Com potencial de consumo de leite de 75 milhões de litros por ano, Juiz de Fora só produz em torno de 20 milhões de litros, ou seja, 27%. A diferença é coberta pelo alimento vindo de fazendas da Zona da Mata e Vertentes, que cobre a falta local e ainda atende outros mercados do país, em especial o carioca, conforme a Secretaria de Agropecuária e Abastecimento (SAA). Se a autossuficiência é um ideal distante – a meta da SAA é aumentar a produção atual em cerca de 90% – o ganho em qualidade é uma necessidade imediata. A Instrução Normativa (IN) 51/2002, editada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, estipula critérios mais rígidos para coleta, produção e transporte de lácteos. A norma, que entraria em vigor no último dia 1º, foi prorrogada por seis meses. A constatação unânime é a de que produtores da região ainda não estão preparados para esta nova realidade.
Além disso, a Prefeitura conta com a chegada da portuguesa Soros, que estaria prospectando a cidade. A empresa, especializada no tratamento do soro (hoje subaproveitado), estaria disposta a investir R$ 120 milhões para implantar uma unidade de alta tecnologia em Juiz de Fora. Para isso, no entanto, precisa de fornecimento mínimo de 500 mil litros do resíduo por dia. Para a SAA, a produção dos laticínios locais chegaria ao dobro. Neste caso, a questão central está menos relacionada à quantidade do que à negociação de preço entre as partes.
Pelas contas do secretário de Agropecuária e Abastecimento, Airdem Assis, existem hoje 750 propriedades rurais em atividade na cidade. Destas, cerca de 70% são voltadas à produção de leite. Os laticínios são cinco, de porte médio. Além do leite, voltado ao mercado regional, são produzidos derivados, como queijos frescal e minas, iogurte e manteiga. Os queijos finos são apontados como nicho de mercado. O secretário de Planejamento e Desenvolvimento Econômico, André Zuchi, destaca a preocupação em tirar os produtores da zona de conforto e estimular a competitividade no setor. Para ele, a possível chegada da Soros pode contribuir neste sentido. O ganho de qualidade, na sua opinião, deve ser uma consequência imediata.
Para o consultor do Polo de Excelência de Leite e Derivados, Miguel Simão Neto, mediante a dependência da produção de outras localidades, não há condições socioeconômicas de se aumentar a produção a níveis que permitam a participação de Juiz de Fora no atendimento à demanda esperada com a realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Brasil.
Na opinião de Miguel, a qualidade de leite e derivados precisa melhorar, principalmente em relação a aspectos como, por exemplo, contaminação bacteriana do leite. A IN 51 estabelece, exatamente, novos limites microbiológicos e de células somáticas ao alimento. Segundo o consultor, a maior parte dos produtores da cidade e região não está preparada para as exigências da normativa, tanto que houve a prorrogação da data de implantação da norma. Para ele, a IN 51 é um avanço na garantia de segurança sanitária para o consumidor.
Vocação
De acordo com o engenheiro agrônomo da Emater em Juiz de Fora, José Renato Santana, a vocação rural da região, inclusive cultural, é o leite, o principal produto explorado economicamente. José Renato explica que o comportamento dos preços pagos aos produtores costuma ditar os ciclos da atividade rural. No caso da pecuária leiteira, explica, é comum a migração para o gado de corte com relativa facilidade. Mais recentemente, identifica também a opção pelo reflorestamento com a cultura do eucalipto.
Para o engenheiro agrônomo, a remuneração insuficiente para que o produtor invista na atividade é uma das lacunas existentes hoje, assim como pouca disponibilidade e qualificação da mão-de-obra, envelhecimento da população rural e dificuldade de o agricultor familiar fazer sucessor que garanta a continuidade do negócio. Para reverter este quadro, José Renato aposta na continuidade de ações no sentido de preparar e qualificar o jovem rural para o desempenho da atividade, utilizar políticas públicas voltadas ao pequeno agricultor e estimular o associativismo.
