
Diretora de marketing do Premier Parc Hotel, Paula Falce, aposta em parcerias e promoções para garantir competitividade (Marcelo Ribeiro/09-06-16)
Entre janeiro e março deste ano, o setor de serviços do país registrou queda de 5%, o pior resultado em um primeiro trimestre dos últimos seis anos, conforme dados divulgados pelo IBGE. Apesar da ausência de números específicos sobre Juiz de Fora, representantes do setor afirmam que a retração se mostra ainda mais severa no município, chegando a ser até sete vezes maior do que o percentual nacional em alguns segmentos do ramo. Este é o caso do serviço de táxi, que verificou redução de 40% das corridas. Hotéis e outros estabelecimentos também tiveram diminuição na procura e temem pela empregabilidade. A baixa demanda por serviços é reflexo das crises econômica e política que assola o país, responsáveis por encolher a renda e afetar a confiança de investidores e consumidores.
Na rede hoteleira, a queda neste início de ano foi de 20%, conforme o Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Juiz de Fora (SHRBS-JF). “Esta comparação é com 2015, que já foi um ano muito difícil”, ressalta o coordenador Rogério Barros. “As empresas reduziram as viagens de negócios, e os consumidores não estão viajando a lazer. Nossa maior preocupação é garantir os empregos, pois já tivemos algumas demissões.”
A diretora do departamento de marketing do Premier Parc Hotel, Paula Falce, confirma a desaceleração na procura por reservas e eventos. “Com certeza estamos sofrendo com a crise. O momento é de cautela em todo tipo de gasto por parte das empresas. Estão todos enxugando custos, reduzindo e adiando investimentos.” Segundo Paula Falce, a situação tem exigido reformulações. “Além de movimentarmos o hotel com ações de parcerias, que variam da cultura à gastronomia, estamos criando promoções, buscando nos manter competitivos.”
A realidade também é a mesma nos hotéis Victory Business, Victory Suites e Independência Trade Hotel, segundo o diretor dos empreendimentos, José Carlos Branco. “O setor apresenta uma forte retração, potencializada pelo encolhimento das maiores empresas locais. Aliado à isso, ainda temos a falta de competitividade fiscal da cidade, que provocou a perda de muitos projetos desde 2009”, ressalta. Segundo ele, a solução tem sido “reaprender a administrar, conter despesas e reinventar dia a dia o nosso negócio.”
Apesar de ser considerada atividade comercial e não do setor de serviços, os restaurantes também seguem a dinâmica da rede hoteleira e têm sentido a retração dos consumidores. De acordo com Rogério, houve queda de 30% neste segmento. “Muitos estabelecimentos foram fechados, e os que sobrevivem estão se adaptando à menor movimentação. Alguns empresários modificaram o negócio criando o sistema de preço fixo sem balança. Nesta adaptação, houve corte de empregados, diminuição do espaço físico. A situação está difícil.”
Em efeito cascata, o setor de táxi também vê as corridas minguarem. “No nosso caso, além da situação nacional, tivemos o aumento da frota local. Com menos clientes e mais carros na rua, o número de corridas diminuiu cerca de 40%”, destacou o presidente do Sindicato dos Taxistas, Aparecido Fagundes. “Os taxistas estão estendendo o horário e trabalhando em dias que seriam de folga para tentar honrar os compromissos. Tem gente alugando a casa para realização de eventos para poder pagar as prestações do carro.”
Análise
O economista e professor da UFJF, Fernando Salgueiro Perobelli, explica que, a ocupação do segmento em Juiz de Fora está atrelada, em grande parte, aos negócios. “Neste momento, as empresas estão refazendo a estrutura logística, tentando cortar custos e, isso, pode implicar, num menor número de viagens, um condensamento no número de diárias para realização de negócios e encontros à distância”, exemplifica. Perobelli diz que o serviço de táxi também segue esta lógica, e a redução de negócios diminui a demanda.Perobelli destaca, também, que “o aumento da tarifa, aliado à diminuição do ritmo de crescimento da economia, leva a uma queda ainda maior na utilização desse serviço.”
