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O tempo pela frente

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Ela parece brincar quando diz: "Não tenho tempo para pensar na passagem do tempo". Mas é verdade. Dionysia Moreira é ligada na mais alta voltagem. "Não liga pra minha saliência não, sou assim mesmo", avisa, consciente de sua agitação. Entre as muitas atividades que integram a rotina dela estão ginástica, yoga, aula de teclado e violão, além de ensaios para shows. Aos 81 anos (completa 82 no dia 14 de outubro), Dionysia realiza seu grande sonho: o primeiro disco. "Estou igual a essas crianças com brinquedo novo", diverte-se.

Com canções de Nelson Silva, Mamão, Alfredo Toschi e alguns outros amigos de quando começou sua carreira, a cantora também interpreta compositores mais novos, como Roger Resende e Kadu Mauad. Todos são seus contemporâneos. Talvez, por esse motivo, que a coloca atenta ao tempo que viveu e ainda vive, a passagem dos anos tornou-se algo tão natural e prazeroso. Dessa forma, a dona da voz que não esconde suas origens na era do rádio – ela iniciou-se na PRB-3 e já cantou na TV Industrial – poderia, muito bem, ser uma das personagens de "A bela velhice", livro que a antropóloga e professora Mirian Goldenberg (confira entrevista na página 4) acaba de lançar.

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"Assim como não existe um projeto de vida igual ao outro, não existe um modelo de ‘bela velhice’ a ser imitado por todos", defende Mirian, entremeando relatos de anônimos à relação que estabelece entre o livro "A velhice", de Simone de Beauvoir, e sua pesquisa acadêmica. "O significado de cada forma de vida está inscrito na trajetória de cada indivíduo, em suas escolhas, em seus valores, em seus desejos, que são belos exatamente por serem únicos", escreve. E Dionysia Moreira espanta seus males – "o único peso da idade é corporal", conta – cantando, o que sempre lhe deu imenso prazer. Eleita por três anos seguidos rainha do Bloco Recorda é Viver, Dionysia é prova inconteste dos versos que entoa em "Tudo é preciso", de Alfredo Toschi: "Um minuto de felicidade, vale por um milhão".

"Quando acordo, sempre crio expectativas favoráveis. Quero aproveitar o momento", expõe o músico Joãozinho da Percussão, que se prepara para no próximo ano apresentar o espetáculo comemorativo de seus 75 anos. Com trajetória invejável, tendo tocado ao lado de grandes nomes da MPB, o percussionista já planeja um novo disco, mas diz não ter o fôlego para se apresentar até altas horas. O maestro André Pires também reconhece algumas limitações provenientes de seus 63 anos. "Fisicamente, perco algumas possibilidades, mas isso é compensado pelo conhecimento epistêmico. Sinto que cresci, acumulei sabedoria", diz, revelando sua ansiedade com a aposentadoria, planejada para o próximo ano e o consequente retorno aos palcos.

Aos 72 anos, o pintor Carlos Bracher continua empunhando suas pesadas caixas de tinta, pintando quadros de dois metros e carregando suas malas. No próximo dia 9, essas malas aportarão na Alemanha, quando ele lançará um livro sobre sua carreira na consagrada Feira de Frankfurt. "Estou super na vida, com um fogo nascente muito importante. Tenho hoje um sentimento de bênção adquirida. Estou na idade sonhosa das coisas", reflete, para logo completar: "Sinto-me cheio de futuro". E as tintas, que lhe deram o reconhecimento internacional, agora dividem a cena com as palavras. "Hoje escrevo muito, e minha pintura é mais descontinuada. Mas a arte para mim continua sendo o recinto da paixão."

Estar sozinho no palco, representando as densas/tensas lembranças de um ex-combatente solitário, foi a prova de que a maturidade deu a José Eduardo Arcuri certa coragem. "Uma pátria que eu tenho", monólogo que foi apresentado esse ano pelo ator de 62 anos, revelava a força da experiência. "Com 20 anos, e ‘uma vida inteira pela frente’, eu convivia com uma pressa de fazer e fazer muito, e tudo, experimentar cada gosto como se fosse o último. Agora, poucos anos me restando por aqui, a calma toma conta do meu exercício artístico, e eu me permito escolher o que me dá mais prazer, mais tesão, o que me traz, consequentemente, uma resposta mais consistente por parte do público que me assiste", analisa Arcuri.

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Joãozinho da Percussão também se sente mais seguro. "Sou mais certo do que faço, tenho menos medos", conta. "Quanto mais envelheço, mais ganho liberdade em relação aos parâmetros tidos como intocáveis. O tempo dá autoridade para eu me tornar mais ousado artisticamente", acrescenta Pires, utilizando-se de um termo que permeou toda a sua carreira. Arcuri finaliza: "A vaidade, inerente à exposição do palco, vai cedendo lugar ao prazer, puro e simples, de viver um texto e receber de volta a cumplicidade e a satisfação de quem compartilha comigo estes momentos. No final das contas, a felicidade, hoje, de estar no palco, me faz sentir novamente com 20 anos e ‘uma vida inteira pela frente’".

