
Para falar da unidade, Gisela Barbosa e Fernanda Cruzick optaram por falar das diferenças. As autoras lançam hoje, na Livraria Arco-íris, dois livros infantojuvenis que dialogam sobre a inclusão e a essência dos seres – "A história das três bonecas", lançada com apoio da Lei Murilo Mendes, e "A criação segundo a mitologia iorubá", com selo da Franco Editora.
Para expor suas reflexões, as autoras se apropriam de contos de duas culturas distintas. "A história das três bonecas" é uma livre adaptação de um conto indiano. A cultura do país tornou-se mais próxima de Gisela a partir de uma viagem à Índia feita pela pesquisadora, que trabalha com a difusão de ensinamentos espirituais de origens várias. A participação em um encontro, no sul da Índia, no fim de 2011, colocou a juiz-forana em contato com os dogmas do "encontro com a verdade" e com os contos do jamaicano Mooji. "A verdadeira busca esvazia o buscador. E o que fica é apenas o silêncio do Ser", assevera o mestre.
A obra conta a história de três personagens de naturezas diferentes. Salete era feita de sal, Ariane, composta de areia, e Guta, de gotas. Brincando na beira das águas do mar, as três resolvem disputar qual delas era mais parecida com o oceano e, em sua busca pela verdadeira identidade, acabam descobrindo que a unidade pode residir na diferença.
"É preciso ter cuidado ao trabalhar esses temas, pois a unidade para o mundo dos muitos vira absolutismo", observa Gisela. "Para passar um ensinamento, não basta ir só ao intelecto, é preciso tocar os afetos. E as histórias, os contos – caminho já acessados pelos povos ditos primitivos – permitem mover a racionalidade humana para essa transcendência", acrescenta.
Já "A criação segundo a mitologia iorubá" explana sobre as diferenças entre os seres humanos, o nascimento do planeta e dos seres sob a ótica da cultura africana, que utiliza as figuras simbólicas dos orixás. "Os dois livros se ligam a partir dessa ideia de inclusão, ainda que uma ocorra no plano físico e a outra esteja mais ligada à essência do ser", explica Fernanda Cruzick, que assina a coautoria e as ilustrações das obras.
O projeto do primeiro livro em parceria, do conto das três bonecas, nasceu de uma brincadeira. Durante um café, Gisela contou a história ouvida do mestre na Índia a Fernanda, que logo começou a esboçar os desenhos. "Pensamos que daria um belo livro infantojuvenil", conta a ilustradora. A ideia foi desenvolvida e culminou na obra, que abre caminhos para outros projetos de contos de ensinamentos, que já estão sendo desenvolvidos.
A base gráfica do trabalho lançado pela Lei Murilo Mendes traz os ladrilhos hidráulicos mais antigos da cidade, resgatando a memória histórica e arquitetônica da Cia. Pantaleone Arcuri, estudada por Fernanda, que é graduada em artes. Os fundos das páginas fazem uma alusão à linguagem pictórica de Candido Portinari, em seu painel do Edifício Clube Juiz de Fora. Com projeto já aprovado na Lei Rouanet, a ilustradora está em fase de captação dos recursos de "Tapetes e molduras – A arte da Fábrica de Ladrilhos Pantaleone Arcuri".
A partir das pesquisas da dupla, a criação literária e pictórica vai ganhando identidade, em um processo criativo bastante livre. "Se bem investigada, a ideia chega pronta", diz Fernanda, incluindo a técnica na categoria de "acontecência gráfica".
A HISTÓRIA DAS TRÊS BONECAS
A CRIAÇÃO SEGUNDO A MITOLOGIA IORUBÁ
Lançamento nesta quinta-feira, às 19h30
Livraria Arco-íris (Garden Shopping – Rua Halfeld 744/ loja 4)

