O desenhista e pintor Cesar Balbi, que comemora 30 anos de carreira em 2011, não tem problemas em dizer que trabalha sob encomenda. Pinto para quem tem condições de comprar meus quadros. E é exatamente a maneira como se relaciona com o ofício que proporcionou a ele expor 14 telas em Dubai. A mostra Jardim secreto chega aos Emirados Árabes em setembro, após uma negociação com a brasileira Sarita Anawit, que vive em Dubai e se apaixonou por sua obra. Os quadros ficarão expostos na sala que leva o nome dela e embarcam vendidos. Já para meados de outubro, o artista prevê uma exposição de seu acervo em comemoração ao aniversário de carreira, que será exibida em Ubá, sua terra natal.
Como o nome da mostra denuncia, Jardim secreto tem florais como mote, os quais, conforme explica o autor, traduzem parte de sua busca pela simplificação do barroco, tão recorrente em seu repertório. Sou renascentista. E essa corrente está de braço dado com o barroco. Como me mudei para a região de Ouro Preto e Mariana, fiquei muito sugestionado a essa corrente. Agora que estou me soltando mais, depois que comecei a estudar a arte oriental. O resultado é esse trabalho mais leve, sem aquela coisa sofrida do barroco, explica Balbi, que descobriu, durante suas pesquisas, a existência de chinesices no estilo.
A linguagem recorrente no repertório de Balbi também explica parte do título da mostra, já que ele se inspirou nos jardins em forma de labirinto do barroco, onde era possível se perder. Inclusive, como ele adianta, a própria montagem da exposição terá essa referência, com biombos insinuando esse ambiente. Além disso, o nome também está ligado ao fato de as pinturas terem sido concebidas por Balbi enquanto estava só. É um jardim que era só meu.
Os quadros que compõem esse jardim chegam a ter 140cm x 54cm de dimensão e se desdobram por meio de técnica mista, com acrílica sobre canvas (espécie de tela feita com tecido de algodão). Alguns foram produzidos a partir de interseções com impressões. Balbi desenhava em pequena escala, mandava ampliar e imprimir no canvas, pintando por cima. A maioria foi feita assim. ‘Clono’ um quadro meu antigo, pego um detalhe e me recrio. Gosto de dizer que, no meu processo criativo, faço, desfaço e depois refaço. Isso agrega consistência ao trabalho.
Há 30 anos
Na parede de um dos quartos da casa de sua mãe, em Juiz de Fora, estão dois quadros remanescentes de sua primeira exposição, em 1981. É a partir deles que Balbi começa a contagem de sua carreira. Nas telas, desenhos em grafite mostram mulheres semi-nuas, com trajes inspirados na Belle Époque e nos cabarés. Balbi diz que, ao longo desses 30 anos, não existiu um momento no qual tenha optado pela carreira. Fui escolhido para isso. Desde criança, quando pegou o material de colorir dado pela mãe, nunca mais largou. Hora nenhuma tive dúvida do que iria fazer da vida. Tenho rascunhos meus de quando tinha 6 anos. Do mesmo período, Balbi se recorda de momentos vivenciados às margens do rio que cortava os fundos de sua casa, em Ubá. Desde então, ele já possuía uma obsessão pela perfeição, revelada pelas tentativas de desenhar um círculo totalmente simétrico na areia, com auxílio de um graveto. Tal ato está até hoje em seus processos criativos. Parte tudo daí. Só que esse círculo não se fecha, por mais perfeito que ele seja. Na prática, ele não fecha.