 

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‘Ter tesão é fundamental’

 Entrevista / MIRIAN GOLDENBERG, professora e escritora Como os artistas lidam com o passar dos anos? A Tribuna conversou com alguns deles, que falam sobre suas ‘belas velhices

Quando publicou em sua coluna semanal no jornal "Folha de S. Paulo" um texto intitulado "A bela velhice", a antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro recebeu uma enxurrada de e-mails, efusivos e emocionados. Em palavras sensíveis, a autora apresentava um horizonte menos nebuloso, mais otimista e, segundo ela, pleno em realidade. Recém-lançado, o livro "A bela velhice" (Editora Record, 127 páginas), inspirado na crônica, reúne relatos resultantes da pesquisa de Mirian, uma mulher de voz doce e sorridente, que acredita firmemente num futuro menos arcaico. Aos 56 anos, com algumas manchas e poucas rugas, ela se expõe na capa do livro e diz, em entrevista por telefone à Tribuna, que é simpática à passagem do tempo. "Nunca fiz plástica e nem uso maquiagem. Esse é meu jeito de envelhecer. Quero que a minha bela velhice seja inventada do meu jeito."

Tribuna – A que se deve Marieta Severo, Caetano Veloso, Ney Matogrosso, entre outros artistas dessa geração, servirem como exemplo de "bela velhice"?

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Mirian Goldenberg – Eles são bons exemplos não porque são famosos, mas porque representam aquilo que muitos "belos velhos" que não são famosos também têm. Eles demonstram ter tesão no que faz, e isso é fundamental. É o que me encanta quando vou ver um show do Paul McCartney, ou quando vi o show do Bruce Springsteen. O que menos me interessa são as músicas, e mais o tesão que eles têm em ficar três, quatro horas fazendo aquilo que eles mais amam. Isso é importantíssimo para qualquer "bela velhice", seja de um ator, de um cantor, ou de um jardineiro, de um professor como eu, ou de uma dona de casa. Não precisa ser celebridade.

-Em determinado momento do livro, seus entrevistados defendem que esses artistas são exemplos de pessoas que não recusaram a idade….
-Eles são exemplos da aceitação das diferentes fases da vida. O Ney Matogrosso tem 72 anos e não dá para chamá-lo de velho. Ele é um típico exemplo de "ageless", sem idade, inclassificável. Muitos velhos hoje são muito mais jovens, em termos de tesão, de paixão, de envolvimento, de projeto, do que pessoas de 20 anos como os alunos para os quais dou aula, que não tem o menor tesão, interesse, comprometimento ou energia para nada. Não são todos, ainda bem. Acredito que, por tudo que tenho pesquisado nos últimos 25 anos, não dá mais para falar de jovens e velhos. Existem pessoas que não entram em nenhuma categoria.

 

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– A palavra projeto é muito frequente no seu livro e no seu discurso.
– É ter um significado, que é o que muitas vezes não vejo na vida dos meus alunos. Quando há um projeto de vida, a idade não importa. O meu projeto de vida maior é escrever, e isso eu sigo desde muito jovem. Muitos velhos que eu encontro descobrem seus projetos tardiamente, como mostrei no livro: "Ah! Sempre tive que ganhar dinheiro, trabalhar, e agora que me aposentei vou fazer medicina".

– Qual é a imagem dos velhos de hoje?
– As pessoas de mais de 60 anos que tenho pesquisado estão no auge da vida, e elas falam: "É o melhor momento da minha vida!", "É a primeira vez que posso ser eu mesmo!", "É a primeira que posso ser livre!". Elas vivem isso com muita intensidade. Mas ainda continua se falando em velho miserável, adoentado, fraco e excluído. Hoje não é mais isso. Inclusive, o mercado ignora esse novo velho, e ele é um grande consumidor, que quer coisas de qualidade e coisas bonitas. Os comportamentos mudam muito mais rapidamente do que os valores e as representações. Em qualquer aspecto cultural, os valores resistem. Tanto é que as pessoas estão se separando e casando novamente, mas o valor do casamento, de ter filhos e uma família permanece muito forte em nossa cultura. Por isso estou fazendo uma espécie de campanha com meu livro, para mostrar para as pessoas que aquilo que elas acreditam que é um velho já não é mais.
 

– Como você percebe a produção cultural e artística para essas pessoas?
– Na produção cinematográfica da Europa e dos Estados Unidos tem aparecido muitos filmes sobre pessoas com mais de 60 anos. Eles descobriram que é um público que vai ao cinema. No Rio de Janeiro, quem vai ao teatro, ao cinema e compra livros são eles. E eles também querem se ver representados de uma outra forma. Assim como não existe um jovem monocórdio, existem milhares de formas de ser jovem, também não existe um velho só. É preciso falar no plural. Não dá para representá-lo com uma imagem apenas. Essa padronização diminui a potencialidade de inventar a própria "bela velhice".

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