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Escala 6×1 mobiliza trabalhadores e reacende debate sobre jornada de trabalho

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A rotina de quem trabalha seis dias por semana e folga apenas um tem colocado em discussão, em Juiz de Fora e em todo o país, os limites entre trabalho, descanso e qualidade de vida. Acordar às 6h, frequentar as aulas de 8h às 11h, um banho, uma soneca rápida e é hora de trabalhar. Depois de uma jornada diária de 8 horas – das 14h às 22h -, Alícia Andrade, 23, conta que precisa optar por descansar, estudar para a faculdade ou sair com os amigos. A experiência da jovem, que trabalha como atendente em uma padaria em Juiz de Fora, resume parte do debate em torno da escala 6×1, modelo em que o trabalhador atua seis dias consecutivos e tem direito a uma folga semanal.

Se por um lado a música popular brasileira diz que “temos nosso próprio tempo”, por outro, os trabalhadores que estão na luta pelo fim da jornada 6×1 em Juiz de Fora e em todo país reivindicam o direito de ter tempo de qualidade para além do trabalho. A pauta, que ganhou força nas redes sociais e chegou ao Congresso Nacional por meio de propostas de alteração da legislação trabalhista, divide opiniões entre entidades sindicais, especialistas e representantes do setor produtivo.

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Entre os benefícios da redução da jornada, defensores da mudança, como o Sindicato dos Empregados no Comércio de Juiz de Fora (Sindicomerciários), categoria que reúne parte expressiva dos trabalhadores submetidos à escala 6×1 na cidade, apontam: redução da carga de trabalho – em especial feminina, já que elas são a maioria na escala 6×1 -, melhor distribuição de renda, melhores condições de trabalho e aumento na produtividade dos empregados.

Profissional em atividade durante expediente no comércio local (Foto: Felipe Couri)

Mas há quem acredite que a redução na carga horária trabalhista possa trazer impactos indesejados aos trabalhadores e aos empresários, como defende a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Entre os argumentos, estão o aumento dos custos operacionais das empresas, o aumento dos preços de bens e serviços, a perda da competitividade da indústria nacional e a diminuição de investimentos. Já para os trabalhadores, alguns dos impactos seriam a redução na oferta de empregos formais e o aumento da informalidade.

De acordo com o advogado trabalhista Talles Bhering, as propostas que estão em circulação versam duas mudanças principais: o aumento de um dia de descanso semanal remunerado e a garantia de que, a cada três semanas, pelo menos um dia de descanso seja sábado ou domingo. As folgas também devem ser em dias consecutivos. Assim, a cada três semanas, os trabalhadores teriam assegurado descanso na sexta-feira e no sábado, no sábado e no domingo, ou no domingo e na segunda-feira. As mudanças também garantem centralidade às convenções coletivas de cada categoria, sendo necessário avaliar a legislação de forma individual para cada classe de trabalhadores.

Para Rafael Campos, professor do departamento de Economia da Universidade Federal de Viçosa (UFV), a redução da jornada de trabalho é uma tendência que responde ao aumento da produtividade. “A jornada de trabalho não é algo imutável. Se a gente parar para pensar, desde Keynes, na década de 1930, ele já ia profetizar que hoje a gente trabalharia muito menos por conta de aumento de produtividade. Agora, no caso específico do Brasil, a gente está travado. Preso nessas 44 horas semanais desde a Constituição de 1988″. Mas apesar de identificar que uma jornada trabalhista menor é “tendência moderna, de bem-estar e dignidade do trabalhador”, Rafael também aponta que as condições da mudança devem ser bem definidas.

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Entre os pontos positivos, o professor destaca o aumento da qualidade de vida e, consequentemente, da produtividade; a possibilidade do “ócio criativo”, ou seja, encontrar formas criativas de realizar tarefas rotineiras durante o período de descanso; maior geração de empregos resultante da redistribuição dos postos de trabalho; e um ganho ambiental indireto, associado a uma relação mais equilibrada entre pessoas, consumo e meio ambiente. Na lista dos pontos negativos, estariam o aumento do custo operacional das empresas; impacto maior para pequenas e médias empresas, em razão da desigualdade na competitividade; aumento da inflação e dos preços; e possibilidade de maior informalidade e precarização dos trabalhadores.

Ainda assim, Campos é otimista e avalia que os efeitos negativos podem ser reduzidos com planejamento. “Eu acredito que a gente consegue ter estratégias mitigadoras para esses pontos negativos”. Alguns caminhos, para o economista, são pensar em regras de transição graduais; implementação de incentivos fiscais; amplo investimento em educação e tecnologia, para que a produtividade não seja prejudicada com a redução da jornada; e garantia de leis trabalhistas robustas que impeçam a precarização do trabalho. O economista e professor da Estácio Juiz de Fora, Hugo Meza, também defende a redução da jornada, com ressalvas. “Setores com alta dependência de operação contínua, como comércio, saúde e serviços essenciais, exigem adaptações específicas.”

