Um dos bons livros de 2019, “Arquivo das crianças perdidas” (Editora: Alfaguara; 424 págs.; R$ 74,90; R$ 39,90 o e-book) voltou ao noticiário ao vencer, em cerimônia realizada on-line por causa do coronavírus, o Prêmio Folio. O júri reconheceu o romance da mexicana Valeria Luiselli, o primeiro que ela escreveu em inglês, como a melhor ficção publicada em língua inglesa no Reino Unido no ano passado.
“Arquivo das crianças perdidas” é um livro bonito sobre uma família prestes a se desintegrar – uma mulher e sua filha pequena, seu companheiro e o filho dele, maiorzinho – que entra num carro em Nova York e percorre os Estados Unidos até o Arizona, na fronteira com o México, para estar onde os últimos povos livres em todo o continente americano viveram antes de se renderem e gravar os ecos de sua passagem por ali e para seguir os rastros das crianças que tentam atravessar a fronteira e desaparecem.
Um livro que fala sobre apaches e imigração, mas mais do que isso: uma história sensível e comovente sobre família, vínculo e cumplicidade. Sobre estar junto e sozinho ao mesmo tempo, sobre querer estar só, mas só encontrar sentido no outro. E é, além de tudo, sobre encontrar a forma exata de contar uma história e registrá-la.
Na época do lançamento, a autora contou que sua vontade era escrever um romance tentando pensar como a próxima geração vai começar a articular esse tempo político muito difícil em que estávamos entrando e como ela, em oposição às gerações mais antigas, poderia dar novos elementos às histórias para a geração seguinte e, por fim, como essa geração iria recombinar e devolver essa história ao mundo. Ela disse isso em junho do ano passado, e nem nos nossos piores pesadelos existia essa pandemia que estamos enfrentando. Como as crianças estão assimilando esse tempo? E como vão contar também essa história no futuro?

