Inovação é a palavra de ordem para os negócios online. Enquanto o comércio eletrônico brasileiro cresce, em média, 30% por ano e amplia cada vez mais o número de usuários, que deve chegar a 53 milhões até o final de 2013, conforme dados da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), a solução para se manter vivo e garantir uma boa fatia do mercado é não temer mudanças. Neste cenário, novos modelos de negócio surgem, ganham adeptos e, boa parte das vezes, precisam ser reformulados para não desaparecerem. Este é o caso dos sites de compras coletivas, que após tornarem-se febre entre os brasileiros em 2011, hoje já não existem mais em seu sentido literal.
Importado dos Estados Unidos, o modelo de negócio chegou ao Brasil em 2010. A novidade atraiu muitos consumidores e investidores. Em pouco tempo, uma série de sites que ofereciam produtos e serviços com grandes descontos para grupos com determinado número de compradores apareceu no mercado. "Os sites menores não sobreviveram", afirma o diretor de comunicação da Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico (Câmara e-net), Gerson Rolim. O crescimento desordenado, a dificuldade de planejamento e o próprio desgaste do modelo de negócio são apontados como justificativa. "No início houve aquela corrida ao ouro e muitos resolveram se aventurar. Hoje o setor vive uma fase de amadurecimento, e só quem soube lidar com as mudanças no mercado conseguiu sobreviver." Segundo o órgão, Groupon, Peixe Urbano e Click On respondem por 80% do setor. "Mas na verdade, o conceito de compras coletivas não existe mais", diz o diretor.
A necessidade de mudar foi sentida inclusive em Juiz de Fora. Em outubro do ano passado, o site local Tribo Mania se transformou no "social commerce" Skoom. "Na internet é preciso trabalhar com inovação. Tudo muda de forma muito rápida", diz o proprietário Diogo Garcia. O modelo de negócio, segundo ele, é inédito no mercado nacional. "É uma espécie de shopping de ofertas. Os usuários se cadastram e têm acesso às promoções, que são gerenciadas pelas próprias empresas. Tudo isso é feito de forma gratuita e o site exerce, apenas, um papel de veículo de publicidade", explica. O lucro é obtido pelos anúncios que são feitos no portal. "Funciona de forma semelhante ao modelo de remuneração do Facebook." Neste novo formato, as empresas ofertantes possuem contato direto com os usuários, sendo avaliadas e recebendo relatório do perfil dos clientes. "Há uma socialização entre eles."
Garcia comprova com números que a mudança deu certo. Com um ano de atuação, o Skoom contabiliza 12 mil usuários e 250 empresas parceiras. "O retorno tem sido positivo e, em breve, entraremos no mercado de Belo Horizonte." Para ele, as transformações dos sites de compras coletivas foram consequência natural do amadurecimento do setor. "Foi um segmento que surgiu muito forte, mas por não agregar valor mostrou que poderia acabar a qualquer momento", afirma. Entre as dificuldades do antigo modelo, ele destaca os problemas na interação entre ofertantes e compradores. "Por vezes, o consumidor desrespeitava as regras de uso dos cupons. Já algumas empresas não ofereciam atendimento de qualidade àquele cliente. Os sites possuíam uma coparticipação neste tipo de problema quando, na verdade, estavam apenas intermediando a venda. Tudo isso foi muito desgastante, e o mercado mostrou que era preciso mudar", opina. "Foi assim que as empresas começaram a se mexer."
Líderes
As transformações vividas pelos maiores sites do setor reforçam o diagnóstico da Câmara e-net. Nenhum deles exige mais determinado número de compradores para efetivar a oferta, princípio básico para o termo "compras coletivas." Procurada pela Tribuna, a assessoria do Groupon declarou, em nota, que o site não se encaixa mais neste tipo de mercado. "Agora a empresa se posiciona como e-commerce local", diz o texto. Já o cofundador e diretor executivo do Peixe Urbano, Júlio Vasconcellos, explica que o site passou por várias reformulações como forma de "aprimorar o serviço." Ele destaca que, agora, "o usuário pode escolher entre produtos e serviços, em diferentes locais, e utilizar as promoções imediatamente após a compra dos cupons."
