Ícone do site Tribuna de Minas

Falta de eventos impacta cadeia turística em Juiz de Fora

PUBLICIDADE

Há 13 meses, quando o primeiro caso de coronavírus foi confirmado em Minas Gerais e os municípios passaram a adotar medidas restritivas para tentar controlar a pandemia, o turismo se colocou entre os setores da economia mais atingidos pela crise. A atividade depende justamente da movimentação de pessoas entre diferentes localidades, ato reprimido em tempos de circulação viral, debilitando as empresas que compõem a cadeia turística. Agora, especialistas calculam as perdas do setor e discutem maneiras de retorno gradual para a realização de eventos, principal vetor econômico da categoria em Juiz de Fora. Um consenso no setor é o fato de a vacinação em massa ser vista como a única ferramenta para a recuperação plena do turismo local.

De acordo com o Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Juiz de Fora, cerca de mil demissões ocorreram apenas entre os associados entre março de 2020 e março deste ano. No recorte que considera apenas a rede hoteleira juiz-forana, extremamente dependente do turismo, os hotéis calculam, em média, perda de 30% do faturamento durante o mesmo período, de acordo com o Juiz de Fora Convention & Visitors Bureau, entidade que representa o setor turístico na cidade.

PUBLICIDADE

O sócio da Viva Eventos, Fernando Sotrate, contabiliza perda de 50% no número de novos clientes da empresa, além do adiamento de mais de 250 formaturas pelo Brasil. “Até o início deste ano, todos os eventos haviam sido apenas adiados, porém, com o prolongamento e o agravamento da pandemia e sem uma previsibilidade de retorno, esse cenário de esperança tem mudado”, lamenta. “Apesar disso tudo, estamos aproveitando esse tempo para melhorar processos, implementar muitas tecnologias, apostar no digital, melhorar a experiência do cliente e lançar novos produtos”, explica.

No Hotel Green Hill, o desafio foi criar estratégias para mostrar o cumprimento dos protocolos e atrair clientes. Também houve demissão de funcionários durante o primeiro ano de pandemia. “Nós fizemos um raio-x da empresa, para procurar entender o nosso funcionamento, com uma análise de despesas para fazer com que a gente pudesse ter uma estrutura mais enxuta para passar por esse momento”, explica o diretor executivo, Alexandre Moreira.

Setor precisou demitir, enfrenta queda no faturamento e luta pelo retorno gradual, quando JF sair da onda roxa do Minas Consciente (Foto: Fernando Priamo)

Compreendendo o turismo local

Em Juiz de Fora, o turismo tem grande representação na área de eventos. Isso acontece por conta da escassez dos recursos naturais, grande atrativo nacional para turistas – sobretudo estrangeiros. A cidade também tem expoentes da cultura, mas que ainda ainda é pouco cultuada pela população brasileira. Quem faz essa análise é a professora do Curso de Turismo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Alice Arcuri. “Esses dois pilares, cultura e natureza, são os grandes caminhos do turismo. Mas, nos últimos anos, estão sendo explorados outros. E os eventos, a cada ano que passa, vêm se fortalecendo”, explica a docente. “Hoje, em Juiz de Fora, você teria o turismo cultural e o de eventos. Mas o de eventos predomina”, confirma Alice.

Ainda sem previsão de retorno dos eventos, toda a cadeia do turismo local sofre durante o período de crise. “Juiz de Fora sempre veio tropeçando, principalmente por conta do Poder Público. O turismo sempre foi visto como algo menor”, afirma a professora. Alice também elencou a escassez de parcerias entre os empresários do setor e a falta de dados sobre as atividades turísticas como outros pontos de vulnerabilidade.

PUBLICIDADE

Juntando os cacos

A vice-presidente do Juiz de Fora Convention & Visitors Bureau (JFC&VB), Thais Lima, participa das negociações entre as empresas privadas e o setor público para a liberação gradual das atividades no setor. A associação atuou na elaboração dos protocolos sanitários para funcionamento dos estabelecimentos e articula com a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) um caminho para a retomada dos eventos na cidade, após uma esperada melhoria da situação epidemiológica municipal e a saída de Juiz de Fora da onda roxa do Minas Consciente.

