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Economia desaquecida impacta Juiz de Fora

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A economia nacional está desaquecida. A confiança do consumidor caiu, a inflação, no acumulado dos últimos 12 meses já superou o previsto para o ano, os juros seguem em alta, o endividamento dos brasileiros bate recorde e a desindustrialização é uma ameaça real, enquanto o dólar valoriza-se a cada novo pregão. Diante dos muitos indicadores negativos, especialistas concordam com a piora do cenário, mas afastam, por enquanto, o risco de recessão. Discussões teóricas à parte, fato é que a população tem sentido, no bolso, os impactos práticos do cenário macroeconômico desfavorável. Não podemos dissociar os movimentos econômicos locais da conjuntura nacional. Não tenho dados locais, mas, provavelmente, seguimos a linha de desaquecimento verificada no país, considera o economista Cid Botelho, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

Mesmo que não saiba que a perspectiva de inflação para este ano (5,75%) já fugiu do centro da meta (4,5%), mas, provavelmente, ficará abaixo do teto estipulado pelo Governo federal (6,5%), o juiz-forano já percebeu que os alimentos e os serviços subiram – e muito. Os brasileiros, aliás, estão especialmente pessimistas com a evolução dos preços nos próximos seis meses, atesta pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgada esta semana. No caso de serviços, estamos ficando mais próximos de países desenvolvidos, onde comprar bens é barato, mas contratar serviços é caríssimo. Isso vale desde um corte de cabelo até serviços médicos, e é uma questão estrutural, que veio para ficar, avalia Cid Botelho. Outro efeito danoso da inflação é o impacto na renda real. O poder de compra de grande parte da população caiu. Infelizmente, a inflação tem esse efeito.

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Alimentos

Sobre o comportamento dos alimentos, o doutor em economia aplicada pela USP, Paulo do Carmo Martins, professor da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis da UFJF e pesquisador da Embrapa, identifica deflação. Ele destaca o Índice de Preços ao Consumidor Amplo – 15 (IPCA-15), divulgado semana passada. Apesar do aumento de 3,52% no acumulado do ano até julho ser maior ante o do mesmo período do ano anterior (2,91%), os grupos de alimentos e bebidas apresentaram queda nos últimos meses – passando de 0,27% em junho para -0,18% em julho. Apesar de alguns produtos estarem em alta, como o leite, as contas são compensadas por outros itens. Conforme o IBGE, houve queda generalizada entre os alimentos, liderada pelo famoso tomate, que ficou 16,78% mais barato no mês. Paulo analisa que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que é medida oficial da inflação, vem caindo desde janeiro. O resultado do primeiro semestre ficou em torno de 3%. Neste segundo semestre, o acumulado vai ficar em torno de 2%, é a minha previsão.

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Elevações na Selic devem frear consumo

Com o objetivo de distanciar a inflação do teto e aproximá-la do centro da meta, um dos instrumentos usados pelo Banco Central para influenciar a atividade econômica é a taxa básica de juros. A perspectiva do mercado financeiro é que a Selic feche o ano em 9,25%, podendo chegar a 9,50%. Hoje, ela está em 8,5%. Para Paulo do Carmo Martins, elevar a taxa de juros significa dificultar a antecipação do consumo, já que as compras no longo prazo ficam mais caras. Sobre esse aspecto é bom que uma retração no consumo ocorra evitando que haja uma pressão sob a disponibilidade de bens, explica.

A escalada do dólar, que esta semana atingiu R$ 2,30, o maior nível desde março de 2009, deve atingir uma série de produtos, já que as matérias-primas são cotadas na moeda americana, explica Cid. O trigo, por exemplo, deve impactar o preço de derivados, como biscoito, macarrão e pão. A expectativa é de que a classe média, que viaja para o exterior, sinta o impacto de forma mais intensa. Conforme o economista, a tendência é de curva ascendente. Dificilmente voltaremos aos R$ 2 do início do ano. O mais provável é flertarmos com R$ 2,40. Na sexta-feira, a moeda encerrou o dia cotada em R$ 2,27.

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Emprego

A projeção de crescimento da economia brasileira, mensurada pelo Produto Interno Bruto (PIB), foi revista e reduzida pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, e hoje varia entre 2,5% e 3% . O intervalo está acima do crescimento do PIB do ano anterior (0,9%) e dos 2,28% previstos pelo Banco Central para 2013. O desempenho reflete diretamente nos postos de trabalho. O menor crescimento significa menor geração de emprego, compara Cid. Conforme o economista, o mercado ainda está relativamente aquecido. Entretanto, se o crescimento fraco perdurar, pode resultar em índice de desemprego mais alto. Em junho, o índice de desemprego no país ficou em 6%, o maior nível em 14 meses. Paulo do Carmo aposta na manutenção do percentual em até 7% este ano, o que não é considerado um desempenho ruim. Para o professor, mais preocupante é a carência de mão de obra, que segura o crescimento da nossa economia.

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O diretor de Economia da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), Roberto Vertamatti, vê com preocupação a situação brasileira. Devemos caminhar para o final deste ano com mais dificuldades de geração de empregos. Os orçamentos familiares vão continuar pressionados pelas dívidas assumidas.

