A dor de ver a força das águas levar vidas, derrubar casas, inviabilizar acessos e acabar, em segundos, com negócios de um vida inteira não pode ser dimensionada. Mas o prejuízo financeiro amargado por quatro das cidades mais afetadas pelas chuvas na Zona da Mata já começa a ser contabilizado e pode passar de R$ 200 milhões. O valor foi apurado pela Tribuna com base em estimativas apresentadas nas cidades de Além Paraíba, Cataguases, Guidoval e Muriaé, sendo que a última incluiu não apenas os impactos nos setores produtivos, mas também os custos para recuperação da infraestrutura. Os municípios foram afetados com o temporal que, desde a madrugada de 2 de janeiro, provocou a inundação de rios e o deslizamento de encostas, deixando rastro de destruição. Em algumas cidades, a chuva só deu trégua esta semana.
A Fiemg Regional Zona da Mata estima que ao menos 200 empresas tenham sido diretamente prejudicadas. O universo é ainda maior, considera o presidente Francisco Campolina, já que novos relatos de prejuízos chegam à entidade a cada hora. Para Campolina, a Zona da Mata deve apresentar entre 300 e 400 pedidos por recursos do Programa Emergencial de Socorro a Empresas e Cooperativas com Empreendimentos Afetados por Chuvas Intensas (Fundese Solidário VI), pleiteando boa parte dos R$ 30 milhões destinados a reparação de danos a micro e pequenas empresas em todo o estado. Em 2008, época da última enchente que também assolou a região, foram destinados R$ 17 milhões para a Zona da Mata. A corrida contra o tempo começou, já que os pedidos de financiamento ao Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) devem ser feitos até 31 de maio. Nessa briga, a região não está sozinha. Até sexta, eram 153 o número de cidades em situação de emergência no estado.
Outra bandeira levantada pela Fiemg era conseguir a prorrogação, por 90 dias, do pagamento do ICMS. Na sexta-feira, foi concedido prazo de 60 dias para contribuintes estabelecidos em municípios afetados, com saldo devedor de até R$ 20 mil. Também está sendo estudada isenção de IPVA e da Taxa de Registro e Licenciamento Anual do Veículo 2012, mediante a comprovação de perda total dos veículos nos municípios afetados.
"Não adianta dar colchão, cesta básica e água. É preciso conseguir recursos a juros baixos e prorrogar o pagamento de impostos estaduais e federais. Temos que ajudar, mas pensar também em atitudes a médio e longo prazo, para a população não sofrer tanto", avalia Campolina.
Secretários municipais, representantes de entidades civis organizadas, empresários e trabalhadores relatam a seguir a situação econômica, contabilizando perdas e compartilhando histórias dramáticas, pontuadas pela esperança de recuperação e retomada, não apenas do processo produtivo, mas da rotina das cidades e da vida de sua população.
Além Paraíba: Impacto é ‘incomensurável’
"Incomensurável." É desta forma que a gerente da Associação Comercial de Além Paraíba, Alina Mendes Gomes, define o impacto na economia da cidade. "Todos tiveram prejuízo. A economia está estagnada." A inundação do Ribeirão Limoeiro devastou a cidade, atingindo estabelecimentos em bairros como Vila Laroca e Vila Caxias, que concentram entre 80 e 90 empresas, entre padarias, lojas de informática, supermercados, quitandas, salões de beleza e lojas de roupa. A grande maioria perdeu tudo.
"Além de ver a morte de perto, a água levou tudo. Ferramentas, mais de 20 pneus, motor de um caminhão e tanques de combustível. Só consegui salvar alguns cavalinhos dos caminhões e dois carros", contou Nelson Silva Júnior, dono de uma transportadora. Ele calcula o prejuízo em mais de R$ 80 mil. Dono de uma padaria na Praça Conde das Neves, no Centro da Vila Caxias, Pedro Mesquita chorava compulsivamente ao tentar estimar os prejuízos (foto). "Minha vida inteira está aqui. Eu, mulher e três filhos dependemos desse comércio. É pequeno, mas o movimento era muito bom. Perdi todo maquinário, fornos, freezers, toda mercadoria, além de tudo o que estava no depósito, que fica aqui na mesma rua, e os dois carros que tinha. Não tenho nem como calcular."
Gerente da madeireira Junqueira Barroso, Alexandre Montes Ferreira, calcula rombo de R$ 70 mil com perda de mais de 25 metros cúbicos de madeira, queima de máquinas de corte e dos motores de dois caminhões. "Agora é contar com a ajuda de amigos para recomeçar."
A Furnas, que está construindo o Aproveitamento Hidrelétrico de Simplício (AHE Simplício) no Rio Paraíba do Sul, afirmou, por meio de nota, que as chuvas que castigam o município de Sapucaia, limítrofe a Além Paraíba, afetaram o acesso à casa de força do AHE. "As chuvas provocaram queda de pontes em estradas secundárias, mas as equipes de manutenção de estradas conseguiram restabelecer, na quarta-feira, o acesso por terra para carros."
Cataguases: Cem empresas atingidas
Até R$ 30 milhões. Este é o prejuízo estimado pelo secretário da Indústria e Comércio de Cataguases, Newton Dutra, para indústrias e comércio em função das chuvas. O centro comercial foi uma das áreas mais atingidas. O número de empresa afetadas, pelas suas contas, passa de cem. Além dos estabelecimentos tomados pela água, o secretário destaca a interrupção do processo produtivo, já que muitos funcionários não conseguiram chegar aos postos de trabalho, além da dificuldade de receber matéria-prima e, principalmente, escoar a produção. O forte da economia local são os setores de confecção, alimentício, metal-mecânico e têxtil. A última grande enchente na cidade aconteceu em 2008. Na época, Cataguases recebeu R$ 4 milhões do Fundese Solidário. Este ano, a meta é conseguir boa parte dos R$ 30 milhões disponíveis para o estado. "É paliativo."
