por todo o segmento. São indícios dos muitos danos a que estão sujeitos os condutores que precisam trafegar pela estrada esburacada, sem acostamento e com sinalização precária.
Wanderson Leite, 32 anos, caminhoneiro, é um dos que somam perdas por conta da precariedade do asfalto."Sou de São Paulo. Quando vim para cá para fazer o transporte de minério estranhei muito. Em, no máximo, nove meses tive que trocar seis pneus. Cada um recapeado fica entre R$ 350 a R$ 450, um novo é R$ 1.200. É muito buraco, e quando chove não há como desviar. Tem que deixar cair."Alisson Guilherme Calazans, 23, mecânico, também relata prejuízos diários. "Já perdi a conta de quantas rodas ficaram amassadas. A suspensão do carro também vai embora."
Os únicos que podem comemorar são os borracheiros, já que danos de terceiros, para eles , significam lucro. Donizete Jesus Santos, 23, diz que chega a trocar de oito a dez pneus por dia, somente de caminhões. "Há muitos buracos, e os motoristas acabam tendo que cair. Nessa estrada, não tem como desviar. E caindo no buraco, é prejuízo na certa. Cada remendo custa R$ 40, e cada troca sai a R$ 20."
Aérea aguarda autorização para abrir voos para BH
Enquanto não há previsão de melhorias na rodovia, seja com a tão prometida duplicação ou com a concessão à iniciativa privada, a expectativa dos mineiros que dependem de viagens constantes entre Juiz de Fora e Belo Horizonte está no início do voo da Azul Linhas Aéreas entre Juiz de Fora e Confins. A empresa informou que a previsão é de início das viagens para o próximo dia 23, porém, ainda aguarda autorização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Segundo a companhia, quando aprovados, serão dois voos diários, de segunda a sexta-feira. A partir de Belo Horizonte, a companhia disponibilizará conexões para outras cidades de Minas, como Ipatinga, Montes Claros e Uberlândia, e para outros destino como Porto Seguro (BA), Salvador (BA), Brasília (DF), Goiânia (GO), Maceió (AL), Aracaju (SE), Natal (RN), São José dos Campos (SP), Campinas (SP), Aeroporto Santos Dumont (RJ) e Aeroporto de Guarulhos (SP). "Eu fico com muito medo de dirigir até Belo Horizonte. E pelo custo, geralmente com algum dano no veículo, fica mais seguro e mais viável ir de avião", acredita a assistente de gestão Marilza Gomes, 32.
