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Conheça Juliana Stanzani: cantora, produtora e totalmente multifacetada

Juliana Stanzani

(Foto: Isabella Campos/ Divulgação)

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Quando Juliana Stanzani tinha por volta de 5 anos, falou pra sua mãe: “Quando eu crescer, quero ser igual a tia Maristela, aprender a tocar violão, usar saião e fazer dois furos na orelha”. E teve mesmo essa fase. Veio próximo de quando aprendeu a tocar violão com uma professora que regia o coral da igreja de sua cidade, Leopoldina, e virou praticamente colecionadora dos folhetos de missa para poder cantar. Mas na adolescência já estava na banda de rock chamada Troglóbias. Mais tarde, já em Juiz de Fora, passou a integrar o grupo musical Matilda, voltado para música popular brasileira, e foi se aproximando cada vez mais do samba. Hoje, aos 37 anos, Juliana se define como uma pessoa assumidamente multifacetada: não só nos estilos musicais, mas também na profissão. Sua trajetória perpassa pela Letras, Design Gráfico e Produção Cultural, com um olhar amplo para o cenário independente da cidade.

(Debora Agostini/ Divulgação)

Quando vai mandar seu currículo durante a elaboração de projetos, Juliana conta que fica até sem graça. São 17 páginas, porque já fez mesmo muita coisa diferente — mas tem motivo para isso ter acontecido. A caminhada de uma artista e as necessidades da profissão obrigaram que ela fosse experimentando e testando o que daria certo. A ideia de trabalhar como produtora cultural e na elaboração de projetos, por exemplo, era algo que nem imaginava ser possível quando se mudou para Juiz de Fora para cursar faculdade na UFJF. “Não sabia nem como funcionava. Imaginava empresário de artista como aquela coisa bem estereotipada, aquele cara mais velho e rico, né? Mas vi que era algo possível, e que eu gostava de fazer”, conta. O show em homenagem à cantora e compositora Sueli Costa, realizado pela Funalfa, em 2011, foi definidor nesse processo, pois também foi lá que ela conheceu nomes como Caetano Brasil e Roger Resende, com os quais acabou produzindo depois.

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Também foi conhecendo a cidade e experimentando as possibilidades daqui que sua trajetória como cantora tomou forma. Quando resolveu cursar Letras, já tinha apreço pela literatura e entendia que a escrita era por onde se “organizava”. Foi também lá que conheceu Mauro Morais. O jornalista fazia aula no instituto junto com ela, e a chamou para fazer a música tema de seu filme. No estúdio de gravação, surgiu o conjunto Matilda, quarteto composto por ela, Amanda Martins (flauta transversa), Bia Nascimento (violão) e Fabrícia Valle (percussão). Juntas, elas lançaram o álbum “Patuá” e fizeram diversas apresentações que dialogam com a música popular mineira. Até que, em 2023, Juliana também lançou seu primeiro projeto solo dando vazão a essa vontade de se expressar. 

O álbum “O avesso do não”, produzido por Rodrigo Campello, vencedor do Grammy Latino, reuniu composições de diferentes momentos de sua vida — da mais antiga para a mais recente, eram 13 anos de diferença. Para ela, foi um retrato dos quase 20 anos de estrada que já se formavam, dos seus gostos, de suas parcerias. E também um momento de se entender melhor como artista: “É muito diferente sentar e cantar uma bela canção do Caetano e do Djavan e tocar o que você fez.  O corpo sente de outra forma”, explica. Para ela, muitas vezes é mais fácil cantar as músicas de outras pessoas, justamente por saber que quando se trata das suas próprias composições, o peso se torna outro, a dor também sabe onde se encontra. Mas a emoção também é maior. “Apesar de eu costumar achar mais prazeroso interpretar canções que não são minhas, para mim faz muito mais sentido, no fazer artístico, sair da minha casa para cantar o que é meu ou que é autoral e faz parte da minha comunidade artística. Fico mais orgulhosa, sabe?”, reflete.

Olhar de produtora

Atualmente, a produção na Avesso e a elaboração de projetos são as atividades que Juliana trabalha com mais frequência. E são coisas que ela realmente gosta de fazer. “Adoro ver as coisas acontecendo, adoro estar no backstage. Eu sou uma cantora muito ajunta, quando eu estou lá, eu estou amarradona, me sinto bem, acho até que eu me saio bem. Não sou extremamente tímida, não sou uma pessoa também muito para fora, mas também não sou tímida, né? Isso conta a meu favor, mas eu prefiro estar no backstage.” E, desde 2025, ela também assumiu como coordenadora pedagógica e proponente a Escolinha do Samba no Mercado Municipal, que tem parceria com o Instituto Zeca Pagodinho e oferece aulas gratuitas de canto coral, cavaquinho, flauta, percussão e violão para crianças e adolescentes, com idades entre 7 e 17 anos.

Trabalhar com esse olhar de dentro do setor fez, é claro, que ela também tivesse uma outra perspectiva sobre sucesso e carreira. “A gente acaba se dando conta de que tudo tem preço. Com R$ 1 milhão, eu consigo ficar famosa comprando anúncio, vaga em programa de televisão, etc. É como muitas pessoas fazem”, reflete. Por outro lado, também, ela entende que traz facilidades no lado comercial para ter ideias do que é viável e de como encontrar apoiadores para fazer bons projetos. “Vejo que consigo viabilizar o meu próprio trabalho e o trabalho de outras pessoas. Mas como estou nessa há muito tempo, me traz esse outro lado de eu ver muito a crueza das coisas. O preto no branco e ver como funciona.” Apesar de hoje não ter grandes pretensões de investimento na carreira musical, também entende que não pretende parar nunca de fazer o que gosta por conta disso.

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(Foto: Isabella Campos)

Samba a dois

Para ir do rock ao samba, Juliana precisou não se importar tanto com as “caixinhas” — além de escutar música escondida dos amigos, na adolescência. Parte dessa transição, ela se lembra de fazer escutando Los Hermanos, como a canção “Samba a dois”, que ajudou a mostrar que era sim possível. Afinal, se a música questiona quem se atreve a dizer do que é feito o samba, quem se atreve a dizer do que é feito a música ou o artista? “Eu sempre corri um pouco dos temas de amor, mas não tem muito como, né? Quando a gente quer evitar o assunto, os filósofos e poetas já dizem que é ali que a coisa está também. Não tem muito jeito. Então no meu estilo tem muito do que é confessional”, diz. Mas, também, tem do que é político e até da sensualidade.

Para dar conta dessa rotina, ela conta que tenta ter organização, na medida do possível, para dar tempo de se cuidar, viver e trabalhar. Mas nem sempre dá. Hoje, se reconhece até nisso. “Eu me sinto em muitos lugares. Quando penso na minha trajetória no começo, no meio e hoje, ainda trago um pouco da Juliana rebelde e roqueira, um pouco daquela meio abobada com aquilo tudo, com aquele monte de gente incrível que estava conhecendo. E também a Juliana mais cri cri e nerdola, de gostar de ler muito, de querer problematizar tudo, sabe? Acho que isso encapsula bem tudo que eu faço.”

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