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Exposição com fotografias inéditas revive a Barca da Cultura e sua jornada pelo Rio São Francisco

Barca da Cultura
(Foto: Divulgação/Dudu Arbex)
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Essa história aconteceu no período mais sombrio da política brasileira. Em meio à ditadura militar, no auge da repressão a todos aqueles que pensavam diferente e, principalmente, a quem fazia arte, um grupo com mais de 200 artistas decide descer o Rio São Francisco para fazer apresentações culturais em locais distantes e em situações de vulnerabilidade social. Idealizada por Paschoal Carlos Magno, a Barca da Cultura partiu em fevereiro de 1974 e navegou por cerca de 60 dias. Os registros dessa jornada poderiam ter ficado apenas na memória daqueles que embarcaram no projeto, mas o jornalista e fotógrafo Dudu Arbex, 76, documentou diversas passagens dessa história. Para comemorar os 51 anos da aventura, o autor lança, nesta quinta-feira (30), às 19h, no saguão do Teatro Paschoal Carlos Magno, o livro “Barca da Cultura, Barca de Sonhos” e uma exposição fotográfica. 

(Foto: Divulgação/Dudu Arbex)

Ainda no começo da entrevista concedida à Tribuna, Dudu deixa claro que embarcou na viagem com o ofício de ator, e não como fotógrafo. Naquela época, tinha apenas 23 anos e uma câmera de uma marca que acredita já não existir mais. Todas as fotos foram feitas de forma despretensiosa, mas ainda bem que foram feitas, pois se tornaram alguns dos únicos registros dessa experiência. O jovem fazia parte do Grupo Divulgação e havia terminado de ganhar um Festival de Teatro em Ponta Grossa, no Paraná, quando o ator e poeta Paschoal Carlos Magno fez o convite para a caravana. “O convite foi esse: vocês querem viajar pelo Brasil fazendo teatro?”, relembra. “Quem é que falaria não?” 

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Junto com Dudu, estavam outros 122 artistas, com atores, bailarinos e orquestras de várias cidades do país, incluindo o próprio Paschoal. As águas do São Francisco ficaram encubidas de carregar a barca para diferentes cantos do território nacional. A embarcação passou pelas águas do Velho Chico, saindo de Pirapora, Norte de Minas, até chegar em Petrolina, em Pernambuco, com o objetivo de levar cultura para regiões ribeirinhas e agrestes do Norte e do Nordeste do Brasil. “Fomos na barca até onde terminou o trecho navegável do São Francisco. Depois a viagem continuou pelo sertão nordestino por ônibus e caminhão. Chegamos em Teresina, depois fomos até São Luiz do Maranhão, e voltamos para Brasília. Foi uma viagem longa.” 

Entre as atividades preparadas pelos artistas estavam apresentação de espetáculos de música, dança, teatro e mágica, distribuição de livros e realização de oficinas de arte, derrubando fronteiras impostas pela ditadura. Apresentavam-se em cima de caminhões e, quando existiam, nos teatros das cidades. Dormiam nas escolas municipais ou em outros locais que as prefeituras disponibilizavam. Chegavam embalados por música, bandeiras coloridas, e dança. “A intenção era levar arte a um Brasil que a gente não conhecia, em cidades onde nada tinha, nem mesmo luz elétrica.” 

Barca da Cultura em meio à repressão 

(Foto: Divulgação/Dudu Arbex)

O material ficou guardado durante 50 anos até que Dudu decidiu contar essa história para mostrar a importância de Paschoal Carlos Magno na vida cultural do país. “Em 1974, ainda estávamos em plena Ditadura Militar e começou uma conversa de abertura política”, explica. Segundo ele, a Barca da Cultura se inseriu nesse momento de transição para a redemocratização, quando o governo começou a perceber a importância da cultura. “O Paschoal conseguiu, com o governo na época, essa verba para fazer essa viagem e mostrar para o país que o Brasil é arte, é cultura. Foi uma resposta do próprio Paschoal para um momento difícil que a gente vivia, um momento sombrio de tortura, de perseguição política.” Essa abertura culminaria na Constituição de 1988, que “botou o Brasil outra vez nos braços da democracia”. 

Entre as muitas lembranças da viagem, Dudu destaca a presença constante de Paschoal Carlos Magno, que “participava com todos, de tudo o que acontecia na barca”. As reações do público, que eram sempre de encanto, também foram marcantes. “O público amava. Nas cidades que a gente passava, e depois voltamos por essas cidades, a gente ouvia os comentários. ‘Ah, que barca! A barca dos sonhos! Que coisa maravilhosa que passou aqui.'” Assim surgiu o nome do livro. Ele espera que as fotografias – que modestamente considera muito boas, apesar de terem sido feitas por um “garoto de 23 anos que não era profissional da fotografia e que tinha uma máquina simples” – revelem “um pouco do Brasil verdadeiro, o Brasil real, que só quem mora no interior conhece”. 

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O projeto, que ficou guardado em seus arquivos por muitos anos, só ganhou luz graças ao incentivo de sua esposa, Letícia Nogueira. “Foi graças ao incentivo dela, à força dela, que eu consegui realmente criar coragem e mostrar esse trabalho.” A exposição e o livro contam com o apoio da Prefeitura de Juiz de Fora, através da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa), pelo programa Cultural Murilo Mendes, por meio do Edital Murilão 2024. 

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