De acordo com Vasconcellos, o Peixe Urbano não passou apenas por alterações funcionais em sua plataforma online. A empresa foi reestruturada e, em março deste ano, mudou de sede, passando de um edifício no Centro do Rio de Janeiro, para dois escritórios menores na cidade carioca. "Fomos para dois endereços a fim de melhor acomodar nossos colaboradores e ainda reduzir custos." A mudança, segundo o empresário, não teve ligação com queda nas vendas. "Crescemos no primeiro semestre de 2013 e continuamos a ver uma aceleração do mercado."
Juiz-foranos reclamam menos
Possível fruto das mudanças do setor, os problemas de juiz-foranos com sites de compras coletivas diminuíram. Após um período de "explosão" de reclamações, a Agência de Proteção e Defesa do Consumidor de Juiz de Fora (Procon/JF) verificou queda expressiva no número de registros do tipo. De 2011 para 2012, as queixas no órgão contra Groupon, Peixe Urbano e Click On mais do que triplicaram, passando de 103 para 339. No período de janeiro a setembro deste ano,um total de 89 reclamações foram formalizadas.
Para o diretor de comunicação da Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico (Câmara e-net), Gerson Rolim, os registros revelam a estabilidade vivida pelo setor e não significam queda na demanda de consumidores. "A procura ainda é grande, e os sites continuam com margem positiva de crescimento. O que mudou foi o modelo de negócio, que não significa mais compras coletivas ao pé da letra." Ele analisa que, "após esta reinvenção, os sites operam mais como e-commerce local, mas mantêm no DNA a ideia inicial de levar boas ofertas aos usuários." O presidente da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), Maurício Salvador, concorda. "Estes sites possuem uma participação expressiva no e-commerce brasileiro e correspondem, hoje, a 11% do volume de vendas."
Na avaliação do cofundador e diretor executivo do Peixe Urbano, Júlio Vasconcellos, era esperado que o período de maturação acarretasse em maior qualidade dos serviços. "No início, o negócio de compras coletivas passou por um crescimento vertiginoso e depois muitas empresas desapareceram por estarem despreparadas. Na sequência, observamos uma estabilidade, o que é natural e saudável."
Chineses estão entre tendências online
Num meio em que a inovação é constante, outras opções de vendas virtuais disputam o interesse dos brasileiros para se tornar a "nova febre online". Entre os candidatos estão os portais chineses. Segundo pesquisa do site de pagamentos Pay Pal, 48% dos brasileiros que fazem compras em sites do exterior recorrem às páginas da China. O principal atrativo é o preço que, em alguns casos, chega a ser três vezes menor que o valor praticado no mercado nacional. Além disso, a oferta de produtos é variada, indo de pequenos objetos, como canetas e chaveiros, até roupas e calçados. Outro diferencial está na ausência de cobrança de frete em compras com valores até US$ 50.
Os sites chineses já são moda entre os juiz-foranos. Adepto das compras online, o empresário Thiago Valério, 27 anos, costuma recorrer aos portais. "No início, comprava coisas mais simples para testar. Quando vi que realmente funcionava, passei a comprar com mais frequência." Ele destaca que nunca teve problemas. "O único inconveniente é a demora. Não dá para contar muito com a compra." Segundo o empresário, os prazos para entrega já variaram de três semanas até três meses. A estudante Lidiane Oliveira, 23 anos, também aprova o modelo de negócio. "A última compra que fiz foi esta semana", diz. Entusiasmada com os preços baixos, ela conta que aguarda a entrega de roupas, acessórios e bolsas. "Como é tudo muito barato, você acaba comprando até sem precisar." Para não correr o risco de ter problemas, ela faz parte de um grupo de consumidores no Facebook que já soma mais de dois mil brasileiros.. "Tiramos dúvidas e fazemos indicações, assim, fica mais seguro."
Apesar do uso crescente dos portais chineses, o diretor de comunicação da Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico (Câmara e-net), Gerson Rolim, afirma que estes sites não ameaçam o e-commerce brasileiro. "Ainda há muito espaço para crescer neste mercado." Como tendência do comércio eletrônico nacional, ele destaca as queimas de estoque realizadas pelo varejo online. "É um negócio que tem atraído muitos consumidores."
Para o presidente da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), Maurício Salvador, nenhum modelo específico assumiu o posto de preferido entre os e-consumidores nacionais. "Ainda não percebemos nada que possa concorrer com o alvoroço que foram os sites de compras coletivas em 2011", diz. Ele destaca a atuação dos "market places", modelo em que lojas fazem parcerias para realizar ofertas diferenciadas, como tendência. "O grande atrativo para o cliente é ter a reunião de produtos de diferentes segmentos em um único espaço."
