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Antes do apocalipse: trajetória de Baby do Brasil é repensada em documentário

baby do brasil

(Foto: Leo Lara/Universo Produção)

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No carnaval de 2024, Baby do Brasil subiu no trio elétrico ao lado de Ivete Sangalo e pregou aos foliões incrédulos: “O arrebatamento vai ocorrer entre 5 e 10 anos”. A cantora, que se mudou de Niterói para Salvador por uma coincidência do destino, morou debaixo da ponte e foi para São Paulo de carona, abarcando o estilo hippie dos anos 1980, mais tarde se converteu ao evangelismo e se tornou pastora ainda no começo dos anos 2000. Na ocasião, tentando se desviar do assunto, Ivete afasta o mau-grado afirmando que vai “macetar” o apocalipse, aproveitando também para referenciar sua música lançada naquele ano.

Na cinebiografia “Apopcalipse segundo Baby”, no entanto, o diretor Rafael Saar, que fez 18 anos de pesquisa nos arquivos da cantora e entrevistas diretas com ela, não busca afastar as crenças que sempre envolveram a vida pública de Baby: o que ele propõe, no entanto, é um mergulho profundo sobre o que constitui essa artista única no país, através do que considera mais autêntico em sua trajetória.

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(Foto: Leo Lara/Universo Produção)

Quando Rafael Saar abordou Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade com o projeto do filme, ele tinha 24 anos e era um jovem com bem menos experiência que hoje. O que chamou atenção, para ela, que já havia recusado participar do filme “Filhos de João, o Admirável Mundo Novo Baiano”, de 2009, foi o jeito pelo qual poderia contar sobre sua trajetória. Os dois estiveram presentes juntos em coletiva de imprensa na Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP), e ela contou que ele tinha uma leveza e uma ausência de vaidade que o faria aguentá-la e não julgá-la. E, vendo o resultado do filme, quase duas décadas depois, atesta que foi isso que aconteceu.

“Ele não impôs um pensamento crítico que pudesse confundir a verdade da loucura ou a loucura da verdade”, diz Baby. Envolvida em várias polêmicas nos últimos anos, mas também com uma carreira celebrada e de grande importância na música brasileira, ela diz que deu carta branca para ele abordar qualquer assunto. “Mas também sabia que qualquer coisa ele não ia abordar. Ele tem um lado muito chique e um olho de entender onde tem uma duplicidade para entender a intenção do filme“, conclui.

Neste processo, Rafael Saar entendeu que o que era mais importante valorizar era justamente a criação artística da Baby. “Quando criamos os caminhos visuais e sonoros do filme, pesquisamos esses caminhos que ela perseguiu enquanto artista. Tentamos não ter um caminho único, mas sermos múltiplos como a personalidade dela é múltipla”, explica. Um dos pontos decisivos do filme era o Caminho de Santiago de Compostela, que a cantora fez como peregrinação. Mas, quando conseguiram financiamento para ir até o local, contou que a cantora não pôde ir com eles.

Esse foi um dos desafios que encontraram pelo caminho de produção do filme. Para isso, fizeram o caminho sem ela, mas seguindo o diário de viagem que ela fez, e aproveitando muito sensorialmente da parte sonora do caminho, que foi incorporada junto às músicas que marcam o filme, com elementos como os sinos, o vento, o som da natureza e da mata.

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Narrado pela própria cantora, o filme também traz um diálogo com a história do Brasil,  com a ditadura e a história de ser uma mulher naquele tempo, como a única dos Novos Baianos. “Estávamos fazendo um filme com o olhar da Baby, hoje, sobre a própria história. É um ponto de vista contemporâneo dela sobre a própria história”, explica ele. Em sua perspectiva, foi importante não esperar nada, mas estar aberto a escutá-la e fazer o filme de acordo com as ideias que fossem surgindo. Baby, inclusive, também relata que ele conseguiu recuperar filmes que ela não via há décadas, como a produção italiana em que ela fazia uma mulher grávida, ainda na juventude. 

Um espelho

Em uma cinebiografia, há sempre o risco de se ver através do olhar do outro e também de ter sua história julgada. Baby confessa que sentiu esse receio ao ter sua história contada, mas afirma que poder receber o olhar do outro era algo que, mesmo assim, a atraía. Para ela, que passou por tantas fases ao longo da vida, e afirma em todas “não estar muito dentro do esquema”, foi se vendo que também se reconheceu.

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“A minha vivência como cantora, como pessoa e como mulher desde os meus 16 anos é muito diferente de uma coisa normal, com o quarto da criança, a louça da cozinha e os móveis da sala. Eu queria música, música, música, estava parindo, se precisava de dinheiro tinha atrás da porta, só não podia pegar muito”, relembra.

Ela chega a afirmar que todas as suas escolhas foram feitas sem se importar com status, mas já mirando que “seu tempo” poderia ser “lá na frente e bem diferente de tudo”. E continua recusando rótulos como “feminista” (prefere se dizer “feminina”) e afirma sempre “buscar a explicação espiritual das coisas”. Para ela, o que a resume é uma mistura de psicanálise, espiritualidade e contribuições à maneira Woodstock. Quando assiste ao filme (que, nessa altura, já viu quatro vezes), entende que sempre vai ter um momento em que fica claro quem é. “Me traduz perfeitamente. E desse jeito a gente vence também”, diz.

Baby do Brasil foi apresentada de forma múltipla no documentário, assim como ela verdadeiramente é (Foto: Leo Lara/Universo Produção)

O que interessa

Já sem Baby ao lado, Rafael Saar explica que, quando procurou a artista para o documentário, uma das perguntas às quais queria responder — e que reconhece que interessa a muita gente entender — é como a artista foi de hippie a evangélica. No processo, porém, foi entendendo que não tinha uma resposta para isso. E viu que a conversão não era a parte mais importante da história que podia contar. “Não era o que eu achava mais bonito na trajetória dela. Então, tentei fazer um filme que mostrasse a coisa mais luminosa que eu via nela”, diz. Nesse gesto, inclusive, ele defende uma visão diferente da cantora. Enxerga ter sim o seu julgamento sobre o que vale um olhar mais atento, e que seu gesto de escuta também se trata de um movimento autoral. 

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Ao colocar o filme para o mundo, também espera que seja essa Baby, entre muitas, que fique na memória das pessoas. “Acho que a minha intenção é colocar a Baby na visão progressista do que ela pode contribuir. E que eu acho que, no discurso dela, eu gostaria que fosse replicado e ficasse nessa memória. Tentei tomar muito cuidado com o que iria colocar no filme porque as pessoas buscam saber, mas nas redes sociais já conhecem essas histórias. Queria trazer um outro ponto de vista”, finaliza o diretor.

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