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‘Minha memória é da perda, não dos achados’

silviano santiago participou de seminario sobre murilo mendes em juiz de fora na ultima quinta

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Silviano Santiago participou de seminário sobre Murilo Mendes em Juiz de Fora na última quinta
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Silviano Santiago participou de seminário sobre Murilo Mendes em Juiz de Fora na última quinta

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Ainda que tenha se distanciado da crítica literária e se aposentado das salas de aula, Silviano Santiago não colocou de lado o olhar analítico. E mesmo reconhecido como um dos maiores escritores brasileiros em atividade (ano passado recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra), sua produção literária é reflexo de seu exercício como pensador. Por vezes polêmico, o homem que já lecionou na Puc-Rio, na Universidade Federal Fluminense e na canadense Universidade de Buffalo, dentre outras, continua a defender a originalidade e a grandeza de alguns escritos brasileiros. Autor do hoje fundamental “O cosmopolitismo do pobre”, livro de ensaios, foi ele quem primeiro introduziu a obra de Murilo Mendes nas universidades, em 1975, ano em que o poeta se despediu.

Convidado a escrever o posfácio da reedição de “Poemas” (Cosac Naify em parceria com Editora UFJF), obra de estreia do juiz-forano, Santiago esteve na cidade na última quinta (25), para participar do seminário “Murilo Mendes: o poeta revisitado”, e conversou com a Tribuna sobre o homenageado, a crítica hoje e seu mais recente romance, “Mil rosas roubadas”. Aos 77, com seus poucos e brancos cabelos e um farto bigode de mesma cor, o senhor que ajudou a pensar na memória literária brasileira, mantém-se lúcido ao falar de si e do outro. Permanece firme e critica a si mesmo. Sabe que ainda há muito para ser pensado.

Tribuna – Qual o lugar que o Murilo ocupa hoje em nossa literatura?

Silviano Santiago – Ele é fascinante hoje por ser uma figura excêntrica. Estamos no século XXI, o modernismo daqui a pouco irá fazer 100 anos e o cânone é construtivista. O que me encanta em Murilo é o fato de ele ter escapado conscientemente dessa linha.

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– Isso de alguma forma justifica o distanciamento dele…

– O que o distanciou é ele ser excêntrico, porque hermético são todos. Ele não quis fazer o jogo. Ele não quis ser contemporâneo dos seus, quis ser contemporâneo dele mesmo, o que é uma decisão de uma violência enorme. Em Drummond, é visível que ele queria ser contemporâneo dos seus. Nos anos 1920, ele tentou enlouquecidamente se aproximar de Mario de Andrade. Murilo não, o que é de um egoísmo atroz. Então, a obra dele na literatura brasileira é uma obra solitária.

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– E ele é atual em qual dimensão?

– Até mesmo na postura franciscana. Existe no mundo, hoje, uma atitude assim. Se quiser ser muito concreto, essa postura é o bolsa família. Existe um espírito do tempo que é franciscano, de não querer mostrar sua riqueza, de os jovens quererem usar Havaianas… Uma das formas desse franciscanismo na literatura de hoje é a aceitação da literatura feita na periferia. Mesmo a classe letrada admite que há de abrir lugar para essas pessoas, e isso é a política de inclusão. Sem críticas, pelo contrário, acho que isso conduz à democracia.

– E existe uma forma de ler a literatura e as artes sem considerar o panorama político?

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– Murilo. Ele tira a espinha dorsal e faz um franciscanismo em sua mais perfeita abstração. Não há dúvida de que Murilo é muito sintomático de um modernismo que não aconteceu.

– Essa é sua visão como crítico literário. Esse papel tem se esfacelado hoje em dia…

– O crítico tem que ser cada vez mais cortês. Hoje já não existe a crítica no sentido que havia na época dos Campos (Haroldo e Augusto). Duvido que um crítico queira exercer a atividade de maneira tão autoritária.

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– E o lugar desse crítico continua sendo o mesmo?

– Não, porque o crítico é autoritário, ele é o homem que fala do bom gosto, mas o bom gosto, no momento, está esfarelado. Se pegar Caetano (Veloso) e misturar com hip-hop não dá certo. Gil com hip-hop, também não. Nenhum deles é capaz de improvisar e fazer toda aquela gesticulação. Vai havendo um distanciamento que está traduzido na diferença entre Marina e Dilma. Qual o pop que está apoiando Dilma? E qual é o Ponto de Cultura que não está apoiando Dilma? Todos os pops estão com a Marina, a começar pelo Caetano. Há um racha nesse momento, e eles são autoritários de um lado e de outro. No momento em que falamos tanto de inclusão, as forças são excludentes.

