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Arte na palma das mãos

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Uma citação da professora doutora Ana Cavalcanti, dita durante a banca de qualificação da mestre em história Angelita Ferrari, bem resumiu a importância do objeto de estudo analisado por esta. "A miniatura nos põe o mundo na palma das mãos." Ao contrário das obras de tamanho maior, "a miniatura carece da intimidade do espectador", acrescenta Angelita, que lança neste sábado, às 11h, no foyer no Cine-Theatro Central, a obra "Pinturas em miniatura – A coleção de pinturas em miniatura da Viscondessa de Cavalcanti no Museu Mariano Procópio".

A dissertação desenvolvida por Angelita para o mestrado em história, cultura e poder da UFJF, sob orientação da professora doutora Maraliz Christo, foi transformada em livro, financiado pela Lei Murilo Mendes. A obra permite que pesquisadores e leitores diversos conheçam 104 pinturas em miniatura que pertenceram a uma das grandes colecionadoras do país – e que dá nome a uma das salas do Museu Mariano Procópio. Todas as imagens, reproduzidas pela autora, são acompanhadas de informações, como técnicas usadas, tipos de moldura, autores, personagens e cenários pintados, detalhes sobre uso de luz e sombra, posições dos retratados, entre outras.

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O conjunto reúne peças dos séculos XVIII, XIX e XX, mas principalmente do século XIX, incluindo pinturas a óleo de prestigiados artistas do Brasil e do exterior, como Jean Baptiste Isabey e Pierre Paul Prud’hon, ambos pintores da corte francesa, e Madeleine Jeanne Lemaire, referência na pintura de natureza-morta. As dimensões das peças variam de 3,5cm x 4,5cm a 17,5cm x 14cm. Em relação às técnicas empregadas, há aquarelas, pastéis, desenhos e pinturas com esmalte.

A relevância da coleção, já admirada por Angelita quando criança, em suas idas ao Museu Marino Procópio, se tornou ainda mais evidente aos olhos da pesquisadora, durante visita orientada pela professora Maraliz, ainda no período da graduação. "Aqueles quadrinhos sempre me chamaram atenção. E nessa visita, por uma disciplina de patrimônio, a Maraliz nos disse que essa coleção, dessa importante mulher, uma das grandes colecionadoras da época, nunca foi estudada", conta.

Mais de cinco anos de pesquisas foram investidos no projeto, que deu origem ao primeiro catálogo que reúne a maior coleção do país em pinturas em miniatura pertencente a uma só pessoa e reunida em uma só instituição. "Existem outras miniaturas no acervo do museu que podem ter pertencido à viscondessa, o que poderia aumentar essa coleção de 104 peças já reunidas", destaca a historiadora.

Outro aspecto que despertou a atenção de Angelita foi a falta de catálogos do gênero no país. "Nos museus de fora, como os da Europa, existe um catálogo do museu e um das pinturas, o que evidencia o quão importante tais coleções são. No país, entretanto, não existem catálogos de miniaturas", diz ela, ressaltando que todos os catálogos usados foram importados. Outra faceta que singulariza o trabalho realizado é o fato de que as demais coleções registradas apresentam apenas retratos. Já na coleção reunida pela Viscondessa de Cavalcanti há "de forma quase equânime, além de retratos, paisagens, cenas do cotidiano, animais e naturezas-mortas; à exceção da pintura histórica, todos os outros gêneros nela se fazem presentes", observa Maraliz Christo, que assina o prefácio da obra.

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Pesquisa paciente

Como acrescenta a orientadora do projeto, em sua primeira experiência na pesquisa de tema ligado à história da arte, Angelita Ferrari enfrentou grandes desafios. "Estudar assunto que demanda erudição e maturidade, não ter acesso permanente às fontes necessárias, em virtude das obras ainda em curso no prédio-museu, e não possuir o Brasil tradição historiográfica na área", enumera Maraliz.

