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Ponte entre culturas

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Para ir de uma cultura a outra por caminhos feitos de palavras, o leitor recorre a pontes invisíveis. E, ao que parece, nem se dá conta disso. Tão necessários quanto desconhecidos, os tradutores de obras literárias passam meses debruçados em um trabalho árduo e meticuloso. Embrenham-se na aldeia do outro a fim de levar informação a sua tribo, selecionam a dedo frases adequadas para recontar histórias, possibilitam viagens imaginárias. Surge, então, a pergunta: eles são, de alguma forma, donos do texto que chega às mãos do público em seu país? Em entrevista à Tribuna, diversos tradutores analisam as características de uma tarefa que equilibra fidelidade e recriação.

Lia Wyler, conhecida pelas edições em português da saga "Harry Potter", afirma, no portal da revista "Época", que a tradução não se restringe à troca de palavras. A atividade significa transformação, como complementa Carolina Selvatici, atuante nas editoras Reader’s Digest e Tinta Negra Editorial e nas produtoras Gemini Media e Télétota. "Como é impossível saber o sentido exato que o autor quis oferecer, o texto traduzido acaba sendo uma interpretação." Mesmo assim, ela não se considera dona dos livros. "Se há modificação, ela é controlada. O objetivo é seguir o original e não imaginar algo em cima dele."

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Por outro lado, a professora de tradução literária Regina Lyra defende a coautoria para seus pares, questão, inclusive, reconhecida pela legislação brasileira. "Somos autores da tradução, uma obra diferente da primeira." Na opinião da juiz-forana Dênia Sad, tradutora de inglês e espanhol, ainda que seu ofício exija criatividade, inspiração e sensibilidade, ele não se dá no campo da recriação. "Não reinvento personagens nem enredos."

 

Quase visível

Enquanto tal assunto divide os profissionais, outros temas seguem em direção única. Dênia acredita que a invisibilidades da categoria no Brasil está começando a ficar para trás. "Alguns leitores já fazem questão de saber quem traduziu, de elogiar uma bom trabalho e recomendá-lo." O tradutor Maurício Santana Dias – de "Trabalhar cansa" e "Sardenha como uma infância", pela Cosac Naif – concorda, lembrando que o nome do responsável pela tradução vem sendo impresso na capa das publicações. "Até recentemente, porém, poucos percebiam que o livro estrangeiro era ‘mediado’ por nós."

Segundo a tradutora e editora Heloisa Jahn, que colabora com a Companhia das Letras, a postura da imprensa, das livrarias e das próprias editoras contribuiu para afastar o público dos tradutores. Por conta disso, raras vezes o desinteresse pela leitura foi atrelado a problemas de tradução. "Essa noção não passava pela cabeça das pessoas, elas achavam que eram questões do texto original." Outro fator de distanciamento, conforme o tradutor Caetano Galindo, são os deslizes encontrados na internet. "Eles multiplicam ideias de desconfiança e traição." Galindo está traduzindo "Ulisses", de James Joyce, pela Companhia das Letras.

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Estilo pessoal

Para Érico Assis, que atua com infantis e quadrinhos, os tradutores devem ficar em segundo plano. "A intenção é que o leitor pense estar lendo palavras do original." Mesmo assim, como complementa ele, talvez seja impossível evitar o estilo pessoal. De acordo com Heloisa Jahn, esse estilo, na realidade, equivale à forma de desenvolvimento da função. "Sua própria literatura, caso o profissional a tenha, não cabe aqui." Assis atesta ainda que o bom trabalho de tradução depende do entendimento dos processos mentais e do universos de referências do autor. Se isso existir, meio trajeto estará percorrido.

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Regina Lyra pondera que a preservação dos traços de um romance é fundamental se, de fato, eles existirem. A professora explica que alguns escritores privilegiam o conteúdo e, nesse caso, importante é contar a história com o tom – sério, cômico, irônico – já impresso na narrativa. "Mas o tradutor não pode jamais impor suas marcas, pois, quanto a esse aspecto, a obra definitivamente não lhe pertence." Na visão de Carolina Selvatici, as estranhezas cunhadas pelo autor precisam ser mantidas. Ela exemplifica, asseverando que, se José Saramago for traduzido para outra língua, não deve receber pontuações corretas. "Da mesma forma, os palavrões necessitam ser assegurados em Rubem Fonseca."

A adaptação cultural também é apontada por Regina como um ponto relevante. "Dizer que determinado personagem saiu de casa e tomou a direção leste não faz o menor sentido para o nosso leitor, que sai d e casa e vira à direita ou à esquerda", elucida, ressaltando que tal adaptação evita a falsidade do texto.

 

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Português como ferramenta

Como toda língua, o português, às vezes, impõe barreiras. É o que menciona Dênia Sad, contrapondo a riqueza e os variados recursos do idioma nacional. "Não acredito que exista uma língua perfeita." Para Carolina Selvatici, o inglês e o alemão trazem mais limitações. Isso, entretanto, não impede a tradução de qualquer obra ou gênero literário.

Tudo depende da atuação do profissional. "Nosso trabalho é decodificar a construção no idioma de partida e tentar fazer com que tenha sentido para quem fala, vive e pensa no idioma de chegada", comenta Érico Assis. Mas se o português é capaz de quase tudo, a tradução literária brasileira é menos abundante que a de outros países. Assim sentencia Caetano Galindo, salientando a escassez em alguns campos. "Mas remediar essa situação também é responsabilidade dos tradutores", convoca.

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