
Deborah Lisboa tem a palavra “coragem” tatuada no peito. Mas nem sempre o substantivo a acompanhou: se considerou durante parte da vida uma pessoa muito medrosa, que buscava esconder partes do próprio corpo por inseguranças ou receio das “zoações” dos outros, além de acreditar que não podia arriscar movimentos com o próprio corpo. Tudo mudou com o circo. Quando ela conheceu essa modalidade, ainda na adolescência, por meio de uma oficina de máscara, viu de perto a diferença que o contato com aquele universo fazia para o desenvolvimento físico, a desinibição e a responsabilidade com o próprio corpo. Demorou a conseguir fazer acrobacias nos tecidos ou a ficar de cabeça para baixo, mas enfim conseguiu. E foi assim que sua trajetória como professora de circo e com a palhaça Magrela, que interpreta, começou. A palavra passou a fazer todo sentido. Hoje, ela dá aula no Lá na Lona, primeira escola com esse foco em Juiz de Fora, e busca expandir o circo como atividade física e atividade artística dentro da cidade.
Na mesma época em que Deborah começou as oficinas de palhaçaria, também participava das atividades da Casa do Pequeno Artista, projeto social em que sua mãe, assistente social, trabalhava. Na época, havia pouquíssimas opções na cidade para desenvolver as atividades do circo. Por isso, quando precisou decidir qual faculdade faria, ela optou pelo curso de Educação Física. E isso fez todo sentido em relação ao que ela já gostava: “Fui vendo a cada período o quanto eu poderia colocar do circo na Educação Física. Tem tudo a ver, quando a gente fala de infância e de desenvolvimento, o quanto que o trabalho do circo é completo”, conta. Nesse sentido, ela lembra que o respeito com o corpo do outro e até o trabalho em equipe, fora de um ambiente competitivo, permitem um aprendizado em conjunto.
Ela foi percebendo, também, que no circo é possível aprimorar a própria técnica dentro das suas limitações. E por isso, ainda hoje, em 2026, continua defendendo que o circo é uma atividade válida para todo mundo. “Tenho alunos de todos os corpos e idades, com gostos muito diferentes. O circo tem esse acolhimento”, destaca. Ao final da faculdade, em 2009, ela apresentou um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) no qual buscava mostrar esse potencial, intitulado “O circo na Educação Física escolar, diversificando o currículo e enriquecendo o conteúdo”. E, depois de se formar na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), partiu para Belo Horizonte em busca de uma especialização nessa área. Lá, também fundou uma das primeiras escolas de circo da cidade e foi responsável por implementar o circo dentro de redes de academias da cidade.
Mas o sonho de Deborah era poder voltar para Juiz de Fora com esse conhecimento e permitir que outras pessoas que tivessem interesse, assim como ela, pudessem se desenvolver na atividade aqui. Em 2015 ela fez isso, e abriu o Lá na Lona (Rua São Mateus, 534). Também passou a dar aulas e oficinas em escolas. “Tenho alunas que começaram com 8 anos comigo e hoje, com 18, continuam. Minha projeção artística sempre esteve junto com a educação”, destaca. Quem procura o espaço, então, passa a conhecer as quatro principais modalidades do circo (malabarismo, equilibrismo, acrobacias de solo e aérea), mas também pode ir focando especificamente em uma dessas. O espaço também funciona atualmente como um centro cultural.
Flertar com o erro
Quando começou no circo, Deborah também criou — ou virou — uma palhaça: a Magrela. “Ela é uma palhaça muito alto astral, esquecida e divertida. E é uma palhaça muito política também. Eu não consigo pensar o meu fazer artístico sem essa responsabilidade social, a consciência da importância da arte no que estou falando ou fazendo. É uma palhaça que não se cala”, conta. Já fazem 3 anos que essa “palhaça feminista” também tem um espetáculo próprio, em Juiz de Fora, que aborda a violência de gênero.
A palhaçaria, como explica Deborah, é uma arte que sempre flerta com o ridículo ou com o erro. Durante essa trajetória, ela percebeu que a Magrela é o que ela é, só que de maneira “mais amostrada”. “São características da Deborah de uma forma amplificada, né? Para criar um palhaço, nessa busca interna, a gente permeia nossa infância, o que sentia e o que incomodava”, conta. E foi assim que surgiu a Magrela: destacando uma característica sua da qual, um dia, já se envergonhou. “As coisas que eu exponho no meu corpo para Magrela existir são coisas que, em algum momento da minha vida, foram até difíceis de serem expostas. Isso vai pro visual e vai também para personalidade da própria palhaça”, conta. Atualmente, ela está na construção do espetáculo “Magrela vai“, que está arrecadando contribuições para acontecer.
Para deixar o mundo de pernas pro ar
Mas por que fazer circo em um mundo tão tecnológico, divido, cheio de exposição e julgamentos? É aí mesmo que ela acredita que faz mais sentido. “Alguém tem que inverter a lógica, e a palhaçaria faz isso. A gente denuncia e traz o incômodo, mas através da graça, de rir de você mesmo”, destaca. Para ela, é esse papel revolucionário que o circo ocupa: um lugar de risadas conjuntas, em que todo mundo precisa admitir os próprios erros e se unir. “Quando você ri do erro do palhaço, está rindo do seu próprio erro, porque você se vê naquela situação, você também passa por essa vergonha. E isso é humanidade. A palhaçaria é um convite para lembrar disso. A gente está precisando demasiadamente ocupar as ruas com mais alegria para a gente se lembrar que a vida presta, que vale a pena para gente não desistir. Porque está difícil, né?”

