O engenheiro Sérgio Penchel Júnior, 36 anos, é um dos três milhões de brasileiros que vai viajar dentro do país durante a Copa do Mundo. Ele comprou ingressos para dois jogos em Cuiabá e está disposto a percorrer os mais de 1.800 quilômetros que separam Juiz de Fora da capital mato-grossense. Sérgio ainda não adquiriu as passagens aéreas, mas pesquisou hospedagem e ficou assustado com os valores cobrados. A diária média, segundo ele, varia entre R$ 350 e R$ 450 em hotel simples. Ele esperava que as cifras ficassem entre R$ 200 e R$ 250, a partir da experiência de ter visitado Goiania, também no Centro-Oeste do país. "A oferta é pequena, e os preços estão bastante elevados." Fazendo as contas, o engenheiro gastou cerca de R$ 1 mil pelos quatro ingressos (dois para cada partida), no valor de R$ 270 cada, e vai desembolsar R$ 2.250 por cinco diárias em Cuiabá, sem contar os gastos com transporte e alimentação. "Com este dinheiro, seria possível custear uma viagem mais interessante e ficar em um hotel melhor. Como já comprei ingresso, não tem muita volta. Se soubesse que o valor da diária estava nesse patamar, talvez tivesse pensado um pouco e tentaria comprar para outra cidade."
A escalada de preços de passagens áreas e hospedagem, percebida a 207 dias para Copa, se não comprometer a disposição de assistir os jogos ao vivo, pode estigmatizar o país como um destino turístico caro. Durante os 30 dias de campeonato mundial, são esperados cerca de 600 mil turistas estrangeiros, conforme o Ministério do Turismo. Há, ainda, a chance real de frustrar os planos de viagem daqueles cujas férias coincidem com a realização do torneio – de 12 de junho a 13 de julho. Mesmo se o interesse não é a Copa, mas as cidades-sede, o juiz-forano pode pagar até quatro vezes mais pelo transporte caso a data coincida com a realização de partida. No caso de Salvador, o turista pagará, pelo menos, R$ 1.074, para ida em 13 de junho (dia de jogo na capital baiana) e volta no dia 15. Se a viagem for realizada uma semana antes, entre os dias 6 e 8 do mesmo mês, o custo total é de R$ 247,80. No caso de Natal, no Rio Grande do Norte, os valores caem pela metade de R$ 1.118 para R$ 550 no mesmo período analisado. As tarifas são os menores valores encontrados pela Tribuna nos sites das companhias aéreas na última quarta-feira, considerando embarque no Rio de Janeiro.
O ortodontista Liandyr Machado Guimarães Júnior, 45, integra este grupo. Ele costuma viajar em julho com a família e, no próximo ano, quer conhecer a Costa do Sauípe, na Bahia. O mês é escolhido em função das tarifas mais baixas ante as do verão. Nos anos anteriores, comenta, não encontrou dificuldades em relação a valores. Este ano, o cenário é outro. "Para viajar na primeira quinzena de julho, teríamos um acréscimo de, pelo menos, 100% no valor das passagens em relação a outra data, imediatamente após o término da Copa." A pesquisa foi realizada na mesma companhia aérea. Em relação a hospedagem, ele também percebeu diferença significativa, além da venda em "pacotes", condicionada a permanência mínima. Embora considere "previsível" a alta de preços em função do mundial, para o ortodontista, a majoração está "abusiva". "Um oportunismo que não ajuda na consolidação do país como um dos grandes destinos turísticos mundiais." O aumento de preços interferiu nas férias da família, já que a primeira opção era embarcar no início de julho.