Segundo o sócio da Eletromecânica São Jorge, Lucas Moreira Grôpo, as perdas este ano podem ter chegado a R$ 300 mil apenas em sua empresa, especializada em motores elétricos, transformadores e geradores. Segundo ele, a água atingiu cerca de um metro na última segunda, destruindo equipamentos. "Ainda perdemos quatro dias de trabalho e vários serviços."
Na loja Colchão Móveis, o proprietário Frederico Lucarelli parou de contabilizar os prejuízos quando as contas atingiram a cifra de R$ 100 mil. "Se a gente for contar tudo, para de trabalhar." Na semana passada, ele permanecia com o estabelecimento fechado, realizando obras e limpeza. Na Móveis Resende, o proprietário Sebastião Resende instalou proteções de ferro para conter a força das águas nas enchentes, sem sucesso. Ele calcula perdas de R$ 150 mil com móveis, eletrodomésticos e colchões.
Já na recém-inaugurada Ricardo Eletro, o gerente Cristiano Peixoto diz que foi necessário alugar um apartamento no prédio em cima da loja para guardar os equipamentos destruídos pelas chuvas até a chegada do seguro, que vai avaliar as perdas. "A água atingiu todo o estoque. A nossa sorte é que estávamos com poucos produtos, pois tínhamos vendido muito no Natal." Entre os itens destruídos estão várias TVs de 42 polegadas de LCD, máquinas de lavar, sons, ventiladores, batedeiras, torradeiras, entre outros equipamentos. Ele estima prejuízo médio de R$ 40 mil.
Guidoval: ‘Todos foram afetados’
"As empresas de Guidoval foram todas afetadas. Umas mais, outras menos", avalia o presidente do Sindicato Intermunicipal das Indústrias do Mobiliário de Ubá (Intersind), Michel Henrique Pires. Segundo ele, o prejuízo estimado varia entre R$ 2 e R$ 3 milhões, contando as onze empresas do ramo naquela cidade. De acordo com Michel, os negócios que não foram destruídos pelas águas também foram prejudicados pela falta de acesso à cidade (a única ponte foi levada pela enxurrada), não há como receber matéria-prima, nem escoar a produção. Além disso, os funcionários ainda não voltaram aos postos, porque estão reconstruindo suas casas – e suas vidas.
"Em algumas empresas, acabou tudo. Não há mais nada. Há empresário que não vai reconstruir, resolveu aposentar. Naquelas em que as perdas foram menores, acredito que em dois meses já estejam prontas para trabalhar." De acordo com o presidente do Intersind em Ubá, Tocantins, Visconde do Rio Branco e Rodeiro não houve grande impacto.
Não apenas as empresas moveleiras, mas lojas e demais estabelecimentos localizados principalmente no Centro da cidade também foram atingidos. O entregador Nébio de Souza Júnior, 30, teme perder o emprego. O mercado onde ele trabalhava foi completamente destruído pela água da enchente, que chegou próxima ao teto do estabelecimento. A enxurrada ainda levou os veículos utilizados para realizar as entregas. "Foram embora a bicicleta, as motos, os produtos, tudo. Minha mãe, meu pai e meu irmão estão sem trabalho e agora estou com medo de ficar também. Torço para o meu patrão recuperar o que perdeu, porque, enquanto isso, estou sem serviço."
Para Luiz Cezar Soares, 42, que já estava desempregado antes da tragédia em Guidoval, a preocupação agora é conseguir uma nova colocação. "Estamos com vida, estamos com tudo. Isso é o mais importante. Mas não deixamos de ter medo de não haver emprego na região."
Muriaé: R$ 170 mi para reconstrução
Em Muriaé, o custo para recuperar os danos provocados pelas chuvas foi estimado em R$ 170 milhões, considerando não apenas as perdas dos setores produtivos, mas também o comprometimento da infraestrutura da cidade. O secretário de Desenvolvimento Econômico, César Bianchi, comenta que, por conta da economia informal, fica difícil mensurar o impacto concreto em cifras. As empresas de confecção, que respondem por 54% do Produto Interno Bruto (PIB) daquela cidade, foram as mais afetadas. Em Muriaé, a expectativa também é que a liberação de recursos do Fundese Solidário ajude a minimizar as perdas dos empresários. "É água com açúcar na boca de quem está morto de fome." Na avaliação do secretário, pelo menos 30 empresários já têm condições de pleitear a linha de financiamento concedida pelo BDMG. Depois de vivenciar pelo menos outras três grandes enchentes, a última há quatro anos, Bianchi avalia que a recuperação dos negócios demandará, no mínimo, três meses.
Na Coletivos Muriaeense, que realiza transporte coletivo urbano de passageiros, o contador Messias Amaro Cardoso explica que a empresa estava acostumada a reagir à cheia do rio colocando os equipamentos em cima das mesas e levando os documentos para o segundo andar. Este ano, no entanto, a força das águas foi muito maior. "A água chegou a 1,30 metros acima do chão." Com a enxurrada, a Coletivos perdeu documentos, arquivos, notas, controle de venda de vales e dinheiro, além de equipamentos, como computadores, impressoras e móveis. Quatro ônibus que estavam no pátio também ficaram debaixo d’água. "Não conseguimos levantar o prejuízo financeiramente." Na avaliação de Messias, a recuperação deve se prolongar por todo o primeiro semestre e depende também da reconstrução da cidade e da retomada da rotina da população.
* Colaboraram Flávia Lopes, Renata Brum e Fernanda Sanglard
