A banda Alles Club lança nesta sexta-feira (30) o álbum instrumental “O disco do luto (The grief album)”, que aborda um dos processos mais universais da experiência humana: o luto. Com gravações realizadas em Juiz de Fora, o novo trabalho explora ritmos como shoegaze, post-rock, ambient, música experimental e kraut-rock e busca entender o luto como processo de perda e transformação de vida.
O luto pode estar associado à morte de um ente querido, mas também a perdas e mudanças que fazem parte do cotidiano. Rodrigo Lopes explica que o conceito central do álbum passa por isso, inspirado no trabalho da psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross, que desenvolveu um modelo de cinco estágios associados ao luto, sem uma ordem obrigatória.
Uma frase de Elisabeth Kübler-Ross orienta a proposta do álbum: “As pessoas mais bonitas que conhecemos são aquelas que conheceram a derrota, conheceram o sofrimento, conheceram a luta, conheceram a perda e encontraram seu caminho para sair das profundezas. Pessoas bonitas não surgem do nada”. A partir dessa reflexão, a banda aborda o luto não apenas como uma experiência de tristeza, mas também como um processo de transformação.
Com colaborações de Jenna Fournier (Kid Tigrrr), que também colabora com The Smashing Pumpkins e Billy Corgan, e masterização de Birgir Jón Birgisson, na Islândia, o álbum é uma viagem pelas principais fases do luto: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.
A banda é formada por Rodrigo Lopes (guitarras, synths); Fred Mendes (bateria); Stéphanie Fernandes (synths, vocais); Pedro Baapz (guitarra, baixo, em pé) e Ruan Lustosa (guitarra, sentado). Rodrigo ressalta que cada membro contribuiu com o álbum, trazendo um pouco de suas experiências e visões do luto.
Em movimento
Atualmente, Rodrigo Lopes reside na Suíça, o que faz com que a produção da Alles Club seja internacional, dividida entre o país europeu e o Brasil. O músico, que também atua como psicólogo clínico, viver entre dois países representa uma forma de luto. “Quando eu vou para o Brasil, eu perco algo aqui na Suíça e vice-versa. É uma vida dividida”.
Rodrigo também enfrentou a morte de dois irmãos, em um intervalo de 20 anos. Essas experiências o levaram a refletir sobre o luto não apenas como uma reação à morte, mas como uma resposta humana a diferentes tipos de perda.
“O disco do luto (The grief album)” reúne oito faixas. Uma delas, “Ilhe-se (Denial)”, de autoria de Pedro Baapz, tem a participação de um quarteto de cordas formado por alunos do Conservatório Estadual de Música Haidée França, em Juiz de Fora, sob a regência de Matheus Vieira.
O álbum segue uma ordem quase cronológica, indo da negação à aceitação em uma viagem sonora que inclui diferentes técnicas, instrumentos e formas de áudio. As diferentes formas de luto são exploradas quando a Alles Club traz áudios de séries, amigos pessoais e até mesmo da prefeita de Juiz de Fora, Margarida Salomão, anunciando o estado de calamidade vivido na cidade no início de 2026.
O álbum inclui ainda o registro sonoro de uma banda fúnebre durante um funeral em Berna, na Suíça, onde Rodrigo reside. A gravação integra a proposta de explorar diferentes sentimentos associados à perda.
‘Pessoas bonitas não surgem do nada’
“O luto não é um compromisso de vida”, define Rodrigo Lopes. É um processo de perda e ressignificação, mas que, em sua visão, não deve ser um peso a ser carregado pelo resto da vida. Essa filosofia está presente no álbum também, com a frase “você vai ficar bem” aparecendo nos materiais promocionais.
Na faixa final, “Gospel (Acceptance)”, o disco transmite uma sensação de alívio por meio de guitarras, percussão e instrumentos de sopro, sugerindo a possibilidade de seguir em frente após a perda.
O álbum tem ainda a participação de Victor Fonseca (bateria), Chadas Ustuntas (sintetizadores), Kathrin Schmid (piano), Raphael Ochsenbein (trompetes), João Cordeiro (vibrafone), Matheus Vieira (arranjo para quarteto de cordas) e Chico Cabral (percussão).
Com produção multifacetada e multinacional, “O disco do luto (The grief album)” é lançado com o selo Midsummer Madness. A Alles Club já pensa em realizar shows na Suíça e, mais para frente, no Brasil. Uma das expectativas de Rodrigo é incorporar os instrumentos utilizados no álbum às apresentações ao vivo da banda, algo que representaria uma novidade para o grupo.
“O disco deu trabalho, porque envolve muita gente e fazemos tudo no analógico. Estar com pessoas é o que define o trabalho, e eu brinco que somos um coletivo e não uma banda, quase uma grande família.”
A Alles Club surgiu a partir de composições de Rodrigo, que buscava aprofundar seus conhecimentos sobre produção musical. O primeiro lançamento da banda foi o EP “1999”, em 2016, e, desde então, o grupo segue criando e transformando sentimento em som, seja na Suíça ou no Brasil.
*Estagiária sob a supervisão da editora Cecilia Itaborahy