Hotéis mais que dobram preços
Conforme levantamento da Empresa Brasileira de Turismo (Embratur), divulgado semana passada, os preços praticados por hotéis do Rio de Janeiro para a Copa do Mundo chegam a ser duas vezes e meia a diária média da alta temporada e quase 50% maiores que os cobrados para o Reveillon 2013-2014. Para fazer a pesquisa, a Embratur consultou, pela internet, os preços de 16% da rede hoteleira da cidade ou 128 hotéis de todas as categorias. A diária média cobrada para janeiro de 2014, durante o verão carioca, é de R$ 438. Para o Reveillon, pico de demanda dos turistas, é de R$ 739,87. Na Copa, chega a R$ 1.105,11.
Já os valores das passagens aéreas para o período levaram o Procon do Rio de Janeiro a ajuizar ação coletiva na Justiça Federal contra companhias aéreas por prática de preços abusivos. Pesquisa feita pela Tribuna, esta semana, mostra que o juiz-forano que pretende assistir a abertura da Copa em São Paulo, no dia 12 de junho, pagaria R$ 429,90 pelo voo de ida (Juiz de Fora-Campinas) e R$ 459,90 pela volta no dia seguinte. Se fosse realizar o mesmo trajeto uma semana antes, nos dias 5 e 6 de junho, os valores cairiam para R$ 169,90 (ida) e R$ 199,90 (volta). Estas foram as tarifas mais baratas encontradas, quarta-feira, no site da Azul Linhas Aéreas, a única a operar o trecho.
O valor de uma viagem de Juiz de Fora para São Paulo equivale a ida e a volta da ponte aérea Rio-São Paulo: R$ 443,80, com embarque no dia da abertura e retorno no dia seguinte. Uma semana antes, o preço cai drasticamente e chega a R$ 148,80, incluindo também a volta. As menores tarifas da ponte aérea também foram obtidas quarta-feira, em pesquisa nos sites das companhias aéreas.
Sonho de R$ 1.320
O engenheiro e professor Wilde José Carneiro teve (muita) sorte. Além de ter sido sorteado para a final da Copa, a ser realizada em 13 de julho no Rio de Janeiro, não vai precisar pagar passagem aérea, nem hospedagem para assistir o principal jogo do campeonato. Ele, que desembolsou R$ 1.320 pelo disputado ingresso, vai de carro para o Rio e, se não voltar no mesmo dia para Juiz de Fora, pretende se hospedar na casa de parentes. Sem esconder a felicidade de ter sido contemplado, o colecionador, que mantém mais de três mil jogos de copas gravados, reconhece a escalada de preços motivada pelo campeonato, na sua opinião, reflexo da lei da oferta e da procura. Wilde acredita, no entanto, que realizar um sonho não tem preço. "É caro, mas vale o investimento."
Embratur promete conter abusos
A regional mineira da Associação de Agências de Viagens (ABAV) identificou aumento de 60% no preço das passagens aéreas da chamada tarifa econômica e de 150% na promocional em função da realização da Copa no país. Nas hospedagens, a alta passa de 40% no período do torneio. "As tarifas subiram assustadoramente", atesta a vice-presidente administrativa Regina Casale. Segundo Regina, o impacto não se restringe aos destinos nacionais, embora se acentue nas cidades-sede, mas também afeta os internacionais, por conta da movimentação dos turistas. Uma consequência direta é a retração na venda de pacotes, que deve fazer de 2014 um ano atípico para o setor. "Todo mundo quer sair na época da Copa, mas ninguém resolve nada. Na hora que decidir, ou não vai conseguir ou vai pagar mais caro pela viagem." A expectativa dela é por uma normativa do Governo federal, "para colocar um limite nos valores, para que não haja abuso na exploração do turismo".
O Ministério do Turismo, por meio de sua assessoria, destaca a atuação do grupo de trabalho interministerial para evitar preços abusivos nas passagens aéreas e tarifas hoteleiras durante o mundial. A informação é que o comitê vai avaliar a quantidade de diárias de quartos de hotel reservada pela Match, operadora oficial da Federação Internacional de Futebol (Fifa), nas cidades-sede da Copa. "O objetivo é verificar se existe concentração de mercado que possa ser qualificada como cartel, de forma a evitar eventuais abusos nos preços da hospedagem."