– Como um crítico consegue criar enquanto artista?

– Criar enquanto romancista é ser capaz de lidar com a razão e com a emoção. O livro “Mil rosas roubadas” é sobre isso, sobre como um professor pode escrever a biografia de um artista (Ezequiel Neves, o Zeca, produtor que lançou Cazuza e morreu em 2010). A escolha do narrador e do personagem não é gratuita. O narrador é professor, é um pouco da razão. O biógrafo é tudo o que o biografado gostaria de ser e que nunca conseguiu, porque era uma pessoa medrosa. O homem da razão é medroso, cuidadoso, meticuloso e não tem coragem de enfiar a cabeça na boca do leão. Ao passo que o artista tem uma vida perigosa, muito arriscada. O professor tem um salário no fim do mês, e o artista, não. Se o espetáculo dele não funcionar, ele vai ficar sem um tostão.

– E o leitor procura você nesse livro. Você se despe.

– Todas as minhas obras são autobiográficas, mas nunca foram confessionais. Essa é a primeira. Realmente tiro a roupa. Essa opção surgiu de eu ter visto meu melhor amigo morrer. É aquela primeira frase: “Perco meu biógrafo”. Perdi a pessoa que melhor me conhecia. Isso é uma perda irreparável, porque você não tem mais ponto de referência no mundo. Ele foi testemunha ocular, ou não ocular pelos relatos que eu contava. Ele perdeu a vida, e eu perdi também uma grande parte de minha vida. Esse é um livro sobre a sobrevivência.

– De alguma forma você tenta resolver isso na literatura?

– Resolver não, porque isso não é só meu, é de um viúvo, de um irmão, de um filho. É um livro sobre a perda e o que ela representa.

– A memória é um tema bastante recorrente na literatura contemporânea. O Luiz Ruffato, a Tatiana Salém Levy e muitos outros frequentam o tema. De que forma você dialoga com essa geração?

– Posso dizer que a memória sempre esteve em minha obra. O confessional é que era muito difícil para mim, porque significaria eu ter a coragem de penetrar numa questão para a qual tenho caminhado: perdi minha mãe com um ano e meio, e esse é um grande oco na minha obra, é algo sobre o qual eu não consigo escrever. O dia em que tiver o mínimo de domínio sobre o confessional é sobre isso que irei escrever. É memória, mas é sobrecarregada pela noção de perda. Não tenho uma memória feliz, e muitos desses autores têm. Minha memória é da perda, não dos achados.

– Qual o lugar que essa nova geração ocupa em seu olhar crítico?

– Abandonei meu lado crítico na parte prática. A diferença de geração é muito mais profunda do que a gente pensa. Minha concepção de linguagem, de literatura e de história literária é muito diferente da de um jovem. Graças a Deus. Tanto que hoje me recuso a ler manuscritos de jovens, porque lerei de uma perspectiva que, em lugar de melhorar o livro, irá estragar. Não falo a mesma língua. Eles estão, por exemplo, muito mais interessados em escrever uma literatura que seja, imediatamente, traduzida. Minha geração queria que o livro se transformasse imediatamente em filme. Preocupo-me muito com a ideia de cosmopolitismo, mas não acho que isso vai ser conseguido. No caso de uma literatura escrita em português é praticamente póstumo. Machado e Clarice são exemplos. Ela morreu com quase todos os livros em uma primeira edição.

– Você é contemporâneo de seu tempo ou de si mesmo?

– Acho que sou mais Murilo, sou bem excêntrico. O livro “Em liberdade” é totalmente excêntrico, numa época em que está todo mundo narrando a própria experiência política. Eu não, uso a roupa, o estilo, a experiência de Graciliano Ramos para contar uma experiência política.

– Isso é doloroso de alguma forma?

– Não, porque isso é o que gosto de fazer. Não gosto de fazer um livro para agradar, não consigo. A maior crítica que acho que possa ser feita a mim é que sou um escritor muito literário, interessado em uma estética do romance, da poesia. Ao mesmo tempo, acho que falta ao Brasil escritores literários. Se não há mais lugares para eles, isso não compete a mim.

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