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75 mil atuam fora de suas cidades

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Sair de casa, pagar passagem intermunicipal, pegar a estrada, cumprir a jornada laboral em outra cidade e voltar para o município de origem é uma rotina vivida cinco dias por semana por mais de 75 mil trabalhadores ou 13,3% dos moradores da região. Esse é o universo de pessoas que deslocam-se para outro município a trabalho, conforme o estudo “Perspectivas de desenvolvimento para a Zona da Mata Mineira” da Fiemg Regional Zona da Mata. Embora nem todos atuem no mercado formal, o número equivale a quase metade (49,2%) das carteiras assinadas na cidade: 152.617.

O percentual de migração pendular verificado nas cidades vizinhas é um pouco superior à média mineira (10,8%). Ainda conforme o estudo da Fiemg Regional Zona da Mata, dentre os 22 municípios da região analisados, oito apresentam percentual de migração superior à média regional (13,3%). Na ordem, estão Ewbank da Câmara (53%), Guarará (29%), Matias Barbosa (24,6%), Coronel Pacheco (22,6%) e Santana do Deserto (20,9%). Em Juiz de Fora, o índice é de 3,3%.

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O índice da migração na região aponta para uma realidade preocupante. O vai e vem de trabalhadores como movimento geográfico profundamente associado ao nível de atividade econômica deve ser impactado pela queda no Produto Interno Bruto (PIB) e pelo aumento do desemprego, verificados no país e com reflexos diretos no município e no seu entorno.

De olho na perda de quase mil empregos com carteira assinada em Juiz de Fora no acumulado do ano até maio, o economista Guilherme Ventura, professor do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES/JF) e coordenador do Curso Executivo MBA Gestão Empresarial, avalia que o saldo negativo em 971 vagas formais interfere na movimentação dos trabalhadores. “Um mercado de trabalho mais vibrante ajuda na migração pendular. Quando cai a demanda por trabalhadores, ela se reflete na procura por funcionários locais e das cidades-dormitórios. Além disso, caso a produtividade seja menor nos trabalhadores que moram mais distantes, estes podem sofrer mais o impacto dos ajustes que as empresas estão realizando.”

Para o economista, a migração pendular tem dois lados, tanto para o “município- dormitório” quanto para o polo. O primeiro se beneficia com a remessa de recursos feita pelo trabalhador, fazendo com que o nível de renda suba, assemelhando-se à realidade de uma cidade maior. A cidade ganha, ainda, com a menor pressão sobre a infraestrutura urbana, já que uma fatia da população fica boa parte do dia em outro município. O aspecto negativo é que o capital humano ajuda no desenvolvimento de outra localidade. Em relação à cidade-polo, a oferta de trabalho ampliada permite contar com profissionais de cidades próximas. De negativa, há a maior pressão sobre a infraestrutura.

O movimento, explica o economista, pressupõe a existência de municípios próximos com boas ligações de transporte e condições de mercado de trabalho e imobiliário diferentes, que possibilitem ao trabalhador morar em uma cidade e trabalhar em outra. “A questão é: que condições Juiz de Fora possui para suportar uma população flutuante, decorrente deste movimento pendular, que provoca uma demanda maior do que a capacidade de absorvê-la ou atender às suas necessidades?”, questiona o coordenador do Laboratório de Demografia e Estudos Populacionais do Departamento de Geociências do Instituto de Ciências Humanas da UFJF, Luiz Fernando Soares de Castro.

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O secretário de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Geração de Emprego e Renda, André Zuchi, destaca que a migração pendular, seja por qual motivo for, acarreta em custos para a cidade-polo, sendo preciso avaliar os ônus e os bônus em cada caso. Nos setores de educação e comércio, por exemplo, a balança tende a ficar positiva, ao contrário do verificado na saúde. Para Zuchi, Juiz de Fora precisa explorar as suas vantagens competitivas, mas reconhece que é difícil “controlar” a situação.

Qualidade de vida compensa distância

O movimento pendular caracteriza-se como estratégia de acesso de uma parcela da população a oportunidades que são incompletas ou indisponíveis em seu município de residência, explica o professor Luiz Fernando Soares de Castro. “Uma dessas oportunidades é o trabalho, assim como também o estudo.” Segundo o coordenador, a polarização regional provoca movimentos populacionais intraurbanos, especialmente os deslocamentos pendulares. “Juiz de Fora, como polo de sua região, destaca-se por atrair um percentual considerável de mão de obra em função dos setores de serviço e comércio.” Embora seja um movimento geográfico, os fatores econômicos são considerados “muito importantes” em termos de vantagens comparativas e diferenças regionais de salários e oportunidades de emprego.

