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Arte para além da simples contemplação

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Estar satisfeito com sua produção e com os meios que possui para fazê-la ser vista. O que para muitos pode ser algo utópico, para os convidados do último encontro do projeto Dois pra lá, Dois pra cá, sobre artes visuais, realizado no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM) no último dia 12, é uma realidade que permeia o dia a dia de sua arte. O desafio, por outro lado, está não somente em elevar a frequencia nas galerias, mas ter um público qualificado e com o hábito de frequentá-las. Produção, associação, comércio e formação de público também foram temas que tomaram conta de boa parte do debate.

Não produzo para ter sucesso de público, mas para preencher uma lacuna na sociedade contemporânea, pontuou o pró-reitor de Cultura da UFJF, José Alberto Pinho Neves, um dos convidados do encontro. O gestor enfatizou a necessidade de questionar a qualidade versus a quantidade do que é produzido na cidade. Escutamos muito que o que está aparecendo não é de qualidade, mas qualidade vai muito do conceito do que cada espaço vai adotar, destaca o pró-reitor, defendendo que cada espaço tenha uma linha própria. Para ele, focar em determinado aspecto não seria uma atitude anti-democrática das galerias. Ao contrário, seria uma maneira de cada artista encontrar seu próprio ambiente e dar espaço para todos.

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Conforme Sandra Sato, arte-educadora do Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), há espaço para todo tipo de arte na cidade. Se tem audiência, se está funcionando, é porque tem quem consuma. Faz-se necessário para ela, entretanto, discutir o perfil de quem realiza e de quem absorve esta produção das artes plásticas na cidade. Sempre fica algo dúbio. É preciso definir qual a nossa posição individual frente às artes. Se não nos posicionarmos, não temos o direito de julgar se o juiz-forano faz ou não.

Se para músicos e atores o cachê representa uma fonte de receita, para um pintor ou fotógrafo a renda vem de cada peça vendida. Mas é possível um artista se sustentar da própria arte? Sim, eu vivo da minha arte, responde taxativo o artista plástico e proprietário da Hiato – Ambiente de Arte, Petrillo. O ato da compra é, para Sandra, uma prova de que a comunicação foi estabelecida entre o artista e o público. Para ela, a arte pode ser definida como um idioma a mais que domina. O que mais me agrada é a resposta. O elogio vem da pessoa que deseja minha obra. Quero sempre saber quem comprou.

Já no lado da fotografia, sua comercialização como peça de arte é, segundo a fotógrafa Nina Mello, uma prática recente. Ela cita a experiência do leilão de fotografias que realizou no Espaço Experimental Nina Mello no início do mês como exemplo de oportunidade para o setor. A arte se completa no outro e, a partir do momento em que se vende uma peça, você percebe que o mercado existe. Cabe a você trabalhá-lo. Pinho Neves ressalta a necessidade de comprometimento ético do artista que coloca no mercado sua obra. Não pode haver um ‘queimão’ de arte. É preciso um certo controle, pois quando se populariza demais uma obra, ela acaba sendo banalizada, argumenta.

Assim como nos outros encontros do Dois pra lá, Dois pra cá, a iniciação e a formação de público para as artes nortearam boa parte do tempo dedicado ao debate. Para Sandra, a falta de hábito e iniciativa de se deslocar até uma galeria de arte não está diretamente ligada ao que é exposto. Acredito que seja mais uma questão cultural. Não foi preciso qualquer tipo de ação de incentivo para as pessoas irem ao shopping quando ele foi inaugurado. É uma questão de criar hábito, argumenta Sandra, citando como exemplo os próprios estudantes, candidatos a um estágio, além dos funcionários da UFJF, que muitas vezes só entram no Mamm para usar o banheiro. Entretanto, a artista acredita que Juiz de Fora tem potencial para as artes, prova disso é a longevidade alcançada por diversos espaços culturais na cidade. Temos que tomar cuidado ao ver uma situação que não seja a ideal, mas que é o possível de ser feito agora. As coisas estão melhorando, vemos cada vez mais espaços e estamos aprendendo à medida em que fazemos.

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Tanto para Sandra quanto para para Pinho Neves, é necessário pensar a arte de forma ampla e enxergar todo o espaço urbano como ambientes de onde se pode extrair cultura. É preciso ver que se pode falar de literatura no Parque Halfeld a partir do busto de Oscar da Gama, por exemplo, pontua Pinho Neves.

Para Nina, a questão central está em como deve ocorrer a aproximação com o público. A fotógrafa argumenta que é preciso trabalhar para criar espectadores e que apenas frequentar ambientes de arte não é o bastante. Às vezes, é preciso perder para ganhar. E, muitas vezes, perdendo, estamos ganhando muito, pois a arte tem o poder de modificar.

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A união entre artistas em prol de um bem comum é também vista com bons olhos pelos convidados do projeto. O coletivo é muito importante. É a organização em torno da sobrevivência, ressalta Pinho Neves. Ele enfatiza que a ideia de associação pelas artes é positiva sob qualquer aspecto. Vejo a associação como uma questão importante para levar para frente o que se produz. Mas também devemos discutir as prioridades das políticas públicas para a cultura e trabalhar com a consolidação de ideias.

Embora também destaque a importância da união entre artistas, Petrillo pondera que, individualmente, cada um deve ter uma postura mais profissional em relação às leis de incentivo e editais. É preciso que as pessoas se informem e procurem saber os trâmites. Há espaços interessantes, como o Espaço Cultural Correios e leis que podem financiar um trabalho.

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