
Juiz de Fora tem se destacado no âmbito nacional da cultura hip-hop. Além da consolidação de eventos e criação de novos espaços para a divulgação da arte na cidade, talentos juiz-foranos despontam e projetam a cena local a novos patamares. Nas batalhas do freestyle rap e nos campeonatos de Slam pelo país, Juiz de Fora tem marcado presença e feito história. Apesar do talento e da representatividade dessa atuação, os artistas ainda enfrentam dificuldades para viverem da arte.
A final do Campeonato Estadual do Duelo de MC’s Nacional, uma das principais batalhas do freestyle rap do Brasil, aconteceu este mês em Belo Horizonte. O evento, criado no ano de 2007, pelo coletivo Família de Rua, teve, pela primeira vez, um juiz-forano como apresentador: o artista Robson Souza, o Menino da Vibe, foi o responsável por puxar os gritos das torcidas, estabelecendo uma nova conexão entre a cena local e o circuito nacional.
Já nesta quinta-feira (30) e no domingo (2), será a vez da fase estadual de Minas Gerais do Campeonato Brasileiro de Poesia Falada. O atual campeão da Competição de Slam de Minas Gerais é o juiz-forano Yhan Campos, conhecido como PretoVivo e autor da obra “Aluno problema”, o que permitiu sua classificação para a competição nacional.
Espaço de oportunidades
Menino da Vibe é um dos idealizadores da Batalha de Rima dos Bandeirantes, criada em 2017, em conjunto com João Victor Vargas, o Dentin. O evento organiza duelos freestyle semanalmente na Praça Arthur Bernardes, na Zona Nordeste de Juiz de Fora, e já se consolidou como espaço para os artistas locais.
Para ele, apresentar a final do Campeonato Estadual do Duelo de MC’s Nacional foi furar uma bolha e, também, realizar um sonho. Ele acredita que essas oportunidades trazem uma perspectiva aos ‘moleques’ que o acompanham de que eles podem alcançar seus objetivos, basta quererem e correrem atrás.
O artista menciona que a sua trajetória no hip-hop foi marcada por suportar o processo, estar todos os dias na rua rimando e com o objetivo de poder desfrutar vitórias, pois defende que apesar de ser um desenvolvimento árduo e doloroso, o resultado final acaba sendo prazeroso. Ele afirma que seu próximo objetivo é viver do seu trabalho e chegar num patamar em que possa ajudar seus amigos a atingirem suas metas.
“Sinto que a dificuldade vem de ser do interior, parece que a gente tem que ‘correr atrás’ dez vezes mais. Temos que ter o apoio da cidade também, algo que a maioria não tem. Eu acho que a gente já conquistou mais espaço e reconhecimento dentro do freestyle mineiro, mas parece que a cidade em si não reconhece isso, apesar das regiões de fora, sim”, afirma.
Novas caminhos para as rimas
Fundada este ano e realizada semanalmente na Praça Cívica da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a Batalha do Eclipse se apresenta como um novo espaço para os artistas juiz-foranos. O evento foi idealizado por Sidney César Novaes, o Novaes, também participante da Batalha do ‘Bandera’.
Ele relata que fazer parte da cena do hip-hop juiz-forano tem sido uma experiência incrível, principalmente por ver que muitas pessoas mais novas se inspiram nele e, a partir da recém-criada Batalha do Eclipse, ter a oportunidade de apresentar essa arte para mais pessoas.
Sidney revela que o seu sonho sempre foi viver de música e rima, então, o que o motiva é ver que aos poucos está crescendo com o seu trabalho. O artista relembra que aos 8 anos foi apresentado ao trabalho da banda Racionais MC’s e conheceu as batalhas aos 11. Dois anos depois, foi campeão da sua primeira batalha de rimas e define que foi “amor à primeira vista” pela arte.
Ele reconhece o desafio de mesclar a rotina do dia a dia com as batalhas, pois, apesar do amor, ainda não tem uma renda fixa com a arte.
