Nenhum aparelho eletrônico é adequado para crianças ou adolescentes, e todos os prejudicam enormemente. Pode parecer estranho que esta premissa seja defendida por um profissional que é formado em engenharia eletrônica, atua na área de ciência da computação desde a década de 1960 e hoje é titular do Departamento de Ciência da Computação do Instituto de Matemática e Estatística da USP (IME). Entretanto, para Valdemar Setzer, o uso de computadores, tablets, smartphones e mesmo da TV para qualquer pessoa abaixo dos 17 anos não apenas é desnecessário, mas pode causar danos permanentes à formação intelectual, emocional e cognitiva.
Eles deveriam receber, tanto no lar quanto nas escolas, informação adequada para sua idade, maturidade, contexto econômico e social. O problema é que todos estes aparelhos são feitos para a massa, sem qualquer preocupação com contextos. Um bom professor, mesmo em turmas de 30 ou 40 alunos, consegue dirigir-se a cada um em sua individualidade, e não a uma classe abstrata, pondera Setzer, que já lecionou nas universidades do Texas (EUA) e de Stuttgart (Alemanha), e estará em Juiz de Fora até a próxima quinta (31) para debater o assunto com pais, professores, estudantes de pedagogia e com a comunidade em geral.
Para o pesquisador, o uso dos recursos tecnológicos deve partir de alguns pressupostos de que crianças e adolescentes não dispõem, sendo eles: amplo conhecimento sobre o meio, discernimento sobre as informações acessadas, autoconsciência sobre a necessidade do uso e autocontrole para evitar a imersão excessiva. Estamos vivendo em uma época de ataque total destes aparelhos, que hoje não são utilizados somente no trabalho ou em casa, mas podem ser acessados a qualquer hora, em qualquer lugar. Se vemos adultos deixando de conversar em restaurantes, deixando de aproveitar um dia na praia, deixando de ter conversas porque não conseguem ter controle sobre o uso da tecnologia, como exigir isso de alguém que está em plena formação de todas as suas habilidades?, questiona Setzer.
Em sua visão, o professor destaca que o acesso considerado prematuro à tecnologia acelera o desenvolvimento intelectual e emocional de forma indevida. Na internet – que está em quase todos os aparelhos- e na TV há uma exposição imprópria ao erotismo, à violência e a muitos outros conteúdos impróprios. Isso acelera, por exemplo, o desenvolvimento sexual das crianças sem que elas estejam desenvolvidas psicologicamente para isso. No caso da violência, torna-as agressivas ou diminui sua compaixão, sua sensibilidade social. Outro problema apontado por Setzer é a apresentação de temas excessivamente sérios precocemente. Conheço crianças que leram sobre o aquecimento global e ficaram apavoradas, porque não têm maturidade para compreender este problema da maneira adequada. A criança, em particular, só deveria encontrar um mundo bom, belo e verdadeiro, questões filosóficas que remetem à Grécia, exemplifica.
Setzer aponta que outro grave problema dos aparatos tecnológicos é a limitação da criatividade por meio de um elemento em comum: a tela. Quando ela exibe uma imagem ou texto em movimento, a pessoa deixa de pensar ativamente, de imaginar… é diferente do que acontece quando lemos um romance, um jornal, ou contamos uma história, quando temos que criar realidades a partir do que nos é apresentado. Crianças nascem fantasiosas, criam mundos inteiros a partir de um simples objeto como uma cadeira, mas cada vez mais elas estão expostas a imagens que se repetem inúmeras vezes por minuto, roubando o espaço da imaginação e, por consequência, da capacidade de criar.
Na opinião do pesquisador, a impossibilidade de filtragem dos conteúdos é um agravante, chegando a ameaçar a integridade física e moral das crianças e adolescentes bem como de suas famílias. Se um pai, mesmo estando errado – porque não há necessidade alguma -, acredita que seu filho pode acessar a internet, ele deve permanecer ao lado da criança o tempo todo. A rede é um mundo aberto, onde se tem liberdade para chegar aonde quiser, e todas as crianças e adolescentes são ingênuos e podem estar sujeitos a ação de pessoas predadoras, fornecendo informações sobre si, sua família e sua escola, a alguém que pode estar fingindo ter a idade deles, por exemplo.
