Eles são pequenos artesãos e têm ateliês improvisados dentro de casa. Por meio da internet, os produtos criados em Juiz de Fora estão ganhando visibilidade e rompendo barreiras geográficas no país e no exterior. Consumidores de países, como Estados Unidos, Itália, França, Alemanha, Peru, Grécia e Japão já compraram e – ao que parece – gostaram do artesanato juiz-forano. A maioria dos produtores concilia o ofício com outra atividade, mas há quem faça desta a única fonte de subsistência. A criatividade e a habilidade manual os aproxima, embora cada um trabalhe por conta própria, produzindo de acordo com a sua aptidão.
A jornalista Liliane Turolla, 27 anos, produz acessórios e itens de decoração sob encomenda e já exportou almofadas personalizadas (o carro-chefe) para Grécia e Japão. A ideia surgiu há dois anos, por "necessidade própria". Ela sempre gostou de animais e queria produtos com o perfil pet, raros no mercado. Liliane criou os itens para a sua casa e começou a divulgá-los pela internet. Lançando mão de sites especializados em venda de artesanato, mídias sociais e boca a boca, Liliane tem conquistado clientela. Tanto que a renda obtida com as vendas on line já supera a do jornalismo. "A internet é uma boa ferramenta para mim, que não tenho interesse em abrir uma loja."
Segundo Liliane, seus produtos são adquiridos principalmente por clientes entre 18 e 35 anos, que compram pelo computador pela facilidade e falta de tempo de frequentar lojas físicas. Os mais velhos também aderiram, mas preferem estabelecer contato mais estreito com o vendedor, mesmo que por e-mail. A conquista de confiança foi devagar, avalia, a partir do cumprimento de prazos e da comprovação da qualidade do produto.
No caso da artesã Maria Aparecida Carvalho Lourenço, 50, que produz material pedagógico, são os fantoches juiz-foranos que ganham mercados. Ela já atendeu pedidos de clientes de Estados Unidos, Itália e Peru, que visitaram o site da Associação de Artesãos de São Mateus. Além da página na internet, Cida, como é conhecida, divulga seu trabalho em blogs e redes sociais. Ela desenvolve a atividade há 15 anos. Nos últimos seis, usa a rede como aliada. "As vendas cresceram, pelo menos, 60%." Apesar da pouca afinidade com o computador, Cida tem se esforçado para aprender, por reconhecer a importância da internet como vitrine para a sua arte. "Vivo do artesanato e trabalho de 12 a 16 horas por dia."
Conciliando a profissão de professora com o ofício de artesã, Silvânia de Souza Andrade, 40, vende artigos em biscuit principalmente para Rio de Janeiro e São Paulo, mas contabiliza pedidos de clientes país afora. No início, expunha os produtos em uma loja, distribuía cartões e postava imagens em um fotolog, ações que não trouxeram muito resultado. Hoje, mantém uma loja virtual em um dos principais sites especializados em venda de artesanato do país. "Cerca de 90% dos meus pedidos são feitos pela internet." Silvânia também colocou anúncio em outras páginas, que atraíram a atenção inclusive de consumidores da própria cidade. "Para o negócio dar certo, trabalho, desde o início, transmitindo segurança em relação a qualidade e prazos. Nunca deixo de responder um e-mail."
Produção incrementa renda doméstica
Segundo a presidente da Associação de Artesãos de São Mateus, Maria Ivany Gomes da Silva, existem hoje mais de 40 profissionais associados em Juiz de Fora. A oferta de produtos é vasta, de artigos de uso pessoal a itens para a casa, produzidos a partir de técnicas variadas, como tricô, crochê, pintura, reciclagem e colagem. Segundo Ivany, o ofício representa importante complemento de renda para a maioria, sendo, por vezes, a única ocupação para quem não consegue emprego no mercado formal. A rotatividade no ramo é considerada elevada. "Alguns acham que vão ficar ricos e, logo depois, abandonam o artesanato." O trabalho dos associados é exposto na feira em São Mateus, realizada aos sábados, e em eventos na cidade e região. O uso da internet pela entidade, comenta, foi implementado há pouco mais de dez anos e ampliou os horizontes, levando a arte juiz-forana a consumidores com sotaque francês e alemão. "É impressionante o alcance."
Os artesãos Eugênio Cássio Pereira Dutra e Edson Alexandre dos Reis Santos fazem parte da associação e desenvolvem trabalhos distintos: Eugênio produz cartões com a técnica japonesa kirigami e Edinho, como é conhecido, comercializa quadros usando madeira de demolição como matéria-prima. O primeiro é design gráfico, e o segundo, músico. Ambos conciliam o artesanato com suas profissões e são exceções em um universo prioritariamente feminino.
Eugênio começou a produzir os cartões há cerca de três anos e divulga sua criação na feira e em estabelecimentos comerciais. "Não estou usando a internet por enquanto, mas pretendo mais para frente." Para o artesão, o uso da rede requer investimento que ele, no momento, não poderia arcar. Na sua definição, o artesanato é um hobby, que ajuda no incremento da renda. Edinho também trabalha no ramo há três anos. Quando vende seu produto, aproveita para divulgar sua arte. "Eu gostaria de usar a internet, mas não tenho computador, nem internet em casa, o que dificulta um pouco." Além de expor na Praça de São Mateus, ele também visita a casa de potencial clientes. Os dois reconhecem que os resultados poderiam ser otimizados, com a ajuda da vitrine on line.
Sebrae: atividade é intensa, mas falta integração
Na falta de dados para dimensionar quantos são e o quanto movimentam, o gerente regional do Sebrae Macro Leste, João Roberto Marques Lobo, avalia que o artesanato é uma atividade intensa na região, mas sem identidade que possibilite melhor exposição no mercado. O gerente sente falta de integração entre os profissionais, permitindo-os buscar soluções coletivas que os beneficiem. "Caso isto acontecesse, haveria maior troca de experiências e técnicas que poderiam ampliar a confecção de produtos diferenciados e com maior qualidade."
Para João Roberto, a internet pode contribuir para a ampliação de mercado, principalmente quando as empresas encontram-se em estágio mais avançado de gestão dos negócios. Ele enumera fatores "críticos" no uso da rede como canal de vendas, como a logística de entrega e a padronização da oferta. Segundo o gerente regional, grande parte dos profissionais juiz-foranos deste segmento ainda não registrou suas empresas. Além da formalização, destaca também a necessidade de maior governança e união dos empresários para conquistar a competitividade já verificada em outras cidades mineiras.
O associativismo é considerado positivo não só nas vendas, como em todo processo produtivo. "É fator crucial para a competitividade das pequenas empresas do setor." Para João Roberto, é possível explorar a atividade dentro da economia criativa. Antes, porém, é preciso aumentar o patamar de produção e delinear a identidade do artesanato juiz-forano.
Economia criativa
A especialista em Economia Criativa, Desenvolvimento Sustentável e Futuros, Lala Deheinzelin, explica que economia criativa baseia-se em matéria-prima não tangível, como conhecimento, criatividade, cultura e experiência, enquanto a economia tradicional se constrói a partir do material. "Se há um grupo de artesãos que sabe fazer um trançado único, isso é a reserva de valor. O ponto de partida. Será economia criativa quando houver todo um processo conjunto com outras áreas, como comercialização, comunicação e design. Uma cadeia produtiva capaz de gerar riqueza e qualidade de vida." A regra vale do desenvolvimento de um negócio ou produto à gestão pública, explica, sempre tendo como meta a sustentabilidade.