Apesar da união que observa entre os MC’s em Juiz de Fora, Novaes relata que gostaria de ver mais projetos sociais por meio do hip-hop acontecendo nos bairros carentes da cidade.
O poder do hip-hop
Daniel de Paula Brasil, conhecido como BR do Free, é outro talento da cena local que tem contribuído para projetar Juiz de Fora na esfera nacional. Ele foi um dos um dos representantes da cidade na seletiva regional da Zona da Mata e Campo das Vertentes do Duelo Nacional de MC’s. Atuante na Batalha do Bandeirantes e vencedor da última que participou, ele conta que quando era mais novo não tinha a ambição de ser MC, mas, com o contato frequente com o videogame, conheceu um jogador que fazia uso das rimas em seus jogos e acabou se interessando. A partir disso, conheceu as batalhas da cidade e acredita que foi um passo muito importante na sua vida conseguir entrar no movimento.
Representar Juiz de Fora na competição regional foi uma sensação única, revela. Ele considera que a cultura hip-hop o relembra do que é importante para as pessoas, pois a partir dos eventos, pode rever seus erros e acertos, em busca de melhorar e conquistar um espaço que permita a sua evolução.
“Eu vejo as batalhas com um papel muito importante em Juiz de Fora, principalmente para a evolução das pessoas. Acredito nisso porque a cultura do hip-hop é um manifesto, ela é um protesto contra as injustiças do mundo, uma liberdade de expressão, um motivo de viver e ajudar o próximo. É isso que torna o hip-hop tão legítimo e íntimo pras pessoas”, defende.
BR afirma que a sua vitória mais recente foi a mais marcante, pois competiu em trio. Segundo ele, seus companheiros, PRB e Elicê MC, estavam com uma vontade muito grande de terem a sensação de vitória. O artista reforça a importância dar oportunidades aos ‘moleques’ que estão há pouco tempo na área.
Representatividade na arte
Premiado em primeiro lugar na disputa de poesia falada, PretoVivo conta que, desde a infância, organizava batalhas de rima na escola. Assim, o rap se aflorou através dos estudos, se apresentando como forma de fazer as atividades. Com autorização do professor, passou a fazer as tarefas por meio de rimas e poesias.
Este ano, o artista foi convidado para fazer um pocket show apresentando poesia falada na Batalha da Aldeia, considerada a maior batalha de freestyle do Brasil. O evento foi criado em 2016, em Barueri, São Paulo. Com notoriedade nacional, a Aldeia também participou de uma programação especial na edição do The Town deste ano, no qual ocorreu um torneio especial com 32 MC’s de diversas regiões do país.
PretoVivo leva o nome de Juiz de Fora para as batalhas de rima, tanto como MC batalhando, quanto como mestre de cerimônias, e também no Slam, por ser slammaster (organizador e mestre de cerimônia de slam) e slammer (competidor de poesia falada).
“Juiz de Fora é o lugar que eu amo e sempre vou estar. Santa Luzia é minha casa. Os maiores desafios não estão em conquistar respeito em Juiz de Fora, ou fora daqui, porque respeito, a gente conquista com postura, com o proceder. É assim que o hip-hop funciona. O grande problema que eu reconheço como artista é a dificuldade em consolidar uma base de público e apoiadores, sem ter que se provar e conquistar coisas fora daqui, além de se consolidar financeiramente na cidade”, desabafa.
PretoVivo relata que o que o move é a vontade de conseguir atingir a educação e o trabalho de base. Ele conta sobre a alegria em se perceber como representante de meninas e meninos que se parecem com ele quando era mais novo. O artista relata que acredita na força e no potencial do hip-hop e da cultura negra como ferramenta de transformação, um meio de levar alegria, acalento e reflexão pra toda população.
*Estagiária sob supervisão da editora Gracielle Nocelli
