A crise internacional que ameaça as principais economias mundiais pode influenciar investimentos previstos para o município em 2012. A preocupação está concentrada nas empresas que operam com tradables – produtos negociáveis no mercado internacional que sofrem com a concorrência externa. O risco é identificado por economistas e compartilhado por empresários, que trocaram a euforia pela cautela ao falarem sobre o boom industrial esperado para a cidade nos próximos anos. O argumento é de que, em uma economia globalizada, Juiz de Fora, assim como outros centros urbanos, não passaria ilesa em caso de retração econômica.
Na semana passada, a Tribuna procurou 11 empresas que estão chegando ou expandindo suas atividades na cidade, a partir de acordos ou protocolos de intenção firmados após novembro de 2009. Deste total, cinco falaram sobre os seus projetos e confirmaram os investimentos: AG Companhia de Revalorização Plástica (CRP), Açotel, Brafer Construções Metálicas, Codeme Engenharia e Votorantim Metais. Juntas, vão investir mais de R$ 240 milhões neste primeiro momento e criar pelo menos três mil oportunidades de emprego. A concretização dos projetos está prevista para acontecer até o final de 2012. A Mercedes-Benz, que está convertendo a planta juiz-forana para produção de caminhões, não foi incluída porque já havia confirmado o início da montagem de veículos comerciais a partir de janeiro do próximo ano.
As empresas Ferrous Resources do Brasil, Grupo Icec, Rionil, Inusa, Companhia Brasileira de Usinagem (CBU) e JAS Indústria e Comércio também foram procuradas, mas preferiram não se posicionar sobre os projetos para Juiz de Fora. O Grupo Icec foi o primeiro a ser anunciado, em 2009. A meta, na época, era iniciar as atividades no segundo semestre deste ano. Em 2010, foram divulgadas a Ferrous (que programava iniciar as obras em 2012 e a operação a partir de 2016), a CBU, cuja expectativa era por operações desde o segundo semestre do ano passado, e a Inusa, que pretendia iniciar a expansão da unidade até julho. Este ano, foram divulgadas a Rionil, que não estipulou cronograma, e a JAS Indústria e Comércio, que anunciou início dos trabalhos no primeiro semestre de 2012.
Diante do cenário mundial e das perspectivas para o município, o economista e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Maurício Canêdo Pinheiro, avalia que negócios voltados ao mercado externo podem ter investimentos ameaçados ou reduzidos em função da recessão americana e europeia. Para Canêdo, as commodities ainda estão valorizadas. Na sua opinião, há mercado para os produtos brasileiros no médio prazo, mesmo com redução de preços. Apesar de o impacto ser considerado inevitável, a aposta do economista é que o país, desta vez, sofra menos ante outras crises. Para o especialista, é importante que a cidade possua estratégia de diversificação industrial para não se tornar refém do desempenho de um determinado ramo de atividade.
Dentre os investimentos anunciados, a prevalência concentra-se nos setores de siderurgia e metalurgia. Para o presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas de Juiz de Fora, José Tadeu Filgueiras, a perspectiva de crescimento do setor já não é a mesma. Para o presidente, as mudanças estruturais de ordem mundial modificaram critérios de investimentos, provocando a revisão de alguns planos para a cidade. Em função da recessão mundial, o que está por vir ainda é muito incerto. Entretanto, ele destaca que os negócios previstos são considerados fantásticos e prometem mudar o segmento.
O coordenador do Centro Industrial e economista Antônio Flávio Luca do Nascimento não se preocupa com as grandes empresas, que trabalham com planejamento de longo prazo e já confirmaram os investimentos. O seu receio está na captação de futuros negócios. Segundo ele, a posição do empresariado juiz-forano hoje é de cautela. Juiz de Fora vai sofrer impacto porque é globalizada. Caso haja quebradeira lá fora, haverá restrição de investimentos aqui. O economista elogia a iniciativa do Poder Público de promover o crescimento e o desenvolvimento econômico, destaca o êxito da política tributária diferenciada adotada pelo Estado e os atrativos do município, como a localização privilegiada. Os potenciais investimentos vão mudar a característica da cidade e torná-la ainda mais competitiva, aposta.
Em face desta nova realidade, o professor do Centro de Ensino Superior (CES) e economista Guilherme Ventura identifica reflexos positivos em emprego e renda, observando que os salários médios destes segmentos industriais são superiores àqueles atualmente praticados. Os impactos são esperados também no mercado imobiliário e na construção civil, além das finanças públicas, acrescentando receita municipal, e ampliando a capacidade de investimento do setor público municipal. Ventura destaca, ainda, o fato de a cidade ganhar visibilidade e competitividade na disputa por novos empreendimentos. Em contrapartida, pondera que o maior crescimento pressionará a infraestrutura urbana de transportes, saneamento e serviços públicos. Deve ser visto como problema bom, dores do crescimento, que devem ocupar a agenda dos gestores para que a cidade não perca qualidade de vida, aponta.
