Juiz de Fora tem se beneficiado do potencial de consumo das cidades próximas, que atinge cifras milionárias, e se consolida como referência comercial para mais de 70 municípios da Zona da Mata e Rio de Janeiro (ver quadro). Consumidores vizinhos chegam a percorrer mais de cem quilômetros para comprar aqui. São atraídos pela variedade de produtos e buscam preços mais competitivos. Têm dinheiro no bolso e disposição para gastá-lo. Segundo estimativas do Sindicato do Comércio (Sindicomércio), este público responde por 30% do faturamento do comércio local nesta época do ano.
No Independência Shopping , por exemplo, metade das pessoas que frequentam o local nos finais de semana não mora na cidade. Entre as cidades localizadas em um raio de até 130 quilômetros de Juiz de Fora, Barbacena (15%), Ubá (14,4%), Três Rios (12,5%) e Petrópolis (12,5%) são os municípios de origem da maioria dos visitantes, conforme estatística divulgada pelo próprio empreendimento. No Mister Shopping, a avaliação é que os visitantes representem entre 35% e 38% do movimento pré-Natal, que deve chegar a 36 mil pessoas por dia. A Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) aposta que os moradores das cidades próximas possam contribuir com até 2 pontos percentuais na alta nas vendas esperada para este ano: entre 5% e 8%.
Diversidade
Para o presidente do Sindicomércio, Emerson Beloti, o público em potencial chega a um milhão de pessoas, tanto de origem mineira quanto fluminense. Na sua opinião, a variedade do comércio local é o principal atrativo. "Essas cidades, localizadas a um raio de até cem quilômetros, não são providas de um comércio tão diversificado quanto o de Juiz de Fora." Emerson destaca, ainda, a particularidade do centro comercial, que reúne três mil estabelecimentos em sete ruas interligadas, favorecendo o consumo. Na sua opinião, esta clientela movimenta economicamente não só o comércio, como também a prestação de serviços e, em especial, o segmento de bares e restaurantes.
A advogada e professora Elizabeth Vivanco mora em Teresópolis e vem à Juiz de Fora a cada quinze dias para visitar o filho, que estudou aqui e agora trabalha na cidade. Para ela, a variedade na oferta de produtos e os preços praticados tornam o comércio local atrativo. "Faço até compras de supermercado aqui, porque os preços são melhores." Para o Natal, Elizabeth tem uma lista de 20 presentes, que pretende comprar na cidade, distante 132 quilômetros da sua casa.
Franquias
O representante comercial Ricardo Rufino e a secretária Patrícia Singulani moram em Ubá e costumam vir a Juiz de Fora com frequência para fazer compras. "O mercado local é vigoroso", avalia Rufino. O representante comercial destaca a possibilidade de encontrar franquias das principais marcas nacionais, sem precisar ir a shoppings de Rio de Janeiro e São Paulo. Para Patrícia, a variedade na oferta é o principal diferencial, que compensa o deslocamento. O casal costuma vir e voltar, percorrendo mais de 200 quilômetros no mesmo dia.
Já os empresários Fernando e Elizabete Masiero, que moram em Pouso Alegre, a cerca de 350 quilômetros de Juiz de Fora, contam que, sempre que visitam familiares em Cataguases, passam pela cidade para fazer compras. "Aqui há mais opções e a maior concorrência impacta os preços", considera Fernando. Elizabete comenta que a "passagem" pela cidade sempre resulta em compras, pelo fato de o comércio local ser uma referência.
Restaurantes e bares dobram faturamento
O presidente regional da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), João de Matos Neto, destaca que os visitantes movimentam todo o setor. "Eles procuram refeições rápidas, porque não querem perder tempo de compra." João comenta que, em época de Natal, o volume de negócios chega a dobrar, em função da demanda de visitantes e consumidores da própria cidade. "Juiz de Fora está bem aparelhada para atendê-los."
A manutenção das aulas da UFJF durante o mês de dezembro este ano também favoreceu a atração deste público, considera o presidente da CDL, Vandir Domingos. Ele destaca a permanência dos alunos de fora e a chegada de pais e parentes para fazer compras aqui. "As ruas estão cheias, e as pessoas, com sacolas nas mãos. As lojas estão movimentadas, e o clima está ajudando." Para Vandir, os visitantes são, em sua maioria, da Zona da Mata, mas é crescente o número de clientes do Rio de Janeiro. "Estas pessoas têm que vir a Juiz de Fora resolver alguma coisa e acabam comprando, quando não chegam exclusivamente para este fim."
Na avaliação do presidente da Associação dos Lojistas do Independência Shopping, Domingos Llorca, as franquias e as lojas locais estão atentas ao interesse deste público por novidades. Na sua opinião, a concentração de cerca de 180 lojas em um só espaço favorece a escolha do comércio juiz-forano como referência. Para Llorca, a área de atração é ainda maior e abrange cidades distantes em até 200 quilômetros.
Já a gerente geral do Mister Shopping, Solange Fonseca, destaca a forte participação dos moradores de municípios limítrofes. Ela espera por, pelo menos, 13 mil consumidores da região no shopping por dia, às vésperas da data. Na opinião de Solange, a busca por qualidade e preço é determinante na decisão de pegar a estrada para fazer as compras natalinas.
Horário estendido sem consenso
A ampliação do horário de funcionamento do comércio central é uma necessidade para melhor atender este público, afirma o presidente do Sindicomércio, Emerson Beloti. Fora das datas comemorativas, as lojas ficam abertas, geralmente, até as 14h aos sábados. A meta é estender até as 18h em 2014. "Uma das bandeiras do sindicato é oferecer um horário mais adequado para quem vem à cidade no final de semana." Demanda existe, avalia. O movimento no Independência Shopping aos sábados e domingos, na sua opinião, comprova isso.
Hoje, o Código de Posturas (Lei 11.197/2006) no capítulo II, artigo 86, prevê o livre horário de funcionamento dos estabelecimentos comerciais, desde que exista prévio acordo ou convenção coletiva. Embora o Sindicomércio defenda a extensão do funcionamento aos sábados e, em uma segunda etapa, aos domingos, o Sindicato dos Trabalhadores no Comércio de Juiz de Fora é contra. A proposta do patronal é, ao invés de pagar hora extra, trocar a folga na tarde de sábado pelo descanso na manhã de segunda-feira. "O movimento aos sábados é melhor do que o de segunda-feira", justifica.
Para o vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores no Comércio, Wagner França, não há demanda que justifique a manutenção das lojas abertas além do horário habitual. "Não é hora ainda de se mexer no sábado. Pode ser que, no futuro, exista necessidade. Hoje não há." Wagner afirma que, após as 13h, não há demanda no Centro. "Algumas lojas fecham ao meio-dia pela falta de movimento." Quanto ao domingo, a proposta seria rejeitada por funcionários, empregadores e até consumidores, afirma o vice.
Treinamento
Na avaliação do diretor da Faculdade de Economia da UFJF, Lourival Batista de Oliveira Júnior, o horário de funcionamento nos finais de semana deve ser definido pelos sindicatos envolvidos. Para ele, Juiz de Fora possui boa infraestrutura em comércio e serviços para o padrão de 500 mil habitantes e capacidade de atendimento. Pondera, no entanto, para a necessidade de a cidade não se acomodar com estas vantagens, especialmente a de localização. "É preciso atentar para algumas medidas, como qualidade dos serviços, principalmente no caminho do treinamento dos colaboradores pela classe empresarial e na formação de capital humano pelo setor público."
