
Déa Araújo escreve para crianças, mas acredita que a literatura não tem idade. Em seus poemas, bichinhos ganham voz, trompas ganham pescoços e até uma onça-pintada que mobilizou Juiz de Fora se transforma em poesia. Para ela, escrever é um exercício que nasce da observação, da experiência e, principalmente, do desejo de despertar novos leitores.
“O importante é viajar nas palavras. A pessoa que começa a ler abre as portas para mais leituras e vai apurando o seu gosto literário.”
Embora a literatura a acompanhe desde a infância, incentivada pela mãe e pelas professoras, a escrita ficou em segundo plano durante boa parte da vida adulta. Formada em Odontologia, ela passou décadas atendendo crianças em consultórios e no serviço público. Era ali, entre consultas e anestesias, que muitas de suas histórias começavam.
“Eu contava histórias para elas na cadeira do dentista. Se a gente não colocar a imaginação delas para voar, fica difícil realizar até as tarefas mais simples.”
Anos depois, muitas dessas narrativas se transformaram em poemas e livros infantis. Foi durante a pandemia que Déa decidiu “tirar os poemas da gaveta”. Já aposentada e cursando Letras, voltou a escrever, publicou textos nas redes sociais e encontrou incentivo ao vencer, em 2020, um concurso literário da revista Piauí com o conto “Saia dessa, José”. Desde então, não parou mais.
Hoje, é autora dos livros infantis “Tem um bichinho no meu poema” e “Tem um pescoço na minha trompa”. Também escreve para adultos e prepara um livro de contos, um romance, além de novas histórias voltadas ao público infantil.
Do cotidiano para os livros
A escrita de Déa costuma nascer do cotidiano. Um exemplo é o poema inspirado na onça-pintada que apareceu em Juiz de Fora e mobilizou equipes de resgate. “O objetivo foi deixar registrado um acontecimento que teve uma grande repercussão na nossa cidade e no Brasil todo.”
Nas apresentações que faz para crianças, ela primeiro conta a história real do resgate e, em seguida, apresenta o poema inspirado no episódio. “Elas vibram. Muitas nem eram nascidas quando isso aconteceu. Primeiro conhecem a história e depois descobrem que ela também pode virar poesia.”
As primeiras sementes da leitura
O contato com o público infantil é uma das partes mais importantes de sua trajetória. Déa afirma que as crianças são leitoras sinceras e que é na infância que nasce o gosto pelos livros. “Se elas falam que gostaram de um livro, é porque realmente gostaram. Se tiverem que criticar, criticam sem dó.”
Hoje, além das visitas a escolas e eventos literários, ela também tem um novo ouvinte para suas histórias: o neto de um ano e meio. “Meu desejo é que ele se torne um grande leitor e, quem sabe, um escritor também.”
Para Déa, formar leitores passa por derrubar a ideia de que existe uma única forma correta de ler. “Vale ler best-seller, vale ler autoajuda, vale ler on-line, ouvir audiobook. O importante é viajar nas palavras, porque, viajando nelas, a gente lê o mundo.”
O que há na estante de Déa Araújo?
Entre tantas possibilidades da literatura infantil, a autora escolhe um clássico que marcou sua formação: “Meu pé de laranja lima”, de José Mauro de Vasconcelos. Para ela, a obra continua encantando crianças e adultos ao mostrar que os melhores livros infantis atravessam gerações.