Outra preocupação é a valorização do dólar. Se, por um lado, ajuda nas exportações, por outro pressiona os preços. No momento, a pressão inflacionária está dando sinais de queda, mas, em função do dólar e do clima, pode mudar novamente de rumo – é um risco alto e pode acontecer. Na sua opinião, a indústria sofre e vai continuar assim, com crescimento baixo e perspectivas não muito animadoras em função de carga tributária, burocracia e falta de política industrial.

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Setores produtivos perdem ritmo na cidade

A tendência de desindustrialização – crescimento pouco expressivo ou até negativo da indústria – deve persistir no segundo semestre, embora o período seja, tradicionalmente, de aquecimento, em função das perspectivas de vendas para o final do ano, avalia Paulo do Carmo Martins. Segundo dados do IBGE, a produção industrial cresceu 1,9% no ano (até junho). O Index Regional, pesquisa realizada pela Fiemg dos indicadores industriais da Zona da Mata, apontou que o faturamento real do setor caiu 6,63% na região em maio deste ano (dado mais recente) ante o mesmo mês de 2012. Na análise do acumulado do ano, a retração é de 0,16% em relação ao mesmo período do ano anterior. As horas trabalhadas também diminuíram 2,70% na comparação maio-maio. Em contrapartida, a massa salarial real cresceu 5,49%, assim como o emprego, 1,66%, entre janeiro e maio deste ano ante o mesmo período de 2012. Na análise maio-maio também houve alta de 4,02% e 2,46%, respectivamente. A utilização da capacidade instalada nos cinco primeiros meses do ano (86%) apresentou leve alta na comparação com o mesmo período de 2012 (85,88%).

O presidente da Fiemg Regional Zona da Mata, Francisco Campolina, avalia com cuidado os dados do Index, por ser uma pesquisa que não necessariamente é opinião da maioria. Segundo ele, o faturamento está caindo, o que não acontece com a produtividade e a empregabilidade. Uma justificativa para este quadro é que as indústrias estariam com estoque alto ou guardando mercadoria para uma temporada de vendas melhor. Não existe desindustrialização na nossa região, garante. Prova disso, alega, é a utilização da capacidade instalada, que, segundo ele, está acima de 85% na região. Não há empresa fechando, nem entrando em concordata. O presidente destaca, ainda, o investimento da iniciativa privada, estimado em R$ 2,65 bilhões na Zona da Mata, com a chegada de novas empresas, cuja operação plena é esperada para 2014.

Comércio

No comércio, o desempenho do primeiro semestre foi negativo, avalia o presidente do Sindicato do Comércio (Sindicomércio), Emerson Beloti. Sem citar números, ele explica que, com exceção de segmentos pontuais, o setor não teve um bom resultado. Essa oscilação da economia influi no comércio, reconhece. Uma das preocupações com a instabilidade econômica é em relação ao possível desestímulo para as compras a prazo, em função, especialmente, da alta dos juros. A modalidade de negócio concentra entre 60% e 70% dos negócios. Não vendendo a prazo, não haverá faturamento adequado para continuar contratando. Os negócios dão uma paralisada.

Modelo econômico exige reformas, aponta Anefac

Para o diretor de Economia da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), Roberto Vertamatti, o modelo econômico brasileiro está superado. Se o investimento não aumentar, o Brasil vai continuar andando de lado daqui por diante. O especialista defende reformas postergadas, como a simplificação do sistema tributário, as reformas política e previdenciária, a redução do gasto público e a desburocratização. Sem elas, temos o risco de retrocesso econômico. Vertamatti garante que o crescimento deste ano está comprometido, assim como os de 2014 e 2015.

Para o economista Cid Botelho, o cenário macroeconômico este ano, até agora, é ruim. Desaceleração da China e estagnação da Europa contribuem para um cenário internacional desfavorável. A lenta recuperação dos Estados Unidos não é, por enquanto, um contrapeso adequado. No âmbito interno, IPCA próximo ao limite superior da meta de inflação leva o BC a elevar os juros. O crescimento será baixo, embora um pouco melhor que em 2012.

Na sua opinião, no entanto, o pior já passou. A inflação deve arrefecer, e os juros, embora ainda em elevação nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom), devem ficar abaixo de 10%. O mercado projeta 9,5%. É alto para os padrões internacionais, mas há dez anos estavam em 25%. Para Cid, os incentivos aos investimentos em infraestrutura vão começar a surtir efeito.

Paulo do Carmo Martins avalia que o desaquecimento econômico não é uma particularidade brasileira, já que até os países desenvolvidos não têm conseguido reagir a estímulos e crescer de forma sustentável. A primeira observação é que já tivermos dias melhores em anos anteriores. Não significa dizer que estamos caminhando para o abismo. Longe disso. Com uma visão reconhecidamente otimista de todo o processo, o professor identifica que o primeiro semestre não foi bom, mas visualiza uma recuperação e aposta que o segundo tende a ser melhor, em função de fatores, como fim dos estoques, encomendas para o final do ano e injeção do 13º salário.

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