Subsídio de R$ 0,03 por litro
Diante dos desafios impostos em termos de qualidade e volume de produção, o Pró-Leite, mantido pela SAA, passa por reformulação. O programa, da forma atual, encerra suas atividades em outubro e dá lugar à nova versão: o Pró-Leite II. Há quatro meses, começou o processo de transição. Segundo o secretário de Agropecuária e Abastecimento, Airdem Assis, a Prefeitura oferece R$ 0,03 por litro de leite à título de incentivo para a migração, com a condição de que sejam cumpridas metas de produtividade e qualidade. Até agora, 50 dos 320 associados migraram. A meta é fechar o ano com cem adesões.
De acordo com Airdem, o Pró-Leite II vai oferecer assistência técnica ao produtor. O programa vai seguir as diretrizes do Balde Cheio, da Federação da Agricultura e Pecuária de Minas Gerais. O trabalho consiste na adoção de técnicas simples de manejo de pastagem, controle zootécnico e gestão da propriedade para aumentar a produtividade, gerar lucro e melhorar a qualidade de vida no campo. Segundo o secretário, também haverá a implantação piloto de programa de qualidade em uma das dez associações cadastradas na Prefeitura. A iniciativa é desenvolvida em parceria com o Polo de Excelência de Leite e Derivados, de olho nas exigências da IN 51.
Sobrevivência
Quem não tiver qualidade não precisa nem tirar leite, sentencia o presidente da Associação dos Produtores Rurais, Domingos Frederico Netto. Na sua opinião, embora a implantação da instrução normativa tenha sido adiada, vai acontecer. Eles serão pagos por qualidade, não por quantidade. Além das ações do poder público, Domingos cita a vasta oferta de cursos de capacitação aos produtores.
Domingo comenta o problema do preço. Hoje o valor pago ao produtor é R$ 0,80 o litro, sendo que o preço considerado ideal estaria em torno de R$ 1. Segundo ele, mesmo na entressafra, não houve alta o suficiente para compensar a necessidade de suplementação alimentar para o gado, que encarece a produção. O presidente destaca o impacto da importação na baixa remuneração ao produtor e a dificuldade de exportar, em função da desvalorização do dólar frente ao Real. Para ele, o estímulo de R$ 0,03 concedido pela Prefeitura é importante, porque custeia o frete do leite da fazenda ao laticínio.
Congresso Nacional de Laticínios começa amanhã
Juiz de Fora sedia, a partir de amanhã, o maior evento brasileiro em difusão de tecnologia sobre leite e derivados: o Congresso Nacional de Laticínios, referência na América Latina como fórum de pesquisas e desenvolvimento de lácteos (ver quadro). O evento, organizado por Epamig/Instituto de Laticínios Cândido Tostes (ILCT), chega à sua 28ª edição, e promete reunir mais de 16 mil pessoas, entre pesquisadores, expositores, laticinistas e visitantes de várias partes do país e do mundo. O congresso acontece até o dia 14 e tem como tema central Qualificação: fator determinante para o sucesso do setor laticinista.
Para o chefe do Centro de Ensino do ILCT, Gerson Occhi, o assunto é atualíssimo. Se não houver qualificação, nunca vamos conquistar o mercado externo. Occhi destaca a Instrução Normativa 51/2002, que, apesar de adiada, entrará em vigor, exigindo ações concretas.
O professor do ILCT, Ítalo Tuler Perrone, chama a atenção para o aquecimento do mercado e a contrastante falta de qualificação dos profissionais. Temos dificuldade de encontrar mão de obra qualificada em todos os níveis, desde os que trabalham na produção até a gerência. Para Perrone, a discussão durante o congresso será enriquecida pela participação de representantes da indústria e da área acadêmica. A indústria apresenta as suas necessidades, e as instituições vão avaliar em que podem melhorar para ter mão de obra que atenda à demanda.
A expectativa é que a parte científica reúna cerca de 300 pessoas. Na programação, também estão a 39ª Exposição de Máquinas, Equipamentos, Embalagens e Insumos para a Indústria Laticinista (Expomaq), a 38ª Exposição de Produtos Lácteos (Expolac) e o 38º Concurso Nacional de Produtos Lácteos. Pelo terceiro ano consecutivo, a Embrapa Gado de Leite realiza o Fórum das Américas: leite e derivados, com workshops sobre pecuária e qualidade do leite. O Congresso Nacional de Laticínios será realizado no Expominas e no ILCT.
