
Amor à profissão e acolhida de pacientes mantêm o médico Walter de Campos, 80 anos, na ativa: “não sei fazer outra coisa” (Leonardo Costa/14-10-15)
O dentista Robson Piazzi, de 85 anos, vai diariamente ao consultório: ‘não consigo ficar parado’ (Fernando Priamo/08-10-15)
A inserção de idosos no mercado de trabalho formal ainda é um desafio para Juiz de Fora. Mesmo diante da tendência de crescimento desta parcela da população, a cidade ainda não se organizou para receber aqueles que desejam continuar na ativa, seja pela necessidade financeira ou pelo desejo de bem-estar e convivência social. Não existem políticas públicas específicas para o trabalhador com mais de 60 anos, que continua se deparando com um mercado restrito, despreparado para o envelhecimento da sociedade e, muitas vezes, discriminatório na hora de selecionar profissionais.
Durante três semanas, a Tribuna fez contato com empresas da cidade para entrevistar funcionários acima dos 60 anos, mas não obteve retorno. As entidades representativas dos setores de indústria, comércio, serviços, bares e restaurantes informaram que não possuem programa específico de estímulo à admissão de trabalhadores idosos. Na análise do gerontólogo e assistente social José Anísio Pitico da Silva, esta dificuldade reflete o quanto o mercado se mantém fechado à terceira idade. “Temos muito para caminhar nesse sentido, eliminar o preconceito de que o idoso é incapaz e improdutivo.” Para Pitico, o mercado juiz-forano não é receptivo aos idosos. “O empregador não acredita na força de trabalho da pessoa idosa. Também não temos políticas públicas que incentivem a contratação destes profissionais.”
O especialista explica que o Estatuto do Idoso garante o direito ao trabalho, respeitada as condições físicas, intelectuais e psíquicas, estabelecendo que fica a cargo do poder público criar programas de estímulo para que as empresas privadas façam contratações. “Infelizmente, não vemos isso na cidade, e o estatuto passa batido.” O especialista lembra que a pessoa chega hoje aos 60 anos com total capacidade de produzir. “Mas não vemos nenhum movimento para receber essa população que quer participar do mercado.” Ele destaca que, além da procura por bem-estar, muitas pessoas desta faixa etária buscam emprego por necessidade. “Há muitos idosos que são chefes de família e precisam complementar a renda da aposentadoria. O ideal seria chegar nesta fase da vida e apenas desfrutar, mas vivemos num país de injustiça social.”
Rotina agitada
Com a ausência de incentivo público e as portas quase sempre fechadas do setor privado, aqueles que podem cavar a própria oportunidade como profissionais liberais traçam um caminho de sucesso. No consultório do dentista Robson Pedro Piazzi, 85 anos, o dia a dia é agitado. Dentre os pacientes, há quem se consulta com ele há mais de 40 anos. “Com tanto tempo de estrada, as pessoas se tornam minhas amigas.” São 53 anos de carreira como dentista, mas antes disso ele trabalhou como marceneiro, tecelão e auxiliar de almoxarife. Foi conciliando trabalho e estudo que conseguiu se formar na primeira turma de Odontologia de Juiz de Fora, em 1961. Apaixonado pela profissão e acostumado com uma rotina agitada, os planos para o futuro são de continuar na ativa. “Gosto de trabalhar, não consigo ficar parado.” Além da satisfação pessoal, ele conta que também há a motivação financeira. “A aposentadoria é bem menor do que eu esperava.” Casado há 52 anos e pai de três filhos, Robson destaca que o trabalho é uma oportunidade a mais de geração de renda e bem-estar.
Benefícios para a saúde e auto-estima
A psicóloga especialista em geriatria e gerontologia Jimilly Caputo Corrêa lembra que o trabalho também pode ser uma fonte de prazer capaz de acarretar benefícios para saúde de profissionais com mais de 60 anos. “Para os idosos que desejam continuar na ativa, é sinônimo de melhor qualidade de vida e contribui, inclusive, para afastar problemas como depressão e ansiedade. No momento em que está trabalhando, ele consegue se comunicar, trocar experiências e se manter ativo mentalmente.”
A especialista destaca os aspectos positivos em se manter profissionais de diferentes idades trabalhando num mesmo ambiente. “Este encontro de gerações é um aprendizado mútuo entre idosos e jovens. A empresa ganha com esse compartilhamento de experiências, tendo uma equipe que se complementa.” Pitico ressalta as vantagens do idoso. “É bastante disciplinado, cumpre horários, é responsável, dedicado e tem liderança. Para ele, a ocupação é um ganho social de convivência, por isso, trabalha com vontade.” Jimilly ainda enfatiza que hoje o trabalhador chega aos 60 anos com melhores condições físicas e psíquicas para desempenhar um bom trabalho. “O idoso tem total capacidade de continuar produzindo.”