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Entre os que enfrentam essa jornada, há a aposta de que, mesmo desaquecido, o mercado local ainda é mais atrativo ante o das cidades de origem. Para a diarista Silvana Santos, 45 anos, Juiz de Fora oferece mais possibilidades e ganhos maiores na comparação com Matias Barbosa. Por isso, todos os dias, há 17 anos, ela percorre cerca de 40 quilômetros que separam os dois municípios (ida e volta). Por mês, o custo com passagem passa de R$ 182, considerando a tarifa unitária de R$ 4,55. Apesar do impacto no bolso, o deslocamento, segundo ela, compensa. A migração pendular é uma tradição na família. O marido, metalúrgico, também engrossa as estatísticas. “Para nós, é muito tranquilo, porque já estamos acostumados. Se a passagem tivesse preço único, seria maravilhoso.”

O técnico em eletrônica José Francisco, 44, percorre, diariamente, quase 200 quilômetros para trabalhar. Ele mora em Leopoldina e atua em Juiz de Fora há três meses. José morava aqui, mas mediante a elevação do custo de vida, especialmente aluguel, decidiu se mudar para Leopoldina. Lá, comenta, consegue economizar na manutenção do lar e ainda conta com melhor qualidade de vida. O desembolso de R$ 52 de passagem, mais de R$ 100 considerando a ida e a volta, é custeado pela empresa onde trabalha. José Francisco não teme perder o emprego por morar fora. Para ele, a qualificação e a dedicação profissionais compensam o maior custo da empresa na manutenção da sua mão de obra.

Este também é o caso de Eduardo Fontainha, 24, que mora em Santos Dumont e trabalha em Juiz de Fora. Embora considere a rotina cansativa, ele avalia que o deslocamento é necessário, já que Santos Dumont não oferece oportunidades de emprego como aqui. Por dia, ele perde mais de três horas dentro de um ônibus, percorrendo cerca de 60 quilômetros que separam as cidades (ida e volta). No seu caso, o custo do deslocamento também é absorvido pela empresa, um atrativo a mais para ele.

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Movimento pendular exige políticas públicas

“O movimento de trabalhadores de casa para o trabalho seguido pelo retorno é um aspecto importante da vida moderna, que afeta o bem-estar das pessoas e exige decisões de políticas públicas a respeito da mobilidade no mercado de trabalho, moradia e transportes”, avalia o professor Ricardo Freguglia, da Faculdade de Economia e do Programa de Pós-Graduação em Economia da UFJF e pesquisador do Núcleo de Estudos do Trabalho e Economia Social (Nietes). Na sua opinião, se trabalhadores e mercado de trabalho se completam, o município-polo terá vantagem em absorvê-los.

O professor alerta, no entanto, que o movimento não é necessariamente desejável, já que também pode ter efeitos negativos. “Dada a polaridade de Juiz de Fora e a existência desse tipo de migração no município e na região, é desejável um sistema de transporte mais adequado, que a cidade certamente oferece de maneira insuficiente.” Conforme Freguglia, se os trabalhadores pendulares têm custos adicionais em virtude das viagens de longa distância para o trabalho, essa escolha, teoricamente, deveria ser compensada por um trabalho financeiramente vantajoso, no sentido de garantir bem-estar adicional com um ambiente agradável para residir.

Transporte caro

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Para o mestre em Engenharia de Transportes José Luiz Britto, é preciso oferecer um transporte em melhores condições e menores preços para as cidades vizinhas. “Este transporte, hoje, é caro e, muitas vezes, os trabalhadores não têm condições de bancar, a menos que tenham um salário muito bom.” Na sua opinião, a criação de uma região metropolitana – defendida pela Fiemg e objeto de projeto de lei em trâmite na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) – seria uma alternativa para minimizar as dificuldades enfrentadas pelos vizinhos. “É preciso trabalhar para que o deslocamento dessa região seja facilitado.” Britto adverte, no entanto, que o conceito de região metropolitana, hoje, não passa de uma utopia, sendo necessário criar uma estrutura para que possa se tornar realidade. “Não vai ser fácil. É preciso que os municípios se unam para criar essa situação.” Uma proposta dele é que o sistema de transporte que atenda essa população flutuante seja subsidiado. “Sem transporte, não se chega a lugar nenhum e não se faz absolutamente nada.”

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