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"A primeira dificuldade foi fotografar as miniaturas, que já estavam sendo guardadas por conta da reforma do museu", conta Angelita, que só conseguiu fotografar as peças no final da pesquisa, tendo trabalhado apenas com algumas das imagens em vitrines, além de catálogos de países como França e Argentina, deixando a análise das peças por fim. "Em todo museu acontece dessa forma, não só no Mariano Procópio, há dificuldade em ter acesso a esse material, é um processo demorado. Precisamos entender, por outro lado, que são peças muito frágeis, e não há reposição para elas, são únicas", avalia.

Ao paciente trabalho de identificação das obras, seguiu-se a fase de decifrar as assinaturas e levantar dados biográficos dos artistas. Mesmo assim, parte das obras continua sem identificação, por apresentar assinaturas ainda desconhecidas, além da falta de dados e referências relacionadas às obras de arte.

Com a publicação do catálogo, não somente pesquisadores e especialistas contarão com uma nova e relevante fonte de informação da área, como também qualquer cidadão que tenha interesse ou curiosidade sobre o tema poderá ter acesso a uma parte do enorme acervo reunido pela Viscondessa de Cavalcanti. "Foi algo que sempre discuti, desde o início da pesquisa. Busquei elaborar uma dissertação com um vocabulário não muito acadêmico, nem muito rebuscado ou específico. Acho importante atingir não só o historiador, mas profissionais das demais áreas."

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À frente de seu tempo

"Vênus eterna, como se a excelência/Não lhe bastasse da beleza sua/Foi pedir a Minerva a sapiência…/E Minerva atendeu à prece tua." Os versos foram dedicados à Viscondessa de Cavalcanti, em setembro de 1899, por Machado de Assis, um de seus muitos admiradores e frequentador das famosas festas em sua casa no Rio de Janeiro.

"A Viscondessa de Cavalcanti desfrutou de projeção e reconhecimento, graças a seus múltiplos talentos e virtudes, da beleza à inteligência, do carisma à sensibilidade, mas destacadamente pela cultura, muito acima dos padrões da época. Esses talentos inspiraram músicos, poetas, pintores e escritores, que lhe dedicaram suas obras", diz o diretor-superintendente do Museu Mariano Procópio, Douglas Fasolato, em apresentação da obra.

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Amélia Machado Coelho nasceu na capital carioca em 1853. Em 1871, casou-se com o conselheiro Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque, agraciado com o título de Visconde de Cavalcanti, um dos estadistas mais conceituados do Império, senador, além de ter sido presidente das províncias do Ceará, do Piauí e de Pernambuco e ministro de quatro pastas. A importância política do visconde, entretanto, nunca fez da viscondessa uma mulher à sombra do marido.

Tanta notoriedade em vida não foi suficiente para perpetuar seu legado, já que os dois filhos da colecionadora faleceram cedo e sem deixar descendentes, como conta Fasolato. "A sorte dos leitores e pesquisadores é que a própria Viscondessa de Cavalcanti, entre seus incontáveis interesses e causas que defendia, tinha especial dedicação à preservação da memória, por meio da pesquisa e da formação de uma das mais importantes e ecléticas coleções, durante longas décadas, recolhendo as mais significativas referências do mundo, desde a antiguidade à modernidade de seu tempo e as obras dos artistas que reconhecia e admirava", diz o diretor.

A viscondessa era prima-irmã de Alfredo Ferreira Lage, colecionador como ela, e foi grande incentivadora da criação do Museu Mariano Procópio, para o qual doou a maior parte de suas obras acumuladas durante décadas. A coleção de miniaturas é uma delas e integra o patrimônio do museu desde a década de 1930. Sua vasta coleção está dispersa pelo mundo, por sua própria decisão, ao fazer doações em vida aos museus e instituições culturais do Brasil e do exterior, além dos objetos que presenteou a amigos e outros colecionadores.

 

PINTURAS EM MINIATURA

Lançamento do livro hoje, às 11h

Foyer do Cine-Theatro Central

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