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Além da técnica, discurso denso

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Segundo Arlindo Daibert, a arte não era apenas habilidade técnica. "Arte é um ramo vivo e dinâmico do pensamento humano", disse ele, em texto de 1980. Morto há 20 anos, o artista tornou-se reconhecido internacionalmente pelo apuro técnico, mas, também, pela destreza em refletir desde os aspectos até a própria artesania e sistema da arte. Em "Arlindo Daibert: 20 anos depois", que o Museu de Arte Murilo Mendes inaugura nesta sexta, obras de acervos de amigos e familiares se reúnem a vídeos sobre o artista juiz-forano, além de uma mesa-redonda, às 19h, da qual participam os pesquisadores Elza de Sá Nogueira, Júlio Castañon Guimarães e Jorge Sanglard, mediados pelo professor do Instituto de Artes e Design da UFJF Afonso Rodrigues.

Até a próxima segunda, 2, o público poderá assistir aos vídeos, às 17h, e conhecer um recorte do legado do artista pautado pelo afeto e resultante da coerência de um exímio desenhista, que, com igual talento, desenvolveu trabalhos de gravura e pintura e pequenos objetos. De acordo com Rodrigues, curador da mostra, por serem obras provenientes de acervo de amigos e da família, o resultado foi uma surpresa. "A exposição tem projetos desde os desenhos que o incluiu como nome importante no que a crítica chamou de ‘desenho mineiro’, às obras executadas em Paris, além de desenhos críticos à chamada grande arte", pontua.

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Em "L’oiseau de G. Braque a Recife", que encerra a mostra, o recorte afetivo está exposto na mesma medida em que ficam latentes os recursos sentimentais e o constante diálogo com a história da arte perseguidos por Arlindo Daibert ao longo de sua carreira. Na imagem, o desenho de um pássaro fazia referência à série "Os pássaros", do pintor francês Georges Braque, mas também ao presente dado por Leonino Leão, que em viagem a Recife lhe trouxe uma pequena escultura caracteristicamente nordestina.

"Arlindo Daibert força uma reflexão do espectador em diferentes sentidos, trazendo à tona várias questões que, a partir de um certo momento, estão todas relacionadas umas às outras, enriquecendo enormemente seu trabalho", aponta o pesquisador e crítico Frederico Morais, em texto de 1980. Para o escritor e crítico Ferreira Gullar, o artista é um desenhista de inegáveis qualidades. "Seu desenho é inventivo, mesclando, no comentário de obras pictóricas célebres, um sentido ora crítico, ora irônico, ora poético, que amplia a dimensão do trabalho gráfico", definiu em crítica para a revista "IstoÉ", em 1982.

Nessa busca por algo além dos traços, Arlindo desenvolveu a série "Retrato do artista", de 1981. Nas obras em exposição, parte do pintor em ação no quadro "O estúdio do artista", de 1666, assinado pelo holandês Johannes Vermeer para comentar a pintura na arte. "Ele segue, desde a representação objetiva do artista e a transforma até virar um ícone da pintura, abstraindo a própria imagem", analisa Afonso Rodrigues, destacando a sequência de obras expostas que permite a percepção do procedimento do autor. Da mesma forma, despertado para o processo que leva ao subjetivo, Arlindo compôs uma série com formas de ossos e sarcófagos.

Confirmando o estreito contato do artista com a arte clássica, a mostra também apresenta uma das obras mais elogiadas da exposição individual no Brazilian Centre Gallery, em Londres, em 1985. Além de inserir a cena do beijo no quadro "Alegoria do triunfo de Vênus", do maneirista italiano Agnolo Bronzino, Arlindo faz seu trabalho crítico. Nessa e em muitas outras obras, ele vai mais longe e mais fundo. O artista que nasceu em Juiz de Fora, em 1952, e despediu-se aos 41 anos, vítima de um aneurisma cerebral, não era afeito a superfícies. O autor da série "Grande Sertão", ilustrações que traduzem a obra-prima de João Guimarães Rosa, um de seus últimos trabalhos, mergulhava fundo. E suas profundezas, por consciência e sensibilidade do artista, eram acessíveis.

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Em 1989, quando Arlindo Daibert já havia voltado da França e se fixado no Brasil – entre 1975 e 1976 ele frequentou curso de técnicas de gravura no Atelier Calevaet-Brun, após ter recebido prêmio do governo da França -, sendo um dos professores do Departamento de Artes da UFJF, integrou a coletiva "Caminhos da liberdade: Bicentenário da Inconfidência Mineira", no Palácio das Artes, na capital mineira. O trabalho não apenas mostrava outra faceta do artista, hábil em colagem, mas instigava para uma crítica que não ficou datada. "Ele fugiu de comentários diretos à Inconfidência e foi mais longe, criticando uma submissão que vemos ainda hoje", pontua Afonso Rodrigues, amigo de Arlindo por mais de dez anos, já tendo dividido ateliês em São Paulo e São José dos Campos.

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Apesar de não conter muitos objetos – uma das atrações é a caixa da série "Babel", na qual está disposto um pequeno livro "desmontado", discutindo o próprio suporte das palavras e a pluralidade de leituras e línguas – e não evocar a forte relação literária do artista com a literatura, mantendo-se mais nos debates da história da arte, "Arlindo Daibert: 20 anos depois", mostra o vigor e as muitas precisões de um intelectual a serviço do diálogo denso (e às vezes tenso), mas, nunca, raso.

 

ARLINDO DAIBERT: 20 ANOS DEPOIS

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Exposição, debate e exibição de vídeos

 

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Hoje, a partir das 17h

 

 

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