Famílias cortam gastos pessoais
Salões de beleza, academias de ginástica e outros estabelecimentos também sofrem com a retração. “A realidade econômica do país ainda é delicada. Num momento de crise, o consumidor corta o que considera supérfluo, e o setor de serviços é o principal afetado”, diz o presidente do Sindicato do Comércio (Sindicomércio-JF), entidade que também representa serviços, Emerson Beloti. Ele explica que, por se tratar de um setor muito diversificado, cada estabelecimento tem sentido a crise de forma diferente.
Para o economista e professor da UFJF Admir Antônio Betarelli Junior, os serviços pessoais ofertados às famílias, como os salões de beleza e as academias de ginástica, estão entre os principais impactados. “São aqueles com características de não essenciais, que podem ser substituídos ou postergados.”O professor Fernando Perobelli, também da UFJF, observa que, por conta de restrição orçamentárias e queda na renda, há uma readequação dos gastos. “Os itens básicos da cesta de consumo são essenciais para a sobrevivência e não há tanta “liberdade” para corte ou substituições.”
A estudante Thaís de Souza Ribeiro, 27 anos, conta que precisou diminuir os gastos com serviços pessoais este ano. “Tenho ido ao salão de cabeleireiro com menor frequência, e na academia, reduzi o meu plano que me permitia fazer todas as atividades por outro mais em conta.” Segundo ela, a economia tem ajudado a pagar as contas do dia a dia. “No momento, não tem dado para guardar dinheiro porque tudo encareceu.”
Na tentativa de aumentar o número de clientes, salões de beleza têm realizado diferentes estratégias de prospecção como a redução dos preços em dias de menor demanda e o uso das redes sociais para anunciar promoções. Para incentivar a maior frequência dos consumidores, há estabelecimentos oferecendo cartões fidelidade e combos promocionais, que garantem descontos nos serviços.
Preços devem se estabilizar
O setor de serviços compreende quase 62% da economia de Juiz de Fora, de acordo com o economista professor da UFJF Admir Antônio Betarelli Junior. “Como a retração de renda é em nível nacional e somos um município polo, que atrai consumidores de outras regiões, a queda da demanda por serviços pode se acentuar e, portanto, ocasionar maior retração na geração de renda e emprego.”
No primeiro trimestre, as empresas de serviço fecharam 164 postos de trabalho em Juiz de Fora, conforme os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Em abril, houve uma pequena recuperação com a criação de novos empregos, o que deixou o saldo positivo em 82 vagas. Um número muito pequeno se comparado ao total das 1.197 vagas encerradas em 2015. “O ano começou com as empresas enxugando o que podiam. Estas novas contratações não mostram crescimento, mas um ajuste do setor para poder continuar trabalhando”, avalia o presidente do Sindicomércio-JF, Emerson Beloti.
Para o economista da Confederação Nacional do Comércio de Bens e Serviços (CNC), Fábio Bentes, a recuperação do setor deve demorar a acontecer. “O que teremos a partir de agora serão quedas menos acentuadas nesta demanda.” Para ele, isso deve trazer uma estabilidade nos preços ao consumidor. “O setor já enxergou que vai ter que segurar valores e reduzir a margem de lucro para poder atrair o consumidor novamente, garantir a sobrevivência no mercado e a empregabilidade.”
Olimpíadas
A rede hoteleira mantém o otimismo. “Apostamos que o segundo semestre será melhor por conta das Olimpíadas e a instalação de delegações na cidade”, diz o coordenador do SHRBS-JF, Rogério Barros. “Tendo em vista os eventos já programados, nossa expectativa é boa. Esperamos crescer 15% em relação ao segundo semestre de 2015”, informou o diretor dos hotéis Victory Business, Victory Suites e Independência Trade Hotel, José Carlos Branco. Já o serviço de táxi acredita em uma retomada a longo prazo. “A recuperação deve acontecer em dez anos. Até hoje não tínhamos recuperado dos novos carros que começaram circular em 2010, e já se foram seis anos”, explica Fagundes.

