Viver da arte, com a arte e pela arte pode ser considerado um mantra para o ator, diretor e dramaturgo Rodrigo Portella. Nascido em Três Rios mas com fortes ligações com Juiz de Fora, ele apresenta nada menos que três espetáculos teatrais com a Cia. Cortejo, criada em 2010 pelo artista, na décima edição do Festival Nacional de Teatro de JF: “Uma história oficial” (que abriu o festival, na última quinta-feira, e será reapresentada em 3 de novembro no CCBM), “Antes da chuva” (domingo, às 20h, no CEU/Zona Norte, e 5 de novembro, às 21h, no CCBM) e “Alice mandou um beijo” (neste sábado, às 20h, no CEU/Zona Norte, e 4 de novembro, às 21h, no CCBM), que será exibida pela primeira vez na cidade.
Enquanto preparava mais uma exibição no CEU/Zona Norte, conversou por telefone com a Tribuna e falou a respeito dos três espetáculos e também de sua ligação com a cidade, iniciada no final da última década e onde mora atualmente em caráter provisório. “Fui convidado há seis ou sete anos para dirigir ‘As bruxas de Salem’ para o Estação Palco e estabeleci uma relação de amizade com as pessoas, gente de muito talento. Depois voltei para dirigir ‘O cego e o louco’, que chegou a ter uma temporada na Alemanha em 2013, o ‘Quase nada é verdade’ em 2015 e ‘Floriano parte baixa’ este ano”, relembra. “Além de ter apresentado as peças com a Cortejo, que tem atores da cidade como José Eduardo Acuri, Suzana Nascimento, Priscila Helena… É interessante para mim essa entrada na cidade, saber que há um público interessado no nosso trabalho, gente que conheço. E é uma cidade de porte médio com muita vocação para a arte, o que é uma coisa rara, pois você observa que existem lugares com muitos artistas mas com um movimento que não é forte assim.”
Juiz de Fora, aliás, será a primeira cidade que receberá os três espetáculos de uma vez. E ele diz enfrentar o desafio com tranqulidade, mesmo com uma das peças estreando por aqui. “Na verdade, eu faço teatro há tantos anos que não fico mais nervoso, às vezes fico com saudade desse frio na barriga que tanto sentem por aí… Há, sim, essa expectativa, pois serão muitos amigos de teatro nos assistindo, será um momento especial.”
Estreia de um drama familiar
Dos espetáculos apresentados no festival, “Alice mandou um beijo” será encenada pela primeira vez na cidade. Segundo Rodrigo, a peça – assim como as demais – carrega várias ligações com o seu passado, seja por meio de histórias, sentimentos e coisas que aconteciam à sua volta. O espetáculo estreante em terras juiz-foranas é, segundo o artista, a que carrega a mais forte carga emocional quanto ao seu passado, por ser baseada na morte de um tio que desestabilizou a estrutura familiar. Para o palco, essa história passou por pequenos ajustes, que incluem a personagem principal. “‘Alice…’ é a história de uma família que perde a filha caçula muito jovem, em função de um câncer, e que terá que viver sem a presença dela, que era muito importante para essa essa relação. É um trabalho de atores, com um texto delicado sobre as delicadas relações familiares. São relações humanas, de amor, no sentido mais amplo da palavra. Amor de mãe, de tio, avô, de mulher e homem. Os mais variados conflitos ligados ao amor estão nessa peça”, esclarece Portella, lembrando que “Alice mandou um beijo” vem de uma temporada bem-sucedida no Teatro Gláucio Gil, no Rio de Janeiro.
Rodrigo Portella fala ainda a respeito dos outros espetáculos que podem ser conferidos no festival. “‘Antes da chuva’ é uma história de amor entre dois jovens, durante 15 anos, que inventam um amor possível entre ele. É muito delicada, romântica, poética. O espectador se emociona e ri durante o espetáculo. Já ‘Uma história oficial’ é a primeira peça da companhia e tem todos os atores oriundos de Juiz de Fora. É um texto político e muito cômico, sarcástico, irônico, importante para esse momento de polaridade política que estamos vivendo no país, de conservadorismo versus a revolução, esquerda contra direita, o rico versus o pobre, mas sem partido. Temos grupos muito definidos, com a classe artística defendendo a esquerda, e queremos abrir uma discussão sobre essa polaridade com a peça”, aponta.
