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JF despreparada para a Copa

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A possibilidade de Juiz de Fora ser escolhida como Centro de Treinamento de Seleção (CTS), ou base camp (em inglês) para a Copa do Mundo de 2014, que acontece a partir de junho, traz ao município um desafio digno de titãs: correr contra o tempo para ter condições de abrigar uma das delegações dos 32 países que participarão do evento e atender o fluxo de turistas que viriam para cá. O sorteio dos grupos acontece em dezembro de 2013, em um evento na Costa do Sauípe, na Bahia, a partir do qual as seleções devem escolher onde se instalarão para o período de aclimatação. Transporte público ineficiente, pouca qualificação de funcionários em bares, restaurantes, comércio e serviços, número de leitos insuficiente na rede hoteleira e ausência de profissionais bilíngues são alguns dos gargalos enfrentados hoje no município.

Para o Sebrae Minas, falta interesse dos empresários locais para garantir as oportunidades de geração de negócios que o evento pode propiciar. De acordo com o gerente regional da entidade, João Roberto Marques Lobo, cada turista estrangeiro deverá gastar em torno de US$ 10 mil durante o evento no Brasil. "Este valor representa oportunidades para empresas de diferentes portes e segmentos." Segundo ele, no caso de Juiz de Fora, há uma grande preocupação com o prazo para realizar as adaptações caso a cidade seja confirmada como CTS. "Não estamos vendo uma movimentação em prol das melhorias dos serviços e processos. Temos a sensação de que, como o evento não é imediato, os empresários estão deixando para depois."

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De acordo com Lobo, isto significa perder dinheiro. "Sabemos que há uma dinâmica econômica nos anos que antecedem a Copa." Ele alerta que, quanto mais as adaptações demorarem para serem iniciadas, mais difícil será para alcançar os resultados. "Capacitar todo o quadro de pessoal em pouco mais de um ano é uma tarefa trabalhosa. Se não começarmos agora, este prazo será ainda menor."

O assessor de projetos do Senac Minas e coordenador da comitiva especial da entidade que esteve na África do Sul durante a Copa de 2010, Hegler Machado Guimarães, explica que as cidades escolhidas como CTS são economica e culturalmente modificadas. "Um bom exemplo é o que aconteceu em Guadalajara, no México. A cidade abrigou a Seleção Brasileira durante a Copa de 70 e, desde então, tornou-se ponto turístico para os brasileiros que vão ao país."

Guimarães destaca que, ao receber uma seleção, o município atrai torcedores de diferentes lugares e equipes de imprensa. "Estima-se que, além do público estrangeiro, teremos 3,5 milhões de brasileiros circulando o país no período da Copa." O aumento do potencial turístico, segundo ele, não ficará restrito às semanas de competição. "Os nomes das cidades CTS serão levados ao mundo inteiro. O número de turistas cresce durante e após o evento", completa.

Para atender o aumento desta demanda de turistas, Guimarães destaca que os municípios precisam de profissionais preparados e com fluência em inglês. "Como qualquer consumidor, estes turistas querem ser bem atendidos. É preciso que os colaboradores de todos os setores estejam bem informados, sejam receptivos e saibam se comunicar." Além disso, ele aponta aspectos de infraestrutura que são fundamentais. "É preciso ter bares, restaurantes, hotéis, aeroportos, rodoviária e serviços de táxis com capacidade para atender este público."

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No ponto de vista do vice-presidente do Juiz de Fora e Região Convention & Visitors Bureau, Carlos Roberto Zanini, a cidade deve priorizar as questões de logística urbana e atendimento para receber o grande fluxo de pessoas. "Um evento do porte da Copa do Mundo traz desenvolvimento para todo o país. Estamos falando de mídia espontânea, distribuição de renda , geração de empregos e oportunidades diversas", diz.

 

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Apagão de mão de obra em restaurantes

A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) da Zona da Mata afirma que o número de profissionais do setor é insuficiente para atender o aumento da demanda que surgirá se Juiz de Fora for escolhida como um CTS. "Como os empregos são para horários noturnos e finais de semana, a rotatividade é grande. Temos perdido muitos colaboradores para a construção civil", relata o diretor executivo da entidade, Marcos Henrique Miranda. Ele explica que, com o apagão da mão de obra, é impossível exigir experiência como pré-requisito para as vagas em aberto. "Por isso, os estabelecimentos estão sempre desenvolvendo treinamentos com os recém-contratados."

De acordo com informações do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Juiz de Fora, a entidade tem oferecido cursos de qualificação nas áreas de cozinha e língua estrangeira (inglês e espanhol) para profissionais que já estão empregados no setor e para aqueles que têm interesse em ingressar na categoria.

