O preço dos hortifrutigranjeiros já subiu entre 30% e 40% nas últimas duas semanas, e a oferta chegou a cair 30% em função das chuvas que assolaram municípios da Zona da Mata, cuja produção abastece a mesa do juiz-forano. Esta é a avaliação da Associação dos Produtores da Ceasa Juiz de Fora, que espera para 90 dias impacto ainda maior no custo e na qualidade dos alimentos, em função da dificuldade de reiniciar a produção, com as áreas de cultivo inacessíveis, inundadas ou comprometidas.
No Mercado Livre do Produtor, onde produtores da região vendem alimentos para compradores da cidade, região e outros estados, a preocupação era uníssona. O produtor José Rubens, de Tocantins, dedica-se ao cultivo de frutas, verduras e legumes, afetado pelo excesso de chuvas. Rubens comenta que só conseguiu trazer para Juiz de Fora duas das cinco caixas de berinjela comercializadas por semana. A escassez impactou outro itens, como as folhas e o jiló, refletindo diretamente nos preços, reajustados entre 20% a 30%. Apesar de a enchente não ter afetado a área produtiva, Rubens avalia que o excesso de água compromete a produção. "Quem colhe cem caixas não conseguiu tirar 20 esta semana", dimensiona.
De Guidoval, o produtor Agostinho Gonçalves do Amaral também estima entre 20% e 30% a majoração nos preços já praticada. Ele produz cebolas e mangas. No primeiro caso, não houve comprometimento, já que o produto já havia sido colhido e estava armazenado. O impacto na produção de manga, no entanto, é considerado incomensurável. Segundo Agostinho, a destruição de pontes naquele município impediu o acesso à área de cultivo. O atravessador Márcio Pereira Pinho comercializa mangas de Guidoval. Ontem ainda conseguiu trazer 200 caixas para Juiz de Fora, mas não sabe se conseguirá encher uma sequer na próxima semana. "Não temos acesso ao produto, porque a estrada está sem ponte."
O presidente da Associação de Produtores da Ceasa Juiz de Fora, Élcio Miguel Ferreira, afirma que toda a produção da região foi afetada de alguma forma. O excesso de água, avalia, prejudica os hortifrutis, sensíveis a fatores climáticos. A perda em qualidade e a elevação do custo são considerados inevitáveis. Para ele, a alta de até 40% nos preços e a escassez em até 30% na oferta já verificadas podem se agravar nos próximos três meses. Ferreira, que é de Barbacena, comenta que a cidade não foi atingida pelas enxurradas, mas as chuvas intensas reduziram a quantidade disponível ao mercado. No seu caso, os volumes, que variam de 600 a 800 caixas, ficaram restritos a 300 esta semana.
O presidente da Associação dos Compradores de Hortifrutigranjeiros, Carlyle Lopes Barros, teve dificuldade para abastecer o seu box no Mercado Municipal ontem. Ele identificou falta de abobrinha e perda de qualidade em vários itens, como tomate, jiló e folhas. Também pagou mais caro pelos hortifrutis. Segundo Carlyle, em alguns produtos, o preço chegou a dobrar, como é o caso do tomate. A caixa, na quinta-feira passada, era vendida a R$ 30. Ontem, chegou a R$ 60. Na banca, o quilo subiu 28%, de R$ 3,59 para R$ 4,59 na venda ao consumidor. No caso do chuchu, o preço da caixa comprada dos produtores mais do que dobrou, passando de R$ 12 para R$ 25. A alta nas gôndolas foi de 74%, passando de R$ 1,49 para R$ 2,59 o quilo. O alface também não escapou da majoração. A caixa que antes era encontrada a R$ 7 subiu para R$ 9, alta 28%. No box, o preço foi reajustado de R$ 1 para R$ 1,50.
A empresária Denise Jordão foi às compras ontem para abastecer o seu restaurante self-service. Ela, que adquire hortifrutigranjeiros semanalmente, surpreendeu-se com a alta no valor e a dificuldade de escolher produtos de boa qualidade. Denise citou os aumentos de tomate e alface, e a necessidade de rever o cardápio diante da nova realidade destes alimentos. "Está difícil fazer compras."
Desabastecimento
Para Carlyle, a cidade pode amargar a falta de alguns produtos, como as mangas vindas de Guidoval. O risco de desabastecimento, no entanto, é descartado pelo chefe do Departamento Técnico da Ceasa, Wilson Guide. Ele avalia que, historicamente, este período não favorece a horticultura mineira. Além das chuvas quase ininterruptas, Guide destaca temperaturas altas e condições climáticas e meteorológicas não favoráveis à cultura. "Isso reflete no final da ponta, na mesa do consumidor, que tem um produto com padrão de qualidade mais baixo e preço mais elevado." Para Guide, esta condição deve permanecer até meados de maio, quando as chuvas começam a ficar mais escassas e a temperatura começa a cair. "Ai sim, a qualidade tende a voltar, e o preço chegar a um patamar normal de novo."
De acordo com ele, entre novembro e dezembro, houve alta de 4,5% no custo dos hortifrutis na venda para atacado. "Não está fora do esperado para essa época do ano." Entre os produtos que apresentaram maior alta no período estão abobrinha italiana (63%), quiabo (30%), jiló (29%), banana prata (31%), vagem (18%), além de alface e beterraba (12%). Entre os itens que apresentaram queda estão limão taiti (-67%), repolho (-36%) e abacaxi (- 15%).