“Eu tenho uma tendência de estabelecer um grau de pessoalidade muito grande com meus trabalhos”, continua. “‘Uma história oficial’ foi feito quando a esquerda estava em crise com o mensalão, pois havia uma questão de indignação com a esquerda em que sempre acreditei. ‘Antes da chuva’ tem relação com as minhas inspirações, perspectivas em relação aos laços afetivos, projeções minhas de uma relação futura. E ‘Alice mandou um beijo’ tem mais ligação com meu passado, é a história da minha família.”
Com gente de Minas
Radicado temporariamente em Juiz de Fora, a Cia. Cortejo tem atualmente um elenco majoritariamente formado por artistas locais, muitos deles pinçados de oficinas realizadas por Rodrigo na cidade. Segundo ele, os motivos para tal preferência são dois: talento e disponibilidade. “Tem muita gente talentosa em Juiz de Fora, com vontade e disponibilidade. Sei como é difícil conciliar os dois”, elogia. “Cheguei a montar uma companhia no Rio quando fui morar lá, mas a cidade é muito grande, e a pessoa acaba se dispersando, perdendo o foco, e ainda tem a presença da TV. Essa companhia tinha nove atores em 2006, e foi então que me vi ensaiando em um cubículo em Copacabana e esperando um ator chegar do Projac às 11 da noite, enquanto a atriz precisava dormir cedo para trabalhar no outro dia e outro fazia teste para uma peça do Miguel Falabella. Aqui você tem um pessoal a fim de trabalhar junto, de estabelecer parcerias, enquanto que no Rio pode haver uma relação de trabalho menos comprometida. Quando se consegue um equilíbrio, é maravilhoso, mas é muito raro de acontecer.”
Com uma carreira que já dura 23 anos (sendo 15 como profissional), Rodrigo Portella resolveu apostar em montar uma companhia teatral fora dos grandes centros – e, até agora, vem obtendo bons frutos. “Antes da chuva” já passou por quase cem cidades brasileiras e foi apresentada na Argentina, Alemanha e Equador, sendo indicada ao Prêmio Shell de melhor texto. “Uma história oficial” teve duas temporadas no Rio de Janeiro e também foi indicada ao Prêmio Shell, desta vez como melhor direção. E “Alice mandou um beijo” foi indicada ao Prêmio Cesgranrio (cujo resultado sai no final do ano) pela dramaturgia do espetáculo.
“A repercussão dos prêmios é fundamental para a abertura de espaços. É uma chancela de qualidade, facilita para conseguir espaço na imprensa, captação em editais. Se não fossem esses prêmios, muito provavelmente teríamos mais dificuldades de aceitação e entrada no mercado de trabalho”, acredita. “Sou artista porque acredito no caráter transformador da arte, é o meu veículo de comunicação com as pessoas, mas como artista também preciso viver disso, não é só para realizar um desejo particular. Criamos a companhia com o objetivo de viver da arte, e hoje vivo quase que exclusivamente do trabalho no grupo.”
Ainda que o tempo de existência (seis anos) seja considerado curto por ele, Ricardo Portella acredita que a Cia. Cortejo está “no caminho certo”. “Seis anos é um tempo muito curto para a visibilidade e respeito que conseguimos. Mas, ao mesmo tempo, ainda não é uma companhia referente; isso leva tempo, mas acredito que teremos uma estrutura melhor no futuro. Até porque a produção cultural no Brasil está num caminho muito bom, hoje se investe muito mais que há 20 anos. Mas temos muita estrada, muitas questões de produção para resolver, melhorar a qualidade do trabalho, aumentar a pesquisa, e assim conseguir mais recursos para fazer o trabalho que queremos realizar.”