“O turismo e os eventos, em Juiz de Fora, estão diretamente relacionados. A maioria dos hotéis da cidade é de convenção e eventos. Esses dependem muito dos eventos para que a ocupação. A partir do momento em que os eventos estão proibidos na cidade, você também faz com que os hotéis não tenham retorno financeiro”, explica Thais. Os próprios protocolos sanitários limitam a ocupação dos hotéis, aumentando os custos e diminuindo a rentabilidade, conforme a representante da categoria. “O principal desafio é manter a porta aberta”, resume.

PUBLICIDADE

A vice-presidente do JFC&VB também considera que as políticas de apoio aos trabalhadores do setor foram insuficientes, principalmente para as empresas menores. “O pequeno empresário não conseguiu ter acesso a linhas de crédito, porque as exigências eram muito absurdas. As políticas públicas podem ter ajudado, principalmente aos empresários maiores, mas não foram suficientes para que a gente tenha uma retomada”, avalia.

Testes para retorno dos eventos

Em fevereiro, a Prefeitura estudou uma possível retomada do setor de eventos, por meio de uma revisão no programa Juiz de Fora pela Vida, com a realização de três eventos-teste. Em contato com a reportagem, a PJF considerou que os testes “atenderam às expectativas”, apesar de também destacar que o protocolo carece de melhorias. “O decreto que estabelece a onda roxa nos obrigou a paralisar as negociações, mas, tão logo o estágio de enfrentamento à pandemia nos permita, iremos retomar essa discussão”, afirma a Prefeitura.

O setor planeja um retorno gradual, com protocolos rígidos e ocupação pequena de espaços. “Logo que as atividades voltem, a gente também quer que os eventos voltem, mas de forma gradual. Com todo o distanciamento, passando pelo crivo da Prefeitura”, afirma Thais, tentando evitar a associação com os eventos clandestinos vistos durante a pandemia. “A Prefeitura não pode generalizar um setor por conta de profissionais irresponsáveis”, justifica.

PUBLICIDADE

Vacinação é a principal aliada

Um consenso no setor é a necessidade da ampliação da vacinação para que o turismo tenha uma recuperação plena. “A volta ocorre apenas depois da vacinação. Só quando a vacinação mostrar que o índice (de contaminação) está baixo. Até lá, serão pequenos grupos (retornando) com muita segurança, com pequenos eventos e o on-line”, projeta a docente do curso de Turismo da UFJF Alice Arcuri.

Thais Lima tem uma percepção parecida. Segundo ela, mesmo ocorrendo a volta do setor com diversos protocolos, a sensação de segurança do consumidor não será a mesma. “A gente precisa de uma população de 70%, 80% vacinada, para que as pessoas se sintam mais seguras para sair de casa e participem de eventos”, aponta.

Enquanto a imunização está em curso, a PJF afirma que vai manter as discussões para a retomada de alguns segmentos do turismo. “Temos que nos preparar para quando as atividades começarem a retornar à normalidade. E é isso que estamos fazendo: nos organizando para a retomada. Que não deve ser de todos os segmentos do turismo, mas de alguns, que permitam maior autonomia do turista”, garante.

PUBLICIDADE

‘SOS Turismo’

No último dia 30, a PJF anunciou o lançamento do programa ‘SOS Turismo’, em parceria com o Serviço Social do Comércio (Sesc Minas). O projeto visa a auxiliar trabalhadores do setor de turismo de Juiz de Fora que não tiveram apoio de programas assistenciais do Governo federal. A iniciativa municipal vai oferecer alimentos, materiais de higiene e produtos variados, além de capacitação e reciclagem de mão de obra. Os interessados em participar do programa devem apresentar a documentação solicitada no link.

A expectativa da Prefeitura é que sejam arrecadados, mensalmente, até o final da pandemia, 1.500 cestas básicas, 1.500 kits de higiene e 1.500 kits de produtos variados, como livros, materiais escolares, esportivos, brinquedos e dez mil sacolas ou caixas. A prioridade de atendimento será dada aos trabalhadores sem vínculos formais, principalmente mães, pais e responsáveis únicos pelo sustento do núcleo familiar.

Sair da versão mobile