Uma viagem de carro, em família, em um feriado prolongado. É com a sutileza desta imagem, uma memória quase universal, que a diretora chilena Dominga Sotomayor aborda o sempre delicado tema da separação de pais. Gravado no estilo "road movie", "De quinta a domingo" mostra as tensões entre um casal vista do banco de trás de um carro, pelos seus filhos Lucía, de 10 anos, e Manuel, 7. "Quis fazer uma história que não fosse exatamente sobre a crise do casal, mas sobre como as crianças percebem isso, com aquela inocência que aprendemos a esquecer quando nos tornamos adultos. É um filme que pode até ser sobre a última viagem da família junta, mas não é isso que importa, e sim como as crianças sentem este momento", diz a cineasta em entrevista à Tribuna.
Rodado em mais de cem festivais em cerca de dez países, o primeiro longa da diretora de apenas 27 anos foi contemplado como melhor filme em Roterdã (Holanda), Granada (Espanha), no Indielisboa (Portugal) e no New Horizons Film Festival (Polônia). Para Dominga, o sucesso (que ela menciona enquanto faz aspas no ar) do longa foi inesperado, pelas proporções e pela maneira como ocorreu. "Acho que os festivais são uma grande rede de distribuição. É claro que gostaria de ter um alcance maior fora deles, com um público menos específico, mas ainda assim foi tudo muito maior do que esperava. Na Polônia, por exemplo, tive uma distribuição muito superior à do Chile, o que é estranho, mas ao mesmo tempo interessante."
Segundo Dominga, que também assina o roteiro, ele foi redigido de uma maneira muito visual, algo que facilitou a gravação do filme. "Meus roteiros são sempre já meio dirigidos, então sei exatamente o que quero na hora de gravar", explica. No longa, o eixo narrativo é centrado na visão da adorável Lucía, que começa a compreender o que se passa entre os pais. "Ela está entre a maturidade para entender o que se passa e a crueza de não saber como interpretar aquilo, algo que ilustra bem essa fase de ainda ser uma criança e querer ser adulto, mas não se encaixar bem em nenhum dos rótulos, porque está em uma fase de transformação em todos os sentidos, inclusive o de sua visão sobre o mundo."
A diretora conta que vê muito de si na personagem e no próprio filme, algo que começou quando encontrou uma fotografia de quando era criança, em que está com o primo no teto do carro da família. A cena é belamente reproduzida com os irmãos do filme com rostos ao vento e largos sorrisos, enquanto a paisagem chilena vai ficando para trás. "Não é autobiográfico, mas tem bastante de mim porque o filme é todo estruturado na maneira como a memória é formada. A ideia é ver na tela o que fica com o tempo de uma viagem como esta: a maneira fragmentada como as crianças compreendem as coisas e formam suas lembranças. E claro que acabei imprimindo minhas próprias ali, conscientemente ou não."
Dominga destaca que o carro também é um elemento narrativo importante no contexto do filme e que atua como mais um personagem. "Minha ideia era mostrar como a nossas visões de mundo são mediadas, e a janela é uma metáfora disso, também ilustrada na maneira como as coisas não são ditas ou expostas diretamente às crianças. Por fim, acho que estar em um carro em si é como uma experiência cinematográfica, onde se vê o movimento por um frame, a janela". Ela explica que esta opção deixou alguns espectadores curiosos sobre o que se passa com os pais, já que o foco da narrativa nem sempre é nas tensões do casal. "Gosto de deixar que o público compreenda o que está acontecendo, sem fornecer interpretações que já vêm ‘mastigadas’", justifica.
Outra escolha de direção, que quase passa despercebida aos espectadores mais distraídos, foi a opção de não dar um nome ao patriarca da família, sempre chamado de "papai" pelas crianças e nunca tendo o nome mencionado, ao contrário da mãe, Ana. "Tem a ver com o mistério, uma certa complexidade do personagem, que não se revela todo. Em um outro nível, também ilustra o fato de que se, de fato, houver a separação, ele ficará ‘invisível’, pois os diálogos sinalizam que as crianças ficarão com a mãe."
"DE QUINTA A DOMINGO"
De Dominga Sotomayor
Hoje, às 21h
Cinemais Alameda
(Rua Moraes e Castro 300- Alto dos Passos)