Na avaliação do chefe de cozinha Sílvio Zordan de Carvalho, 32 anos, que atuou em Juiz de Fora por um ano como bartender em uma casa noturna, a cidade precisa valorizar seus profissionais. Atualmente, ele trabalha em um restaurante em Vitória. "No Espírito Santo, recebemos mais turistas, e a remuneração dos trabalhadores é bem maior. Acredito que Juiz de Fora tem potencial para atender os torcedores da Copa de 2014, mas é necessário se preparar com antecedência."

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Já o empresário juiz-forano Igor Simas, 30 anos, que está trabalhando da capital paulista, acha que a cidade conta com bons restaurantes, mas o serviço ainda precisa melhorar. "Juiz de Fora tem estabelecimentos tão bons quanto os de São Paulo. Os preços são equiparados aos de grandes capitais, mas a qualidade de atendimento ainda é inferior."

Profissionais não falam outro idioma

No comércio, serviços e transporte público, a comunicação é o principal entrave. Segundo o presidente do Sindicato dos Taxistas, Aparecido Fagundes da Silva, 90% dos profissionais não falam outra língua. O Sebrae tem oferecido cursos gratuitos de língua estrangeira, mas a procura é muito pequena." De acordo com o Sindicato do Comércio de Juiz de Fora (Sindicomércio-JF), menos de 5% têm fluência em um segundo idioma. "Do universo de quase 30 mil comerciários, menos de 3% falam inglês fluentemente", revela o presidente da entidade, Emerson Beloti.

Para ele, é necessária a conscientização de empresários e funcionários sobre a grandeza do evento. "Mesmo que não sejamos escolhidos como base camp, o fato de estarmos no eixo entre Rio de Janeiro e Belo Horizonte facilita a atração de turistas para a cidade durante o evento", avalia.

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O presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio de Juiz de Fora, Silas Batista da Silva, analisa a necessidade de criação de uma cultura diferenciada no setor. "Os patrões exigem dos colaboradores, mas não oferecem uma contrapartida. Além do treinamento, são necessárias melhores condições de trabalho." Ele diz que, por causa disto, muitas empresas temem capacitar os funcionários e perdê-los.

No serviço de transporte coletivo urbano, a situação é parecida. De acordo com o Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Coletivo (Sinttro), "Juiz de Fora não tem transporte para atender este tipo de evento. Quando temos atividades menores, como provas de vestibular por exemplo, cria-se um nó na cidade. É preciso melhorar tudo. Faltam horário regular do serviço, conforto para os passageiros e valorização dos profissionais", diz o presidente da entidade, Adilson Antônio Rezende.

O engenheiro especialista em transporte e trânsito José Ricardo Daibert afirma que o município também sofre um apagão na área de mobilidade urbana. "Há 16 anos não se faz uma pesquisa que considera a origem e o destino dos deslocamentos, os hábitos, a renda e a motorização dos cidadãos. A melhora no trânsito não consiste apenas em aumentar frotas de ônibus ou táxis, mas em conhecer primeiro quais são os principais problemas", destaca.

A Settra informa que, para fazer uma mudança maior no serviço de ônibus, é imprescindível a realização de estudo de reestruturação do sistema. Quando há eventos que aumentam a demanda, como vestibular da UFJF, por exemplo, a secretaria informa que disponibiliza linhas especiais, com horários e número de veículos diferenciados.

Em relação a expansão da frota de táxis, a Settra informa que não há estudos ou licitação em andamento. Os dois últimos aumentos da frota (58 veículos em 2011 e 54 veículos em 2012) foram baseados em pesquisas feitas pela UFJF. Atualmente, a cidade conta com 548, sendo dez adaptados.

Rede hoteleira precisa de mais leitos

Segundo informações do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Juiz de Fora, a cidade possui três mil leitos que empregam em torno de 2.600 funcionários. Para a entidade, a capacidade da rede hoteleira precisa ser aumentada até 2014. "Atualmente, os grandes eventos da cidade já garantem a lotação máxima da rede. Fomos informados, pela própria imprensa, que outros hotéis serão construídos no próximo ano e acreditamos que alguns empresários devam ampliar a estrutura de estabelecimentos que já existem", afirmou a assessoria da entidade.

Com a construção de dois novos hoteis na cidade, a previsão de incremento é de 244 leitos (8% a mais que a quantidade atual) até a Copa de 2014, com as 144 suítes da unidade da rede hoteleira Ibis, na Deusdedit Salgado, e os cem leitos do hotel modelo Super 8 do Grupo Briz.

Desde 2005, quando a filha passou no vestibular da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o médico Hélio Nobre Monteiro, 54 anos, viaja de Guaratinguetá (SP) para a cidade com frequência. "Em todas estas viagens, já me hospedei em quatro hotéis diferentes e fiquei satisfeito com a qualidade das instalações e do atendimento. Encontrei nível de hospedagem semelhante ao de grandes hotéis de Fortaleza, Curitiba e São Paulo." Ele destaca que, se a rede hoteleira juiz-forana for ampliada é importante que se mantenha o padrão.

 

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