
Emerson adverte que inadimplência compromete saúde financeira do comércio (Felipe Couri/Arquivo Tm)
A matemática é (relativamente) simples e comprova que a conta não fecha. Em tempos de economia recessiva, inflação fora da meta, juros elevados, desemprego crescente e dinheiro escasso e caro, poucos são os que conseguem manter o pagamento de todos os compromissos em dia. Embora a dificuldade seja percebida na maioria dos setores, só em impostos e serviços públicos, como água, luz e IPTU, o saldo devedor chega perto de R$ 30 milhões na cidade. O balanço foi feito pela Tribuna, e as cifras referem-se a pendências deste ano.
A Cemig, por exemplo, identificou aumento do índice de clientes em débito este ano, que passou de 3,10% em janeiro para 3,45% em agosto. Na avaliação da companhia, a alta pode estar relacionada “ao período de assimilação, pelo consumidor, dos significativos aumentos tarifários ocorridos”. Em Juiz de Fora, o percentual de arrecadação apresentou queda de 2,64% nos últimos 12 meses. No acumulado do ano até agosto, o crescimento da inadimplência foi, aproximadamente, R$ 500 mil superior à média do mesmo período de 2014.
A companhia utiliza diversas ferramentas de cobrança para evitar o aumento do débito. Entre as medidas estão contatos telefônicos, envio de e-mail, SMS, carta e, em último caso, aviso sobre a possibilidade de inscrição do CPF do titular no serviço de proteção ao crédito, tendo o cliente prazo de dez dias para regularizar a situação. Persistindo a inadimplência, há a suspensão do fornecimento. “É possível ainda parcelar a dívida existente de acordo com as condições oferecidas pela empresa”, informa a assessoria da empresa.
Em relação aos impostos municipais, a situação não é muito diferente. A Prefeitura informa que a inadimplência do IPTU, que orbitava entre 12% e 13% em 2013 e 2014, subiu para 15% este ano, totalizando cerca de R$ 21,6 milhões a receber. O balanço refere-se ao período de janeiro a setembro. Para o subsecretário de Receita, Roland Barcelos, a alta pode estar associada ao momento econômico. Uma hipótese é que o acerto do imposto, em alguns casos, tem sido preterido ante o de outras contas. A intenção é reduzir este percentual até o final do ano com a cobrança administrativa, antes da inscrição do débito em dívida ativa. A omissão em relação ao ISS não foi divulgada.
Já a Cesama, apesar de não ter identificado aumento da inadimplência em 2015 – 7,53% no acumulado do ano até agosto contra 7,63% no mesmo período do ano passado – acumula saldo a receber de R$ 7,3 milhões só este ano. A companhia, inclusive, criou programa de anistia próprio, oferecendo isenção de juros e multas para o acerto à vista ou parcelado – de acordo com o perfil da dívida. “A Cesama acredita que este número acaba sendo estável pelo fato de a água ser um bem fundamental para o ser humano, na grande maioria de suas atividades diárias.” Mesmo não sendo negativado, o inadimplente tem o abastecimento interrompido após 52 dias de atraso. A medida é uma forma de “evitar que as contas se acumulem, perfazendo um valor total mais alto que, em alguns casos, possa dificultar o pagamento”.
Valor médio dos débitos vai de R$ 445 a R$ 1.882
A dificuldade de cumprir os compromissos em dia no país aumentou 16,9% no período de janeiro a agosto deste ano ante igual período de 2014. O percentual foi mapeado pelo Indicador Serasa Experian de Inadimplência do Consumidor. Segundo os economistas do órgão, a alta é atribuída ao “cenário econômico bastante adverso à quitação das dívidas do consumidor”. A Serasa identifica tendência de crescimento das taxas ao longo do ano, exigindo ainda mais cautela por parte do consumidor.
Entre as dívidas, a não bancária é o principal motivo de dor de cabeça (46,9%), seguida, de perto, pelo débito junto a bancos (45,9%), cheque sem fundos (5,5%) e título protestado (1,7%). O valor médio da dívida não bancária subiu 22,5% este ano, de R$ 363,17 para R$ 445,02. No caso dos cheques, o aumento foi de 9,7%, indo de R$ 1.715,50 para R$ 1.882,47. Os débitos junto a bancos subiram 1,4%, de R$ 1.265,15 para R$ 1.282,87. Na contramão, o valor dos títulos protestados caiu 2,9%, de R$ 1.428,39 para R$ 1.387,24, considerando sempre o intervalo de janeiro a agosto ante o igual período de 2014.
Compromissos assumidos além da conta
O presidente do Sindicato do Comércio (Sindicomércio), Emerson Beloti, que foi diretor do SPC por quatro anos, avalia que 90% de quem está negativado não gostaria de estar nessa situação. “As pessoas só deixam acontecer quando não têm outra alternativa.” Para Beloti, entre as causas para este quadro estão: compromissos assumidos além da capacidade e descontrole nas finanças. “As pessoas compram a prazo e vão se esquecendo do montante da dívida. Com isso, o valor da fatura do cartão ultrapassa o que se gostaria e poderia pagar.” Uma das bandeiras do setor, aliás, é a redução dos juros do cartão de crédito, que hoje ultrapassa a marca de 400% ao ano. Para Emerson, a inadimplência no comércio impacta as vendas e compromete a saúde financeira dos negócios. “A empresa começa a se atrapalhar e a ter problemas com a sua adimplência junto aos fornecedores.”
A Câmara de Dirigentes Lojistas de Juiz de Fora (CDL/JF) não divulgou o número de negativados na cidade, mas afirmou que houve queda de 7,14% nas inclusões de devedores no período de janeiro a setembro de 2015 em comparação com igual período de 2014. Em março, no último balanço divulgado pelo órgão à Tribuna, havia sido contabilizada alta de 2,9% na inadimplência ante março de 2014. Uma das justificativas para a queda pode ser a constatação de que 80% das vendas no comércio hoje são realizadas via cartão de crédito e apenas 20% mediante análise do SPC. A análise é do Sindicomércio.
Professora orienta repensar hábitos
A professora do Departamento de Economia Doméstica da Universidade Federal de Viçosa (UFV) Neuza Maria da Silva observa que o risco de inadimplência aumenta em um cenário caracterizado por aumento de desemprego, inflação e perda do poder aquisitivo. “Isso tudo obriga a pessoa a deixar de pagar algumas contas básicas.” A professora pondera, no entanto, que outros motivos, como psicológicos e sociais, podem levar à dificuldade de cumprir compromissos financeiros. “São circunstâncias da vida, como separação e doença em família, que desequilibram as finanças.”
Na impossibilidade de quitar todas as pendências, a especialista recomenda reduzir os gastos das chamadas despesas flexíveis, como lazer, supérfluos com alimentação e vestuário. Priorizar as contas com maior incidência de juros e renegociar dívidas também são medidas importantes. Conforme orienta, quem não está inadimplente, mas percebeu a situação financeira mais apertada, deve repensar os hábitos de consumo, para evitar problemas maiores no orçamento.