‘Desenhos e HQs são caricaturas da realidade’
Para Valdemar Setzer, os problemas na formação de crianças e adolescentes não está limitado à exposição a aparatos eletrônicos. Segundo ele, muitos brinquedos também possuem uma ação limitadora na criatividade e no desenvolvimento intelectual. A Barbie, por exemplo, é uma boneca que já vem preparada, com o sorriso desenhado, sem possibilidade alguma de mudança, sem poder chorar, preocupar-se. Na pedagogia Waldorf, existem bonecas de pano, com expressões minimizadas, que dão espaço para a criatividade. Perdeu-se a noção do que é adequado, dinossauros que são monstros, predadores são dados de presente como brinquedos. A maioria dos livros infantis também traz imagens deformadas, completamente afastadas da arte.
Além disso, ele aponta que desenhos animados e histórias em quadrinhos apresentam uma caricatura do mundo e da realidade, levando a uma concepção errônea deles e de tudo que é intrínseco a eles. A caricatura é uma gozação do mundo, que a criança ainda não tem maturidade para compreender. Nenhum desenho animado ou quadrinho é artístico. Como esperar que uma criança respeite a natureza se ela lhe é apresentada de forma distorcida?, pondera o pesquisador.
Para ele, contos de fadas são boas alternativas para o desenvolvimento dos pequenos, pois estimulam suas potencialidades. Os dos irmãos Grimm, por exemplo, foram coletados junto à tradições orais seculares, possuem um vínculo com a realidade e promovem uma união entre intelecto e emoção, dando abertura para a criação de imagens próprias. O professor defende que impedir o contato com a tecnologia , embora possa parecer um desafio para muitos, é simples. Basta colocar senhas nos computadores e nas televisões, impedindo que as crianças os utilizem. No caso dos aparelhos de TV, existem até chaves físicas que podem ser instaladas.
‘Usuários como máquinas’
Segundo Setzer, acreditar que a inserção dos computadores em sala de aula é um avanço educacional é um erro. Quando os alunos usam computadores e começam a ir melhor na escola, isso não significa que a tecnologia é uma grande solução, mas sim que todo o resto está falido. O ensino está tão ruim que até o computador ensina melhor, e ele não sabe o que acontece com cada criança, não tem sensibilidade para perceber uma mudança de comportamento ou de atitude.
Para ele, a informatização do ensino interfere diretamente na capacidade de pensar dos alunos. O computador trata usuários como máquinas. É assim que queremos que nossas crianças e adolescentes sejam tratados? O computador só aceita uma linguagem e rejeita qualquer comando diferente dela. O professor aponta, ainda, que o contexto social e econômico da implantação da tecnologia precisa ser levado em conta. Existe uma proposta do governo Federal de dar um tablet por aluno. Isso é criar alvo para bandidos. Como eles vão voltar para casa com estes aparelhos? Propostas como estas ignoram a realidade dos alunos e, por isso mesmo, são um erro pedagógico.
O pesquisador indica, ainda, que qualquer proposta de melhoria do ensino deve passar pela melhoria de condição das escolas, do salário e das condições de trabalho dos professores e das próprias bases do ensino da pedagogia. Os futuros pedagogos não estão aprendendo o fundamental: a primeira atitude do profissional da educação é amar seus alunos, opina Setzer, professor e pai de quatro filhos, todos educados no modelo Waldorf de educação, que busca seguir estes preceitos.
VALDEMAR SETZER
Dia 30
19h30 – Palestra Os meios digitais na educação, no lar e na escola: problemas e propostas, no Instituto Granbery
Dia 31
19h – Palestra para pais da Paineira Escola Waldorf aberta a toda comunidade (Auditório da Faculdade de Comunicação da UFJF)
