Armando dos Santos começou a vida profissional trabalhando em obra e como cobrador de ônibus. Nessa mesma época, enfrentando as muitas dificuldades dessas profissões e sem ter acesso à escolaridade formal, fez um curso para ser marceneiro: ofício que carrega até hoje, aos 58 anos, ainda que tenha transformado bastante a forma de lidar com a madeira e com o trabalho. Quando começou, pensava em lidar com móveis planejados, que era o setor em que as principais oportunidades financeiras estavam. Depois de alguns anos de trabalho, passou a enfrentar crises de pânico causadas por fobia social que fizeram com que precisasse mudar a rota. Foi assim que descobriu o artesanato feito no material que já conhecia. Essa alternativa permitiu que trabalhasse mais em casa, sozinho, e participasse de feiras para fazer as vendas, sem que estivesse sempre na casa de outras pessoas. Hoje, ele administra essa doença e a depressão, além de lidar com as dificuldades que o artesanato também impõe, e exibe parte de suas peças de madeira na loja Arte Fibra Decora, box do Mercado Municipal, além de fazer por encomenda. Cada caixa, banco ou baú que faz leva um pedaço de sua história e um olhar que reinventa o próprio material.
O interesse de Armando pelo setor começou porque, na infância, via o pai, que era uma pessoa com deficiência, fazendo um brinquedo ou outro de madeira — além de ter visto ele construir sozinho um piano. Essa vontade de fazer as coisas com as próprias mãos se manteve até que, naquele momento de necessidade, já perto dos 30 anos, precisou encontrar uma forma de lidar com o ofício. “Descobri que poderia ser artesão, porque uma vez fiz dois banquinhos e precisei tirar a madeira que sobrava, e aí vi que poderia guardar para fazer um baú. Fiz e dei de presente em um amigo oculto da igreja que frequentava na época e a pessoa gostou muito”, relembra ele. A partir disso, ele começou a fazer caixas rústicas para vender no Centro da cidade. Até que conheceu a Casa dos Artesãos em Matias Barbosa, onde pôde desenvolver mais suas técnicas.
A trajetória dele, como destaca, é marcada por muita luta, mas também muito prazer em ser artesão. A descoberta da economia solidária foi essencial nesse processo: “Buscamos não o trabalho pelo desespero, mas o trabalho pela alegria. Ter prazer no trabalho, de não ser o trabalho com a semântica de uma coisa ruim e de sofrimento. A gente acha que o trabalho pode ser prazeroso. É possível ter prazer na vida mesmo no processo de produção”. Ele inclusive participou ativamente como liderança nesse setor, e chegou a visitar várias cidades para acompanhar discussões e participar de feiras de artesanato com a Amadeirarte.
Ao longo desse tempo, também viu a profissão mudar e as dificuldades aumentarem. Um dos marcos, em sua visão, foi uma visão do país de que o artesanato deveria ser um produto a ser exportado: “Quando começam a falar em fazer artesanato em massa, vira uma linha de produção. E artesanato não é isso. É fazer cada um diferente. Mesmo quando repete uma peça, cada uma é de um jeito”, conta. E, por isso, cada vez mais, ele também sente falta de que escutem as queixas do setor para a elaboração das políticas públicas. “Você vai pra rua e precisa pensar na sua subsistência, mas tem problema com chuva, sol, fome, sofrimento para ir no banheiro. E depois aparecem pessoas que não passam por nada disso e querem falar por você”, critica ele, acrescentando que o deslocamento até as feiras já é outro problema para quem não possui transporte próprio. Ainda hoje, entende que as dificuldades para o setor estão muito grandes, tanto no sentido de falta de apoio em Juiz de Fora quanto dentro da própria economia solidária — que entende que também passou a ser ocupada por pessoas que trabalham de maneira não artesanal.
Sempre uma novidade
Ao longo dos anos, ele foi inovando no trabalho com madeira. Um dos diferenciais que passou a enxergar para o próprio trabalho foi o uso de mosaicos. “Consegui envolver a minha mãe naquela época, ela tinha amputado uma perna por conta da diabetes dela e aprendeu. Foi uma forma de ela participar”, relembra. Também passou a incorporar o trabalho com cipó, que é mais simples, e produz um resultado interessante na madeira. E, com o contato com cidades como Tiradentes e São João del Rei, viu que era possível usar até mesmo as madeiras usadas e pintadas de uma maneira diferente nas caixas que faz. “Se tem um móvel de uma madeira que estava sendo jogado fora, pego essa madeira, trato e uso, já tem 200 anos que ela foi cortada e ela volta e pode durar até mais 200 anos”, diz. Essa relação também permitiu que ele explorasse a própria história nas peças, dando uma identidade que mostrasse a subjetividade da sua trajetória, ainda que afirme que “não entende nada de arte”.
Para ele, esse é um dos papéis sociais que os artesãos têm. “A gente nunca quer fazer igual, quer sempre fazer um processo diferente. Um processo diferente até dele mesmo. É uma questão de querer liberdade”, conta. E entende que isso pode ser muito difícil, considerando as instabilidades da área e a falta de conhecimento em educação financeira para quem trabalha no setor. “Ser artesão no Brasil, em um país em que a desigualdade é muito grande, é um risco. O artesão tem uma liberdade, mas é entre aspas, porque tem que produzir e pagar as contas. Mas cria, e quem faz sente prazer no fazer”, diz.
De onde vem o prazer
Esse prazer de que ele fala, no entanto, não existe mais hoje em dia. “Eu tive muita frustração. Essa tristeza veio por não ter recurso para arrumar um dente, para poder ter uma casa minimamente com conforto, ter uma certa estabilidade, ter sempre que trabalhar muito”, reflete. Para ele, quando o trabalho passa a ser doloroso, mata a arte. Mesmo com o reconhecimento de outras pessoas em relação ao seu trabalho, passou a ser mais difícil ao longo dos anos, e a necessidade está vindo sempre antes quando começa seus trabalhos. “Hoje, produzo pouco em relação ao que já fiz. Mas sou apaixonado por madeira”, diz. Nessa caminhada, ele conseguiu procurar os estudos a que não teve acesso na juventude e, no último ano, se formou em Pedagogia. O plano agora é estudar para fazer um concurso e, aos poucos, poder conciliar a nova vida com o artesanato de uma maneira mais saudável.

