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População idosa cresce, mas serviços não acompanham

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Apesar de já ter até bisneto, Dona Zélia Vieira, 84 anos, é viúva e mora "sozinha e Deus", como diz. É responsável pela manutenção da casa e pela própria subsistência. Sabe tricotar, mas prefere dançar nas rodas de samba. "Tenho até pandeiro", orgulha-se. Independente, Zélia gasta seu dinheiro prioritariamente com mantimentos e bebida. "Gosto de uma cervejinha", justifica, entre risos. É fã de maquiagem e sente falta de lojas de roupas específicas para idosos. Costuma viajar para a praia no Carnaval e se considera feliz. Até mais do que quando era jovem. "Agora tenho tempo e sou livre."

Ela está entre os 70.288 idosos de Juiz de Fora que representam 13,6% da população juiz-forana. Entre os que têm mais de 60 anos, 76%, o equivalente a 53.400 pessoas, recebem algum tipo de benefício previdenciário. Considerando apenas o valor de pensões, aposentadorias e auxílios, o potencial de consumo deste público passa de R$ 40 milhões por mês. O montante anual (R$ 480 milhões) responde por 5% do total previsto para a cidade este ano (R$ 9,3 bilhões). Essa fatia de mercado cresce em ritmo acelerado. Enquanto a população juiz-forana aumentou 13% nos últimos dez anos, a alta entre os idosos chegou a 45,6% no mesmo período (ver quadro).

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Se sobram motivos para direcionar o olhar para estes consumidores, ainda faltam produtos e serviços voltados a este público. Em Juiz de Fora, já existem turmas específicas em academias de ginástica e dança, pacotes turísticos diferenciados para a faixa etária, atendimento especializado na área médica e vasta oferta de lazer, em especial de bailes e excursões. Os idosos, no entanto, não contam com lojas de roupas e calçados próprias, nem serviços diferenciados de alimentação e transporte particular, comuns em outras cidades.

"Os empresários ainda não perceberam que investir nessa clientela é um bom negócio", alerta o superintendente do Sindicato do Comércio (Sindicomércio), Sérgio Costa de Paula. Ele reconhece que não há lojas com produtos exclusivos para este público, embora em outros centros comerciais, como Rio de Janeiro e São Paulo, a segmentação seja comum. O atendimento é uma preocupação. Para Sérgio, há estabelecimentos preparados para oferecer atenção diferenciada, mas não são todos. "Há de se pensar e promover isso."

Segundo a coordenadora do Pró-Idoso, Rosângela Bonoto, os idosos reclamam, com frequência, do atendimento recebido. Entre as queixas, estão dificuldade de encontrar produtos para a faixa etária, informações incompletas e falta de paciência dos vendedores. Os problemas com compras angustiam o idoso, que tem dificuldade para resolvê-los, avalia. Na sua opinião, há despreparo no trato com este público. "Quem se propõe a receber o idoso precisa saber o que ele quer e ter paciência para ouvi-lo."

Humanização

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A dentista Cecília Sampaio de Mello chama de "crianças" os mais de 20 pacientes idosos, de quem trata desde quando era acadêmica. Cecília tem 80 anos e, até pouco tempo, ia à casa de uma cliente de cem anos para escovar seus dentes. Com seis décadas de exercício da profissão, considera humanização a palavra-chave para o atendimento aos idosos, em qualquer área. "O cliente quer encontrar uma pessoa amiga, que fique à vontade para conversar. Ele quer atenção, carinho e ser ouvido." Para a dentista, empregar parte do tempo para dialogar com o paciente é o segredo da confiança conquistada em tantas gerações. Não raro, um cliente leva o bisneto ao consultório para que Cecília extraia o dente de leite. Sobre a continuidade do ofício, a dentista responde: "O tempo que tenho é hoje". Segundo Cecília, seus pacientes rezam para que ela viva mais 80 anos. "A prece tem ajudado", brinca.

 

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Gasto de R$ 1.300 por viagem

Pelas contas do gerente de projetos da Associação Brasileira de Operadoras de Turismo (Braztoa), Enzo Arns, 210 mil idosos viajaram no ano passado pelo Programa Viaja Mais Melhor Idade, iniciativa do Ministério do Turismo que prevê descontos em pacotes turísticos para esta clientela. O tíquete-médio apurado foi de R$ 1.300 por pessoa. As categorias de turismo preferidas foram instâncias termais, litoral, ecoturismo e cruzeiros marítimos. Entre os destinos mais comprados estão Caldas Novas, Natal e Serra Gaúcha. "Se bem atendidos, eles têm interesse em voltar ao mesmo lugar, ao mesmo hotel e até fazer os mesmos passeios."

De olho nesse filão, a proprietária da Fibra Academia, Gabriela Quinet Domiciano, criou o programa "Vivendo melhor", voltado para a terceira idade. Hoje, 7% de sua clientela são pessoas com mais de 60 anos. Os participantes contam com desconto para participarem das aulas em grupo, às 7h, e recebem acompanhamento personalizado. Mas nada impede que façam aulas em separado. O advogado João Bernardo Lopes está na turma. Aos 81 anos, continua trabalhando, faz ginástica três vezes por semana e gosta de conversar e de viajar com a esposa para São Lourenço.

Boa parte do tempo é dedicada ao bem-estar, e grande parte do dinheiro aos planos de saúde. João não sente falta de lojas segmentadas, mas cobra bom atendimento em todos os setores. "Com poucas exceções, a atenção é ruim." A academia em que frequenta, segundo ele, foge à regra. Para ele, o cuidado faz a diferença e o motiva a acordar às 6h para "desenferrujar". O segredo da longevidade, segundo João, está na forma de encarar a vida. "Fiz uma opção de esquecer o passado para ser feliz no presente."

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Para saber como os idosos lidam com o próprio envelhecimento, a empresas de pesquisa de mercado GfK Custom Research Brasil elaborou o estudo "Panorama da Maturidade". A partir de 1.800 entrevistas domiciliares e individuais realizadas em dez cidades brasileiras. foram identificadas oito formas de os idosos encararem a vida após os 60 anos (ver quadro).

 

Número de idosos deve triplicar no país

Estudo divulgado pelo Banco Mundial no mês passado mostra que o país tem dez anos para se preparar para os efeitos do envelhecimento da população. Nesse período, haverá um "bônus demográfico", em que ainda é maior a proporção de pessoas em idade ativa ante os dependentes (crianças e idosos). A expectativa é que, a partir de 2020, o número de idosos triplique, passando dos atuais 20 milhões para 65 milhões nos próximos 40 anos.

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Entre as conclusões do relatório estão a necessidade de aproveitar a grande disponibilidade de mão de obra para promover o crescimento econômico, pensar na reestruturação do sistema previdenciário, criar oportunidades de trabalho suficientes para a população em idade ativa e ter um mercado financeiro que transmita confiança aqueles que querem poupar para o futuro.

O assistente social e gerontólogo José Anísio da Silva avalia que a cidade não está preparada para esta demanda que ganha corpo com o envelhecimento da população. Para ele, em termos de prestação de serviços, equipamentos e políticas públicas, há muito a ser feito. José Anísio alerta para a necessidade de saber atender esse cliente em suas especificidades. O gerontólogo destaca, ainda, o consequente desequilíbrio financeiro nos escassos recursos públicos nas áreas de assistência social, saúde e educação, além do impacto direto na Previdência Social. "Quem vai pagar a conta do nosso envelhecimento?"

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