É pelo amor à profissão que o médico Walter de Campos, 80 anos, continua atendendo em consultório após ter se aposentado. “Formei em 1957, na primeira turma de Medicina da cidade. De lá para cá, montei meu consultório, em 1960, e trabalhei em quase todos os hospitais da cidade. Não sei fazer outra coisa na vida.” Ele conta que hoje se dá algumas “regalias” como folgar às sextas-feiras e passar parte da manhã em casa com a família. De segunda à quinta, o trabalho no consultório é puxado. “Tenho pacientes de longa data que se tornaram amigos.” Esta “fidelização” ele credita à relação de respeito e confiança que foi construída. “Este é o papel da medicina. Não há coisa que mais me deixa aborrecido do que quando vejo nos noticiários o descaso de profissionais e hospitais para com pacientes. Lidamos com vida, temos que ser acolhedores”, afirma explicando que, durante o trabalho, também se sente acolhido.
Câmara estuda projeto de lei; PJF não tem programa
Na Câmara, a Comissão de Defesa dos Direitos dos Idosos analisa a possibilidade de elaboração de projeto de lei para estimular o setor privado a contratar trabalhadores acima de 60 anos. “Estamos cientes da discriminação que o trabalhador sofre e estudamos a melhor forma para resolver este problema”, garante a presidente do grupo, vereadora Ana Rossignoli (PDT). Ela adianta que a proposta seria para beneficiar as empresas que incorporassem idosos ao quadro de funcionários. “Mas temos que verificar a constitucionalidade para evitar visto da iniciativa.” Não há previsão para conclusão do projeto.
A Prefeitura também não possui programas de inclusão produtiva específicos para este segmento. Os projetos realizados pela Secretaria de Desenvolvimento Social (SDS) são direcionados a pessoas de diferentes faixas etárias que se encontram em situação de vulnerabilidade social. “O JF Qualifica, que foi lançado recentemente, visa a geração de uma política de emprego e renda para usuários dos programas sociais, incluindo pessoas com mais de 60 anos”, destaca o subsecretario de Desenvolvimento Social Rogério Rodrigues.
Ele reconhece que o mercado de trabalho local é bastante restrito. “As leis de mercado ainda são excludentes com idosos, deficientes e pessoas que buscam o primeiro emprego. É preciso trabalhar para sensibilizar os empregadores e mudar esta realidade.” Esta semana a SDS realizou o 3° Encontro Socioprodutivo “Um Olhar Sobre o Social”, evento para incentivar os empresários da cidade a contratarem pessoas que estão em situação de vulnerabilidade. “Não queremos caridade das empresas, queremos que abram oportunidades.” Sobre a possibilidade de um projeto específico para a terceira idade, ele afirma que a proposta deve ser debatida para que se possa garantir recursos para a realização.
125 mil idosos em 2030
Se Juiz de Fora seguir o mesmo ritmo da projeção da população idosa do país feita pelo IBGE para 2030, que mostrou crescimento de 80% em comparação com os dados do Censo de 2010, a cidade terá mais de 125 mil idosos daqui a 15 anos. Em 2010, o município somava 70.288, sendo que cerca de 17 mil deles se mantinham economicamente ativos. Para Pitico, estes números devem te aumentado até 2015, o que demonstra uma necessidade urgente de políticas públicas locais direcionadas para a terceira idade.
Com a crise, cresce procura por emprego
E é durante os períodos de crise econômica que a procura por emprego por pessoas idosas aumenta. O pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), Tiago Barreira, afirma que, embora não exista dados específicos, é um reflexo comum no momento em que há queda da renda. “Frente à perda do poder aquisitivo das famílias, quem não estava contribuindo financeiramente em casa busca uma oportunidade para poder fazê-lo, e quem já estava tenta uma segunda fonte de renda”, diz. “Neste sentido, percebemos aumento da procura de vagas por jovens que querem o primeiro emprego e idosos que estão aposentados.”
Na avaliação do pesquisador, o mercado de trabalho não se mostra receptivo a estes dois grupos de trabalhadores. “Há uma retração da oferta por conta do contexto econômico, e estes públicos têm maior dificuldade de conquistar as vagas que surgem.” No caso dos idosos, ele afirma que as oportunidades são ainda mais escassas. “Ainda há uma cultura das empresas de preferirem os mais jovens, o que precisa ser repensado, já que a população está envelhecendo.”
Outras circunstâncias dificultam a atuação do trabalhador com mais de 60 anos. “Aqueles mais qualificados, geralmente, são alocados em cargos de estratégia, que possuem oferta bastante reduzida. Ainda temos os profissionais com menor qualificação que, ao concorrerem com outros trabalhadores, têm menores chances de serem selecionados.” Ele destaca que as dificuldades enfrentadas neste segundo caso culminam na ida destas pessoas para o mercado informal. “A defasagem da aposentadoria as obriga a procurar uma renda complementar, quando não encontram trabalho com carteira assinada, acabam optando em fazer bicos.”

