No momento em que o Governo federal inicia o processo de implantação da tecnologia 4G, as atenções se voltam, mais uma vez, para a qualidade do serviço 3G oferecido no país e, especialmente, em Juiz de Fora. A expectativa por acesso mais eficaz à internet em qualquer lugar se mistura à desconfiança de quem já se frustrou por ter esperado que tal facilidade chegaria com a terceira geração de telefonia móvel. Dois anos e meio após a liberação do sinal 3G, usuários juiz-foranos ainda enfrentam problemas para manterem-se conectados, mas encantam-se com a promessa de transferência de dados até dez vezes mais rápida e a possibilidade de assistir vídeos em alta definição nas telas de celulares e tablets (ver quadro). A previsão é que a 4G esteja operando em Juiz de Fora até o fim de 2013 – caso a cidade seja confirmada como subsede da Copa do Mundo de 2014 – ou maio do ano seguinte.
Há cerca de 20 dias, as frequências para oferta de 4G foram leiloadas pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Diferente do que ocorre nos Estados Unidos e na maior parte da Europa, onde é utilizada a frequência 700 Mhz (mega-hertz), o Brasil utilizará a faixa 2,5 GHz (giga-hertz). O problema começa aí. Segundo o especialista e professor de sistemas móveis do curso de engenharia de telecomunicações do Centro de Ensino Superior (CES) de Juiz de Fora (CES-JF), Almir Gonçalves Pereira, "o uso de faixas mais altas impõe dificuldades à distribuição dos sinais, que são mais facilmente bloqueados por paredes".
Conexão instável
As áreas de sombra para sinal 3G em Juiz de Fora ainda são muitas e, embora eliminá-las seja impossível, segundo o professor, a aposta em uma tecnologia que pode ter sua entrada em garagens, shoppings, galerias e prédios cercados por outras edificações barrada com ainda mais facilidade que a atual assusta. O problema já atrapalha quem optou pela 3G para lazer e, principalmente, trabalho. O jornalista Basileu Rodrigo Tavares, 25 anos, diz ter dificuldades em acessar a internet pelo celular em locais fechados e mais distantes do Centro da cidade. Mesmo onde consegue conectar o aparelho à rede, ele diz não poder confiar na estabilidade da conexão. "Ora está com sinal 3G, que possui boa velocidade, ora o sinal passa a ser GSM, com velocidade incompatível com a atual web 2.0. Isso tudo no mesmo local, sem precisar se locomover para que isso aconteça", conta. Ao reclamar com a operadora, foi informado que a tecnologia ainda está em fase de implantação.
A assessora de comunicação Fabiana Furtado, 28, também critica a lentidão e oscilação do sinal 3G que recebe pelo celular. "Na minha casa (na Rua Santo Antônio) e no meu trabalho, no Cascatinha, a conexão é muito lenta", diz, lembrando que na Zona Rural, onde passa alguns finais de semana, não há qualquer vestígio de conexão. Há cerca de um ano e meio, ela havia decidido utilizar a 3G também via modem, mas, depois de duas tentativas com operadoras diferentes, cancelou o serviço. "Nunca funcionou." A experiência deixou Fabiana desconfiada quanto à chegada da 4G. "Espero que a nova tecnologia cumpra a promessa de conexão rápida e qualidade de imagem, pois será um grande avanço. Mas não vou fazer a troca imediata de plano."
Já Basileu está animado com a chegada da quarta geração, mas acredita que Juiz de Fora, mais uma vez, não alcançará a qualidade do serviço oferecido em outras cidades e capitais. "Penso que os planos serão muito caros e não sei quando teremos, realmente, a tão esperada 4G."
É preciso dobrar nº de antenas
Segundo o especialista em telecomunicações Almir Gonçalves Pereira, a alta velocidade prometida pelo 3G – que poderia chegar a 7 Mbps (Megabits por segundo) – não é oferecida por todas as operadoras em Juiz de Fora. Na maioria das vezes, a conexão fica entre 1 Mbps e 300 Kbps (kilobits por segundo). "Em diversos testes, detectamos velocidades abaixo de 100 Kbps, ou seja, nada melhor que o 2G. Isto pode dever-se à disponibilização de poucos acessos para uma quantidade grande de usuários. Parece-nos que o número de sites (estações rádio-base) ainda é insuficiente para cobrir adequadamente toda a cidade, o que se reverte em menor qualidade das conexões e menor velocidade", explica. "Não existe mágica: a solução está na multiplicação das estações rádio-base."
De acordo com a Secretaria de Atividades Urbanas (SAU), existem hoje na cidade 126 torres de transmissão, 14 a mais que em 2009. Outras 20 antenas estão em fase de licenciamento, que inclui autorizações ambientais e aprovação do projeto técnico, entre outros documentos. O processo leva cerca de dois meses ser concluído. Segundo o diretor executivo do Sindicato Nacional das Empresas de Telefonia e de Serviço Móvel Celular e Pessoal (SindiTelebrasil), Eduardo Levy, Juiz de Fora precisa de pelo menos o dobro de estações para que possa oferecer satisfatoriamente a tecnologia 4G.
"Juiz de Fora teve uma implantação traumática da 3G devido à falta de entendimento, por parte da sociedade e dos órgãos públicos, de que não há como prestar serviço celular sem antenas. E quanto mais alta a frequência, como a utilizada para a 4G, maior o alcance do sinal. Então, se não houver a compreensão dessa necessidade, vamos repetir o trauma para a implantação da 4G." Segundo Levy, cada estação rádio-base custa R$ 300 mil às operadoras de telefonia móvel, o que implicaria em um investimento de, no mínimo, R$ 37,8 milhões.
Quanto aos preços cobrados pelo serviço 4G, o diretor executivo do SindiTelebrasil diz ainda não ter estimativas sobre o percentual de aumento, mas adianta que os usuários que quiserem adotar rapidamente o novo sistema não se assustarão com os valores que precisarão desembolsar. "Há investimentos em equipamentos necessários à transmissão e, principalmente, nos aparelhos celulares, que ainda não são populares mundialmente e, por não serem produzidos em escala, são mais caros. Mas acredito que não fará tanta diferença assim."
