
A engenheira Juliana Nogueira aproveitou a queda do dólar para fazer compras em Nova York
A desvalorização do dólar frente ao real tem causado prejuízos à economia local, já que dificulta o escoamento dos produtos brasileiros no exterior – que ficam mais caros – e acirra a concorrência dos itens nacionais com as mercadorias importadas, que chegam ao mercado com preços bem competitivos. Para os consumidores em geral, contudo, o momento tem sido de aproveitar as oportunidades proporcionadas pela queda da moeda norte-americana, que, na última sexta-feira, atingiu o valor de R$ 1,574, a menor cotação desde 4 de agosto de 2008. No ano, a queda acumulada é 5,41%, e na semana, a desvalorização chegou a 2,36%, mesmo com a edição, por parte do Governo, de medidas para controlar o câmbio, como a elevação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre a entrada de capital estrangeiro para 6% e a ampliação do prazo para empréstimo no exterior de um para dois anos.
Um dos setores que tem mais lucrado com a despencada do dólar é o de turismo. Segundo dados da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa), a venda de pacotes internacionais teve um crescimento de 25% no último trimestre. Além do dólar mais atrativo, fatores como estabilidade econômica, aumento do poder aquisitivo da classe C e maior oferta de voos foram os que mais influenciaram no aumento, conforme a Braztoa.
Na cidade, as agências comemoram o crescimento do número de pacotes fechados. De acordo com a proprietária da Picorelli Turismo, Andréa Mendes Ferreira, o crescimento na comercialização de viagens para o exterior foi de 20% nos três primeiros meses do ano. Ela informa que a maior procura é por pacotes na Europa, seguido dos Estados Unidos que estão com demanda crescente. "Nos feriados e períodos de férias a procura é maior. Mas, atualmente temos pessoas comprando para qualquer período do ano."
A proprietária da Fama Viagens, Fabiana Mendes, observa um número cada vez maior de pessoas viajando pela primeira vez ao exterior. "O dólar baixo e a ampliação do parcelamento nas operadoras estão criando um novo público." Segundo ela, há voos fretados com preço baixo. "Antes, o primeiro destino costumava ser para Buenos Aires. Agora, muita gente está fazendo a primeira viagem internacional para países da Europa e também para o Caribe."
Outro fenômeno que tem ocorrido a reboque da queda do dólar é o crescimento dos estudantes procurando intercâmbios no exterior. Na CI Intercâmbio, a consultora de viagens Carolina Alves Castro diz que o interesse por opções de estudo e trabalho em países como Estados Unidos, Canadá e Inglaterra cresceu 30% este ano. "É só o câmbio cair que a demanda aumenta. Tenho casos de estudantes que já estão adquirindo o pacote agora para aproveitar o preço do dólar e só vão viajar em abril do ano que vem", conta.
Quem aproveitou a queda do dólar para viajar para Nova York, nos Estados Unidos (EUA), foi a engenheira Juliana Nogueira da Silveira. Ela embarcou no final de novembro, com a moeda cotada a R$ 1,70, e não se preocupou com as compras no cartão de crédito. "Como o dólar estava em queda, não tive muito receio." No retorno, a mala veio cheia de eletrônicos, como notebooks, HD (hard disk) externo, pen drives, além de casacos, relógios, tênis e perfumes. "Os preços estavam muito bons e aproveitei. Ainda não tenho nada acertado, mas com o dólar a este preço pretendo voltar", adianta.
O valor mais baixo da moeda norte-americana também estimulou a funcionária pública Ana Paula Figueiredo Guedes a fazer sua primeira viagem ao exterior. Ela passou 17 dias na Europa e conheceu Inglaterra, França, Itália, Portugal e Espanha. Mesmo tendo usado o euro na maior parte dos destinos (na Inglaterra foi a libra), ela diz que o dólar mais baixo favoreceu a cotação das moedas. "As compras valeram muito a pena. No free shopping comprei produto com valor três vezes menor que no Brasil." A advogada Aline de Souza Alves escolheu o destino de suas férias com base na cotação do dólar. "Tínhamos um grupo grande e estávamos com dúvidas se iríamos para Maceió ou Argentina. A última opção acabou saindo mais em conta do que ficar no Brasil."
