“Estou o dia todo dando entrevista. Acabei de falar com uma repórter de um jornal da Bahia, e os sotaques estão demais hoje. Um é o extremo do outro”, disse ao telefone Vanessa da Mata a essa repórter de Minas. Na estrada com a turnê do seu mais novo disco, “Segue o som”, a cantora retorna a Juiz de Fora nesta sexta-feira, às 21h, no Cine-Theatro Central, trazendo um dos melhores trabalhos da carreira, segundo suas próprias palavras. Além de canções inéditas, o show não deixará de fora alguns dos sucessos da compositora em novos arranjos. “Neste eu consigo a maturidade da composição. No primeiro disco, por exemplo, na música “Ano de 1890″, canção que eu adoro, quero falar sobre o livro ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’, e acho que consigo. Também quis abordar a abolição, mas isso não fica claro para as pessoas. Hoje, acredito que consigo ser direta sem perder a poesia”, diz a compositora, de Alto Garças (MT), feliz com a pluralidade alcançada.
“São ritmos que ilustram bem o que eu sou. Isso me faz feliz. É atual sem ser moderno demais.Também reuni quatro gerações de músicos de que gosto muito. Tem Liminha, com 60 anos, Kassin, com quase 40, Fernando Catatau e Marcelo Jeneci, 30, e os meninos da minha primeira banda. Produzi o show inteiro, desde o figurino até o cenário.”
A escritora também falou sobre “A filha das flores” (Companhia das Letras), seu romance de estreia. Lançada em 2013, a publicação traz a história de Giza, uma menina que vive em uma cidade de interior com a família que cultiva e vende flores. “Eu já tinha escrito dois livros. Um, eu queimei, o outro, rasguei, porque achei que não estavam bons. Eu escrevia muito quando era criança. A literatura, para mim, sempre esteve no mais alto patamar”, afirma. “Os homens mais atraentes são os mais cultos. Sempre tive uma paixão por intelectuais. ‘A força que nunca seca’, minha primeira letra, musicada por Chico César e primeira gravada por alguém de destaque, a Maria Bethânia, era o começo de um conto, de um poema, de um livro.”
Tribuna – Você trabalha com literatura e música da mesma forma?
Vanessa da Mata – Sempre tive as duas muito separadamente. Uma letra precisa se encaixar numa melodia. As pessoas não têm noção de como é difícil isso. Se você não coloca os acentos no lugar certo, parece que está cantando em inglês, ninguém entende. São três minutos em que você tem que dar detalhes o bastante para que todo mundo entre naquele universo. Acho que o meu melhor quitute é a música. Tive a ajuda maravilhosa do José Eduardo Agualusa, considerado o melhor escritor da língua portuguesa da atualidade. Ele disse que acha meu livro surpreendente, e eu fico toda faceira.
– Sobre o que você quis falar em “Segue o som”?
– Tenho a necessidade de falar mais dos assuntos de hoje em dia, das minhas observações. Geralmente é no amor que a gente mais se mostra, porque a relação mais íntima é carregada do que nós somos. Mas também tem uma variedade grande de assuntos, falo do amor dos meu avós na música “Homem preto”. Meu avô era preto, e minha avó era branquinha dos olhos verdes. Os dois trituraram o preconceito e enfrentaram tudo para se casar. Falo de um adeus, e por aí vai.
– É a primeira vez que você apresenta uma composição em inglês: “My grandmother told me”. Pretende investir mais nisso?
-Tinha voltado a estudar inglês sozinha, não me lembrava de nada. O novo me motivou. É um universo muito diferente. Eu jamais diria o que disse nessa música em português, porque não cabe, não soa da mesma forma. Ela tem uma pegada que lembra os anos 1930. É uma novidade para mim. Se eu fizer aula de alemão, possivelmente vou escrever uma em alemão.
– Ter emplacado canções de muito sucesso te pressiona a fazer “Segue o som” estourar?
– Não, porque o mercado muda muito. Hoje, o sertanejo tomou conta. Há dez anos, era o axé. O mercado vai se apoderando das coisas de uma maneira muito dele. A minha pressão é para fazer músicas boas.
– Você se considera uma cantora popular?
– Adoro ser popular. Não gosto de ser uma coisa só, porque ninguém é uma coisa só. Consegui ter uma música, como “Amado”, por exemplo, de excelente qualidade, tocando no Brasil inteiro. Tom Jobim tocava em novelas, era um compositor popular, quando todo mundo dizia que ele era chique. É uma maneira de comer uma coisa com um sabor novo, diferente daquele arroz com feijão de todos os dias. Gosto de Ben Jor, gosto das músicas do Caetano e do Gil e tenho uma relação também com as músicas pop. Não tenho preconceito. Dá para reunir músicas de amor e poesia. Sou de uma família humilde. O Mato Grosso, naquela época, era um estado bastante isolado, e, sempre que chegava algo novo, a gente dava um salto. É um privilégio fazer um show no teatro com pessoas pagando uma grana enorme, porque tem que pagar equipe e contratante, e, ao mesmo tempo, fazer um show de rua, com 130 mil pessoas, como foi em São Paulo, e 110 mil pessoas, como foi no Rio.
– Você está entre os artistas que se envolveram com política nesta eleição?
– No primeiro turno, eu estava com a Marina. Já no segundo, fiquei muito desanimada. Só vou respeitar um político quando ele respeitar, em primeiro lugar, a educação. Não gosto da ideia de ter um povo, para sempre, dependendo de um governo ou não sabendo exigir. Acho difícil a política hoje no Brasil.
Vanessa da Mata apresenta o show
“Segue o som” nesta sexta em Juiz de Fora
