
O editor da Tribuna Wendell Guiducci lança seu livro de estreia com apoio da Lei Murilo Mendes (Leonardo Costa)
“Curto & osso” (Funalfa Edições, 99 páginas) é conciso. “O último a sair apague a luz -, disse Deus arrependido do que ordenara no princípio”. É intenso. “Na cara não. Que fui ruim, mas deixo mãe.” É de um humor ácido. “Aqui jaz Afonsinho Peralta. Fumou cheirou prevaricou traiu bebeu fornicou e ainda assim encontrou uma boba que lhe comprasse uma lápide com estas verdades.” Nasceu e agora segue seu caminho. “Quando comecei a escrever estas histórias, estava determinado a cortar palavras, chegar à unidade mínima possível, mais atomizada da narrativa. A ideia é que a história tenha um sentido que se fecha ali, naquele pequeno fragmento”, conta o editor da Tribuna e músico Wendell Guiducci, que assina a obra como W.Del Guiducci e a lança no dia 4 de agosto, às 20h, no Café Muzik. Na noite, haverá discotecagem de Victor Fonseca e Thiago Salomão, companheiros do autor na banda Martiataka.
“A minificção é algo muito novo no Brasil, pouco difundida. Ela só se consolidou na virada dos anos 1990 para os anos 2000. Não tem muitos títulos ainda. Por isso, também, não quis fazer um lançamento em livraria. Pedi alguns amigos atores que fizessem a leitura de alguns textos e vou exibi-los. Vai ser uma noite para encontrar amigos, nada muito formal”. Gestados durante o mestrado do músico em teoria literária, os escritos foram parar em um blog (curtoeosso.blogspot.com.br), continuando a ter o mesmo destino ainda hoje, durante o doutorado. Dos cerca de 170, 99 foram distribuídos aleatoriamente nas páginas da publicação, ainda que a força de um e outro, de uma certa forma, tenha conduzido o criador. Na verdade, ao idealizá-lo, também, em formato de bolso com capa dura, a ideia do músico é dar ao leitor a oportunidade de lê-lo “de traz para a frente, de frente para traz, na maneira que achar conveniente”. E ele conseguiu.
– Tribuna – É evidente que suas referências são contemporâneas. Que referências são essas?
– Wendell Guiducci –Algo é sempre contemporâneo em relação a outro. Talvez ele seja contemporâneo a essa realidade em que a gente vive hoje, onde tudo é muito fragmentado, descontínuo, efêmero.
– Os textos são autobiográficos?
– Toda escrita é um pouco autobiográfica a partir do momento em que você usa referências das quais você experimenta, ou enxerga ou ouve. Você é o filtro de qualquer coisa que vai escrever, mas é um livro de ficção. São histórias inventadas, algumas ouvidas e transformadas, algumas, muito poucas, experimentadas, também transformadas, ficcionalizadas. É claro que isso passa pelas nossas vivências, e os assuntos são variados porque tem essa ideia da difusão da minificção. Ela é sempre uma releitura de vários gêneros, de vários temas, de várias experiências.
– Escrevendo ficção, conseguiu se distanciar do fazer jornalístico?
– Acho que há muito tempo a literatura, de uma forma geral, está muito contaminada pelo fazer jornalístico, e eu sou jornalista antes de tudo. As pessoas, às vezes, brincam, dizendo: “Ah, agora, você é escritor”. Não sou um escritor, continuo sendo o que sempre fui, um rabiscador de palavras, rabiscador de desenhos, rabiscador de música. Comecei a escrever crônica há mais de 15 anos. Na Tribuna, escrevo crônica desde 2010, e muitas destas crônicas são ficções e poderiam, algumas delas, pelo tamanho e brevidade, aparecer neste livro. Não me distancio do meu texto porque, embora eu esteja atuando em várias áreas, sou um só. Tudo isso me afeta, me atravessa, e eu deixo passar tudo isso. O texto jornalístico está muito presente, especialmente, quando falamos de minificção porque temos que ser breve, conciso, sintético. A noção de limite que eu trabalhava nas crônicas facilitou o desenvolvimento destas historinhas aí.
– O que você planeja daqui para frente como escritor?
– Vou continuar rabiscando palavras por aí. Eu sei o que fazer com o disco. Lanço um disco, vou fazer show, vendo esses discos, eles acabam, gravo outro disco e assim continuo. Não sei, exatamente, como funciona com o livro ainda. Estou começando a agendar alguns lançamentos agora. O lançamento começa em Juiz de Fora, no dia 4 de agosto, depois tenho um lançamento agendado em Ubá, minha cidade natal, dia 13, estou agendando em Belo Horizonte, no Rio e em São Paulo, talvez, Uberlândia. Não sei o que vou fazer com esse livro depois do lançamento, mas, certamente, vou continuar a escrever. Pelo menos, dois livros nos próximos anos estão engatilhados.
– Ter a obrigação de escrever uma minificção para um blog, em um dia determinado, engessa o processo criativo?
– Isso deu algo que eu não tinha para criação literária, que é a disciplina. Eu já tinha e tenho algumas coisas escritas, contos, alguns roteiros, mas era muito de vez em quando. Escrevia quando me dava na telha. Quando eu criei o blog, criei uma obrigação de escrever, e, quando você trabalha com essa noção de limite de tempo, nem sempre publica o que poderia ter lapidado melhor, ter tratado melhor e tudo mais. Foi um desafio que eu me impus para criar disciplina, mas, sim, ele engessa um pouco o autor. Na hora de escolher as histórias, acabei fazendo em um ou outro texto algum ajuste, mexi numa palavra. Mas, se eu não tivesse me colocado essa obrigação, esse livro não teria saído também. Quando comecei a publicar o “Curto e osso” no blog, fiz isso como parte do meu trabalho de pesquisa mesmo, me obrigando a pesquisar e me obrigando a escrever. Não pensava em publicar até encontrar, nos corredores da faculdade de Letras, o professor Fernando Fiorese, poeta, contista, romancista. Ele falou: “Wendell, você precisa publicar seus minicontos”. Aquilo me deu uma segurança, mas, entre esse papo até a publicação do livro, foram uns dois anos.
CURTO&OSSO
Lançamento de Livro, com discotecagem de Victor Fonseca e Thiago Salomão
4 de agosto, às 20h
Café Muzik (Rua Espírito Santo 1.081 – Centro)
O “Sala de leitura” vai ao ar aos sábados, às 10h30, com reprise às segundas-feiras, às 14h30, na Rádio CBN Juiz de Fora (AM 1.010)