Procura por câmbio cresce até 6 vezes
Na última semana, o movimento foi intenso nas casas de câmbio, que registraram procura até quatro vezes maior que em dias normais. A supervisora da agência de câmbio Grupo Fitta, Lúcia Santos, diz que o volume comercializado diariamente gira entre US$ 5 mil e US$ 8 mil. Na última sexta-feira, segundo ela, chegou a US$ 30 mil. "Foi o maior volume de vendas desde que abrimos."
Conforme Lúcia, pessoas que vão viajar para o exterior e estão antecipando a compra são maioria na agência. "Quando o dólar cai, a procura sempre cresce. Mas agora estamos vendo clientes comprarem com maior antecedência para aproveitar o câmbio favorável."
Na Renova Câmbio, a operadora Norma Corrêa também observa crescimento, que chegou a 50% na semana. "A sexta-feira foi o melhor dia dos últimos três meses." No entanto, ela não registra a demanda de interessados em fazer investimento.
O economista Cid Botelho recomenda a compra de dólar somente em situações em que a pessoa irá fazer viagens ao exterior ou adquirir produtos importados. "Se o dólar subir na época da viagem ou da compra, o consumidor estará protegido e não pagará mais. Comprar dólares como investimento pode trazer bons retornos quando o dólar subir. Mas, no momento, as pressões são de queda. Isso só poderá ser revertido no médio prazo, quando a política monetária dos EUA for alterada."
Botelho também recomenda atenção no momento da compra no exterior, diante das novas regras editadas pelo Ministério da Fazenda. "Se comprar no cartão de crédito, o imposto será de 6% sobre o valor. Mas se usar cartão pré-pago ou travellers cheques, ou mesmo levar a moeda em espécie, o turista ficará livre desse imposto."
Queda não atinge todos os importados
A redução da cotação da moeda norte-americana chegou a 10,28% na comparação com abril do ano passado. Na prateleiras, porém, a queda não veio na mesma proporção em alguns importados. Produtos como vinhos e perfumaria não tiveram reduções expressivas. Segundo o diretor da loja de bebidas Garrafaria, Renato Coelho, os vinhos argentinos, inclusive, registraram aumento nos últimos meses. "Os importadores alegam que a queda vem muito tardiamente, pois eles contam com grande volume de bebidas em estoque."
Na perfumaria Essenciale, os preços também não sofreram alteração, de acordo com o vendedor Maxsiel Fidélis. "Um ou outro perfume teve redução, mas ocorreu mais por conta de promoções. As distribuidoras não repassaram queda de preços para nós."
Já no setor supermercadista e lojas de informática o reflexo da baixa da moeda norte-americana foi mais expressivo. O gerente de marketing do Bahamas, Nelson Júnior, esclarece que a rede verificou redução sobretudo no bacalhau, vinhos e frutas cristalizadas. "O quilo do bacalhau saithe que, no ano passado, nessa mesma época, saía a R$ 21,90 na promoção, hoje está custando R$ 17,90 (redução de 18%)." Na Ipasoft, o diretor, Bruno Schettino, diz que a redução girou entre 10% e 20% nos valores dos itens comercializados. "Como a obsolescência no setor de informática é alto, não temos muitos produtos que podemos comparar com o ano passado." Porém, de acordo com ele, notebooks, componentes, projetores, produtos de rede e GPSs foram os que sofreram maior queda.
Na web
Outra opção que vem sendo adotada cada vez com mais frequência pelos juiz-foranos são as compras em sites do exterior. Com oferta de frete grátis em algumas modalidades e possibilidade de pagamento por meio da ferramenta Pay Pal (que cobra do usuário a cotação do dólar na data da compra), esta modalidade já é aprovada por 42% dos brasileiros, segundo levantamento da consultoria comScore, divulgado em dezembro do ano passado. Conforme regras da Receita Federal, as compras estão limitadas a US$ 3 mil e estão sujeitas a tributação de até 60%. Aquisições de valor inferior a US$ 50 podem ser isentas, desde que sejam transportadas pelo serviço postal e que remetente e destinatário sejam pessoas físicas.
O empresário Thiago Valério é um dos que aproveita a queda da moeda para fazer compras nesses sites. Ele costuma adquirir camisas nos Estados Unidos e acessórios para computador e videogame na China. "Compro blusas que, com o frete, saem a R$ 20. Aqui, encontraria por, pelo menos, R$ 50." Em relação aos eletrônicos, Thiago também vê vantagens. "Comprei um cartão de memória de 8gb em um site de Hong Kong por R$ 35. Nas lojas daqui, sai na faixa de R$ 80."