PJF mantém confiança na economia
O secretário de Planejamento e Desenvolvimento Econômico, André Zuchi, mantém a confiança de que a desaceleração verificada em outros países afetará pouco o Brasil e, por consequência, a cidade, embora reconheça o risco real de queda no crescimento. Ele argumenta que as estratégias de investimento das empresas se pautam no longo prazo, pensando na economia até 2020. Na sua avaliação, as decisões já tomadas não devem ser impactadas. Os investimentos ainda não definidos, no entanto, podem sofrer atrasos, diz.
Apesar da forte incidência no setor metal-mecânico, Zuchi destaca os investimentos em outros segmentos, como automobilístico, plástico e call center. Argumenta, ainda, que boa parte dos negócios previstos é focada em infraestrutura, bastante demandada em função de Copa do Mundo e Olimpíadas no Brasil. Sobre a recessão, considera que a economia pode desaquecer no país inteiro, e projetos podem ser afetados, mas considera prematura essa avaliação. É errôneo embarcar nessa história.
O secretário fala sobre duas empresas que não se posicionaram oficialmente à Tribuna. A Companhia Brasileira de Usinagem (CBU) teria dado início à produção de cadeados em um galpão na Zona Norte. Durante a assinatura do protocolo de intenções com o Governo estadual em março de 2010, foi anunciada a construção de uma unidade industrial, com investimento de R$ 60 milhões até 2012 e perspectiva de criação de 300 empregos diretos e cem indiretos. Em contrapartida, o Grupo Icec, a primeira grande empresa a ser anunciada, ainda em 2009, que investiria R$ 130 milhões na instalação de um Centro de Soluções em Aço, estaria redefinindo seu projeto. As duas foram procuradas, mas preferiram não falar sobre o assunto.
Empresas refazem seus cronogramas
Dentre os novos negócios, a construção da fábrica de estrutura metálicas da Codeme está mais avançada. Segundo o diretor de expansões, Ronaldo Tortorelli, estão previstas para início de novembro as fases de teste e posta em marcha dos equipamentos. A estimativa de inauguração em julho foi adiada em função do período de chuvas, que, segundo ele, comprometeu os trabalhos de terraplenagem e fundações. De acordo com o executivo, 90% das obras estão concluídas, 50% dos equipamentos, instalados e um turno de trabalho, formado por 160 pessoas, contratado. Os funcionários estão em treinamento nas plantas da empresa em Betim e Taubaté. A meta é que este número chegue a 180 até o final do ano. O projeto está andando muito bem. A data de inauguração não foi definida. A capacidade instalada da planta é de três mil toneladas por mês. A meta atingir 67% deste total até o final de 2012.
A Brafer pretende inaugurar a planta juiz-forana no final do próximo ano. Segundo o presidente da empresa, Marino Garofani, serão investidos R$ 50 milhões na primeira fase e mais R$ 39 milhões em um segundo momento. As obras do novo complexo, de cem mil metros quadrados (m²) foram iniciadas no segundo semestre do ano passado e estão em fase de terraplanagem e limpeza. A capacidade de produção será de 10.500 toneladas de material por mês, possibilitando a criação de 450 empregos diretos e outros 300 indiretos. Segundo Garofani, com a nova fábrica, o polo mineiro ganhará um centro de serviços destinados a beneficiar aços planos e não planos, que serão fabricados a partir de chapas e perfis de aço fornecidos por siderúrgicas locais. Em um segundo momento, a unidade passará a atuar na produção de estruturas metálicas, em especial, pontes.
Expansão
Dentre as empresas já sediadas, a Votorantim Metais afirmou, via assessoria, que o início da operação do Projeto Polimetálicos está prevista para este semestre. O Polimetálicos foi anunciado em 2007 e teve a partida postergada em outubro do ano seguinte em função da crise econômica mundial que afetou a demanda internacional por metais. Em 2010, a empresa anunciou a retomada do projeto. O início das operações estava previsto para acontecer a partir de agosto. A primeira fase consiste na ampliação da produção de zinco em 15 mil toneladas por ano. O investimento inicial é de R$ 98 milhões. O total chegaria a R$ 520 milhões, com a possibilidade de criação de 700 empregos, conforme divulgação na época da retomada.
A Açotel, que esperava concluir a expansão da unidade entre agosto e setembro, transferiu a previsão de inauguração para dezembro. As chuvas do ano passado atrasaram o cronograma em 90 dias, explica o gerente Flávio Meireles. Segundo ele, o investimento é de R$ 20 milhões. De acordo com o executivo, cerca de 80% das obras civis estão prontas e 70% do maquinário, entregue. A expectativa é que sejam criados 60 empregos diretos para a fabricação de perfis metálicos.
O Grupo AG confirmou o investimento de R$ 14 milhões na unidade de reciclagem de garrafas PET em Juiz de Fora. O projeto, pioneiro no país, conta com tecnologia alemã e transforma o lixo plástico em matéria prima para novos produtos. A capacidade instalada será de um milhão toneladas/mês de resina PET. A informação da empresa é que a instalação do galpão industrial está em estágio avançado. A inauguração da AG CRP está prevista para junho de 2012. A perspectiva é que sejam criados 128 empregos diretos e 1.200 indiretos.