Conforme o Ministério do Turismo, os órgãos de defesa do consumidor vão cruzar a oferta disponível na rede hoteleira com a quantidade de leitos reservada pela Match. A legislação brasileira prevê que concentrações superiores a 20% podem ser consideradas cartel. Neste caso, será avaliada a necessidade de intervenção governamental. Com o objetivo de garantir "o direito do consumidor e evitar excessos em passagens aéreas e tarifas hoteleiras", o grupo volta a se reunir esta semana, após a venda do primeiro lote com um milhão de ingressos.
Monitoramento
O presidente da Embratur, Flávio Dino, em declaração encaminhada à Tribuna, afirmou que o Governo federal seguirá monitorando os preços praticados pelos principais prestadores de serviço do turismo durante a Copa, "com o objetivo de não permitir aumentos abusivos que venham a prejudicar a imagem do destino Brasil". Para Dino, todo o planejamento para realização do evento não pode ser afetado "pela ganância exacerbada de alguns poucos empresários que pensam na aferição de lucros imediatos, sem pensar na sobrevivência de seus negócios a longo prazo".
Em resposta à Tribuna, o Departamento de Imprensa da Fifa não divulgou estimativa de público, afirmando que só será possível conhecê-la após a conclusão da venda de ingressos, "mas é visível o forte interesse dos brasileiros e estrangeiros". Sobre as cidades mais demandadas, a informação é que também depende do sorteio final. A segunda fase de vendas acontece em 8 de dezembro, após a definição dos grupos da competição.
Dica é esperar para comprar passagem
Para o fundador do Site Melhores Destinos, Leonardo Marques, apesar dos preços "altíssimos", o consumidor deve esperar antes de adquirir a passagem aérea para o campeonato. "A verdade é que as malhas das companhias aéreas ainda não foram ajustadas para a Copa. Quem comprar agora tem grandes chances de ter seu voo mudado e de ver passagens mais baratas nos próximos meses." O site é especializado em promoções de passagens aéreas e conta com mais de 3,5 milhões de leitores por mês.
Na avaliação de Marques, a data chave para quem pretende comprar passagens para o torneio é 6 de dezembro. Neste dia, a Fifa fará o sorteio dos grupos da primeira fase, ou seja, quem vai jogar contra quem e em qual cidade. "Somente com estas informações, as companhias aéreas ajustarão a malha e os voos."
A Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), por meio de sua assessoria, afirma que não há estimativa do percentual de aumento das tarifas, já que a política de preços é de responsabilidade de cada companhia. Questionada se as altas podem ser consideradas abusivas, a associação diz que esta avaliação é subjetiva. Objetivamente, afirma a Abear, a variação dos valores médios das tarifas aéreas domésticas entre o primeiro semestre de 2002 e o mesmo período de 2013 aponta retração de 33,52%, conforme a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Segundo a Abear, após o sorteio, haverá o redesenho das malhas visando a reequilibrar oferta e demanda. "Um dos resultados será que o preço médio para os deslocamentos da Copa deverá ficar mais próximo do preço médio de alta procura. Com a ampliação da oferta como um todo, os consumidores deverão ter inicialmente à disposição bilhetes em todas as classes tarifárias."
O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (Abih), Enrico Fermi Torquato Fontes, considera um "equívoco" a alegação de que as tarifas de hospedagem podem ser majoradas em função do evento. Segundo ele, a contratação dos mais de 800 hotéis foi feita pela operadora da Fifa com preço de diária e índice de reajuste definidos em pré-contrato em 2007, formalizado este ano. Para Enrico, se o modelo é adotado há oito anos, é porque há conhecimento do quanto o mercado mundial aceita pagar. "Apesar de ser visto por muitos, é um evento para participação de poucos." Para o presidente da Abih, os valores praticados pelo setor hoteleiro são acessíveis ao mercado mundial.
