
Rogério Belo é um dos únicos estilistas que criam modelos em lojas de tecidos
“Rogério, eu pensei num vestido preto, com uma alça só e em três camadas, com três saias.” A conversa, certamente, era essa. Ficou gravada, apenas, a magia de um desenho a tornar as ligeiras indicações em um belo vestido, numa modelo esguia, com uma franja longa e certo ar soberbo. “No início, não tinha esse traço, que veio com o exercício de todo dia”, conta o autodidata Rogério Gonçalves Ribeiro Belo, um homem alto, de cabelos grisalhos a revelar seus 63 anos.
Estilista da Marabá há quase quatro décadas, Rogério Belo foi estudante para o Rio de Janeiro e voltou com um ofício. “Fui tentar vestibular para arquitetura, não fui aprovado, mas quis ficar. Então, aprendi a profissão. O senhor Antônio, dono da Marabá, era amigo da minha mãe e soube que tinha me tornado figurinista e me chamou. Naquela época, não se falava estilista, mas figurinista.”
Sentado na ponta da cadeira, diante de um agigantado espelho e com uma fila de mulheres para atender, Rogério ajuda na compra de tecidos e, além de desenhar, indica o pano ideal e a metragem. “Depois de um tempo, a gente intui a moda. Não preciso mais pegar uma revista para saber o que vem para o inverno. Já dá para saber que as cores que não entraram no passado e têm uma proximidade podem vir”, diz.
“Houve uma época em que fiquei muito em evidência. Montei um ateliê aqui muito improvisadamente porque eu recebia o cliente, desenhava para ele e depois ele voltava, dizendo que a costureira não soube fazer e acabou perdendo o pano. Não que a costureira fosse ruim, mas porque um corte errado acaba com a roupa toda.”
Nos anos 1990, decidiu, então, que cuidaria do desenho e da execução. “Tive um pensamento mercenário, de que aquilo me daria um dinheiro extra. O dono me cedeu uma sala, e, assim, eu não precisava sair daqui. Foi uma loucura. Um dia, fiz um vestido para uma socialite, e foi um sucesso. Minha clientela mudou da mais simples para um pessoal VIP. Tive que me aprimorar, abri uma sala, e virou um ateliê com oito funcionários, chofer com Landau para levar a noiva na igreja, maquiador e tudo mais”, recorda-se.
Artista, segundo ele, não sabe ser patrão, e o estilista voltou aos desenhos apenas. “Nossa vida é regida pela proximidade com o Rio de Janeiro, o que nos faz um pouco cariocas. A moda de Belo Horizonte é irretocável. Mas acho a mineira de Belo Horizonte muito exagerada. A carioca é despojada. A juiz-forana ficou no ponto certo”, ri.
Um tecido? “Tafetá! É um tecido que obedece a tudo que você quiser fazer.” Um estilista? “Sou antigo. Para mim é Yves Saint Laurent, Dior, os grandes mestres.” Uma certeza? “Nada melhor que a idade. Se você me falar hoje: Você é bom! Hoje eu vou falar: eu sei. Fui muito humilde. Quando comecei, aceitava os elogios, mas não acreditava no meu potencial. Tive a humildade de ser um aprendiz e hoje sei da minha capacidade. Não estou dizendo que ocupo um patamar elevadíssimo”, pondera. “A gente morre sem saber tudo.”

