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Inflação ameaça ganho real

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A inflação não só torna as compras nos supermercados, as vendas a prazo e os aluguéis mais caros, como promete abocanhar parte do ganho real reservado aos trabalhadores brasileiros este ano. Em 2010, 96% das categorias conseguiram repor a inflação. Destas, 89% foram além e saíram das mesas de negociação comemorando ganho real. A realidade este ano, no entanto, deve ser bem diferente. Os profissionais, principalmente aqueles com data-base no segundo semestre, devem ter mais dificuldade para superar o acumulado do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). O Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) já percebeu o risco e alerta para a possibilidade real de as taxas inflacionárias impactarem negativamente nos reajustes salariais deste ano.

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Depois de acompanhar as negociações de 700 categorias de indústria, comércio e serviços em todo o país, o Dieese constatou que, em 2010, houve o maior percentual de reajustes acima da inflação de toda a série histórica, iniciada em 1996. O balanço apontou, ainda, que em 15% dos casos o aumento real superou 3%. Em 2009, apenas 5% conseguiram atingir este percentual. Dentre os setores econômicos, o comércio apresentou a maior proporção de ganho, com 96%. Os desempenhos de indústria (91%) e serviços (83%) também foram considerados positivos.

O professor do Centro de Ensino Superior (CES) Guilherme Ventura desenvolveu tese de mestrado sobre o tema. Para ele, a aceleração da inflação, experimentada ao longo do segundo semestre de 2010 e início deste ano, diminui os salários em termos reais, interferindo no poder de compra. Provavelmente, vamos verificar que os ganhos reais a serem obtidos nas diversas negociações coletivas, ao longo deste ano, serão menores do que os obtidos no ano passado.

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Segundo o presidente da regional Zona da Mata da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Péricles Lima, categorias numerosas, como as dos trabalhadores no comércio, metalúrgicos e bancários, concentram suas negociações no segundo semestre. Apesar de falarem da inflação, não houve queda do crescimento econômico, pondera. De acordo com ele, a CUT vai brigar pela distribuição da riqueza que, em sua opinião, não tem sido justa. A dificuldade que temos hoje é a de sempre. A classe patronal sempre é muito dura.

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Apesar de reconhecer a pressão da inflação, o presidente do Sindicato dos Bancários, Robson Marques, espera que a categoria (que reúne cerca de mil trabalhadores em Juiz de Fora) consiga ganho real, a exemplo dos últimos sete anos consecutivos. Para ele, pode haver impacto em termos percentuais, mas ir além da recuperação inflacionária é uma necessidade. A inflação subiu, mas a lucratividade dos bancos continua elevada, justifica. A data-base dos bancários é setembro, e a pauta ainda não está definida. Estamos convictos de que vamos romper essa barreira. No ano passado, os trabalhadores encerraram a campanha com reajuste de 7,5%, sendo 3,08% de ganho real.

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Os metalúrgicos, que somam mais de sete mil na cidade, também vão discutir salários em setembro. Para o presidente da entidade de classe, João César da Silva, a inflação preocupa, mas não reduz as expectativas ante o ganho real. No ano passado, a categoria conseguiu reajuste de 8,6%, sendo 4,15% acima do INPC. O nosso segmento está em expansão, faltando mão de obra em pleno momento de contratação. A produção está no pico. Temos razões para acreditar e lutar como nos anos anteriores. João admite que o percentual pode reduzir, sem, no entanto, extinguir o benefício. A expectativa é que a pauta esteja definida em julho, para que as negociações comecem no mês seguinte.

A data-base dos trabalhadores no comércio é outubro. Confiante, o presidente do sindicato de classe, Silas Batista, considera que hoje há mais argumentos para ir além da reposição inflacionária, como o mercado aquecido e o crescimento econômico. Silas comenta que sempre foram feitas concessões para recuperar o poder de compra da categoria. Este ano, diz, não será diferente. O presidente, no entanto, está disposto a retirá-las, caso os debates não avancem para o ganho. No ano passado, o aumento real foi de 3%. Pelas suas contas, existem hoje 35 mil trabalhadores no ramo em Juiz de Fora. O bolo está crescendo, e é preciso dividi-lo.

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Escalada nos preços dos alimentos preocupa economistas

O doutor em teoria econômica e professor da UFJF Ricardo Freguglia avalia que os impactos da inflação também já são percebidos na alimentação, cujos aumentos têm sido persistentes. Ele explica que há uma forte pressão da demanda, sem a devida contrapartida na oferta de produtos. Preocupa a constatação de uma alta generalizada nos alimentos, com aumento de vários produtos de maneira simultânea. Freguglia lembra que os preços estão em curva ascendente desde 2010, e a expectativa de recuo não se confirmou. Os alimentos, que haviam iniciado o ano com alta de 1,16% em janeiro e reduzido para 0,23% em fevereiro, voltaram a subir de forma significativa em março, alcançando 0,75% e impactando o Índice Nacional de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA).

O economista também identifica reflexos em outros setores, como habitação, com elevados reajustes de aluguéis. O Índice Geral de Preços ao Mercado (IGP-M), aplicado nos contratos, já acumula alta de 10,95% nos últimos 12 meses. Outro segmento afetado é o de transportes, em função da escalada do petróleo no mercado internacional. Para Freguglia, apesar de existir certo consenso no Banco Central (BC) de que os preços devem ceder em maio, ele considera a tendência de uma nova subida bastante intensa no segundo semestre.

Já o economista Guilherme Ventura destaca o crédito mais difícil e caro este ano. Conforme a Associação Nacional de Executivos de Finanças (Anefac), com exceção do cartão de crédito rotativo, cuja taxa de juros média ficou inalterada, todas as demais linhas reajustaram os valores em março. A taxa média chegou a 6,78% (ao mês) e 119,72% (ao ano) para a pessoa física. Para a pessoa jurídica, os percentuais chegaram a 3,92% (ao mês) e 58,63% (ao ano), o maior resultado desde agosto de 2009.

O coordenador de pesquisas da Anefac, Miguel José Ribeiro de Oliveira, atribui a elevação às medidas adotadas pelo BC para frear o consumo interno e reduzir a inflação, como a alta dos depósitos compulsórios, da taxa básica de juros, a Selic, e da alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para captações externas. O aumento do IOF de 1,5% para 3% para operações de crédito deve impactar o resultado deste mês.

Na opinião de Ventura, mesmo com as medidas fiscais (cortes de gastos públicos) e monetárias (aumento de Selic, IOF e compulsórios) adotadas pelo Governo, as expectativas de mercado são de que o IPCA chegue a 6,26%, com possibilidade de estouro da meta este ano. O Governo considera 4,5% como centro da meta e 6,5% como o teto. Em março, o índice ficou em 0,79% e 6,30% no acumulado dos últimos 12 meses. Isto significa que mais medidas de contenção da demanda serão vistas à frente.

Freguglia avalia que a melhor forma de o consumidor minimizar os efeitos inflacionários no bolso é pesquisar preços entre os estabelecimentos, estimulando a concorrência e evitando os reajustes abusivos. Optar por marcas alternativas é outra dica para o comprador. Mediante a expectativa de mais uma alta da Selic na próxima semana e independente da austeridade do BC, o economista adverte que os financiamentos já estão e ficarão ainda mais caros. As compras à vista, portanto, são, mais do nunca, aliadas do consumidor.

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