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O que prevê o projeto?

Assim como a maioria das reivindicações populares, o movimento pela substituição da jornada 6×1 pela 5×2 não tem uma origem única. Por isso, existem vários processos em andamento, com participação de diversos atores políticos e sociais, para efetivar a mudança. Neste cenário, destacam-se a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, de autoria do Deputado Federal Reginaldo Lopes (PT); a PEC 8/2025, de autoria da Deputada Federal Érika Hilton (PSOL); e o Projeto de Lei (PL) 1838/2026, proposto pelo poder Executivo Federal.

Vendedores do comércio estão entre os profissionais impactados pelo debate sobre a escala 6×1 (Foto: Felipe Couri)

Na prática, todos os documentos têm um único objetivo: a redução do teto máximo da jornada de trabalho. No entanto, cada um deles possui particularidades. Proposta em 2019, a PEC 221/2019 defendia jornada máxima de 8 horas diárias e 36 horas semanais e deveria entrar em vigor dez anos após a data de publicação. O texto indica que em países como Itália, Suécia, Dinamarca e Holanda, a média de horas trabalhadas por pessoa está entre 36 e 29 horas semanais e o salário médio atinge os U$ 2,9 mil mês – na cotação atual, o salário ultrapassaria os R$ 14 mil. 

Todavia, a pauta ganha força entre os brasileiros quando proposta pela Deputada Érika Hilton (PSOL), na PEC 8/2025. Este texto defende não apenas o teto máximo da jornada de trabalho para 8 horas diárias e 3 horash semanais, mas propõe apenas quatro dias de trabalho na semana – uma escala 4×3 -, que entraria em vigor 360 dias após publicação. A PEC conta com argumentos da economista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Marilane Teixeira, que destaca que a redução da jornada de trabalho significaria uma melhor distribuição de renda e, com maior poder aquisitivo, mais aquecida estaria a economia.

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Como Propostas de Emenda à Constituição, ambos os textos propõem alterações na Constituição Federal de 1988. Para sua aprovação, precisam passar pelas fases de proposição; admissibilidade – que garante que a proposta não viole as cláusulas pétreas da Carta da República -; análise da proposição; votação no plenário; e, por fim, a promulgação – quando aprovada pela Câmara e pelo Senado. 

Por ser um processo complexo, a tramitação de uma PEC pode se estender por anos. Por isso, para agilizar o processo, o poder Executivo Federal, por meio do Ministério do Trabalho, propôs um Projeto de Lei que não altera a Constituição, mas a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) para a redução da jornada de trabalho.

Este texto, entretanto, propõe uma jornada máxima de 40 horas semanais e 8 horas diárias, bem como protege dois dias de descanso para o trabalhador, sendo preferencialmente sábado ou domingo, mas priorizando as peculiaridades de cada atividade ou negociação coletiva de trabalho. O documento também veta a diminuição dos salários após as mudanças.  De acordo com o texto, a proposta “concilia proteção social, modernização da legislação trabalhista e promoção de um modelo de desenvolvimento mais equilibrado e sustentável”.

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Trabalhar para viver ou viver para trabalhar?

Com 23 anos, Alícia trabalha como atendente de padaria na escala 6×1 e não tem folga aos fins de semana. Mas por trás do uniforme e da máquina de ponto, não falta vontade de experimentar as possibilidades da vida em plenitude. “As coisas que eu queria fazer no meu tempo livre são tantas! Eu queria estudar a matéria da faculdade, ler mais livros de ficção, ver filmes… eu queria cuidar melhor da minha saúde, fazer exercícios físicos, comer melhor. Queria ver mais as pessoas, descansar mais, tomar mais sol […] Eu queria aprender novos hobbies: antes eu tocava muitos instrumentos, escrevia poesia”, desabafa.

Para Alícia, o cansaço, a falta de tempo para a família e os amigos e as poucas oportunidades de lazer são os principais pontos negativos da escala 6×1. Ela também destaca a privação do sono. “Eu tô sempre muito exausta, tem dia que eu chego a alucinar.” Mas também reconhece que sua realidade carrega privilégios. “Eu não tenho filhos, não sou casada, tem gente que ainda tem essa dupla ou tripla jornada.”

A atendente afirma que quase todo o seu dia gira em torno do trabalho e dos estudos, o que reduz o tempo disponível para descanso e lazer. Para manter alguma vida fora da rotina profissional, conta que muitas vezes sacrifica horas de sono para sair, assistir a um filme ou ouvir música.

Para ela e para outros trabalhadores que defendem o fim da escala 6×1, portanto, a discussão vai além da organização da jornada. O que está em disputa é a possibilidade de conciliar emprego, formação, descanso, convivência familiar e vida social sem que o tempo fora do trabalho seja sempre insuficiente.

*Estagiária sob a supervisão da editora Carolina Leonel

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